Obrigada, professor Lutz
José Lutzenberger, nosso grande professor na defesa da natureza, faria 100 anos em 2026. Trago algumas memórias de seu exemplo de luta
Arquivo APEDEMA5 min de leitura
Lutz não era um ser humano qualquer. Tinha um profundo conhecimento científico das questões ambientais e uma determinação impressionante e contagiante na luta em defesa da natureza.
Sua postura inspirou gerações e gerou uma verdadeira epopeia no Rio Grande do Sul em defesa do meio ambiente, que perdura até hoje como uma resistência firme e necessária, já que empresas e governos insistem na pilhagem irresponsável do meio ambiente. Continuam a promover absurdos, mesmo diante das lições dramáticas que o meio ambiente estendeu aos gaúchos nos últimos tempos, a exemplo da grande enchente de 2024.
Lutz foi fundador e o primeiro presidente da Agapan - Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – em 1971, uma das organizações ambientalistas mais antigas e combativas do Brasil. Através dela, Lutz arrebanhou professores, biólogos, jornalistas, estudantes, donas de casa...
O Brasil estava em plena ditadura militar, mas ali iniciaria a luta contra a liberação e uso indiscriminado de agrotóxicos, contra o manejo predatório da arborização urbana, em favor da preservação de ambientes naturais e de cursos de águas, em defesa da Amazônia, contra a instalação do Polo Petroquímico sem o manejo adequado dos tratamentos de efluentes e tantas outras.
Repoluição
Entre as mais emblemáticas, e de maior apoio popular, esteve a luta contra a fábrica de celulose Borregaard que submetia os porto-alegrenses à poluição do ar e das águas. Passados mais de 50 anos, os ambientalistas gaúchos se veem às voltas com a necessidade de lutar novamente pelas mesmas bandeiras

A imagem de Lutz estampa o edifício do Instituto de Previdência do Estado, em Porto Alegre, mural pintado em 2022 pelo artista Kelvin Koubik. Nesta foto de maio de 2024, ele parece observar sua cidade natal arcar com as consequências do descaso com a natureza. Já em 1974 ele alertava no artigo "Inundações, suas causas e consequências" que a drenagem de banhados e a destruição da vegetação nativa eliminam a capacidade natural de absorção de água, agravando os desastres climáticos.
Na Porto Alegre de 2026, ambientalistas se empenham para impedir a ampliação da CMPC – Celulose Riograndense que projeta ampliar sua planta fabril para um despejo de 396,4 milhões de litros por dia no Guaíba.Uma carga equivalente ao esgoto gerado por cerca de 2 milhões de pessoas. Especialistas alertam que os tais efluentes podem conter substâncias como dioxinas e furanos, classificadas como poluentes orgânicos persistentes, de alta toxicidade e longa permanência no ambiente.
Mas o aceno de 25 bilhões de investimentos da CMPC seduzem políticos e governos que estão passando pano para o cumprimento de exigências em licenças ambientais, tais como ser região de área protegida de Mata Atlântica, de espécies endêmicas, com presença de comunidades indígenas, sem falar na própria quantidade e (má) qualidade dos efluentes a serem gerados. A CMPC ameaça que, caso a licença não seja emitida até outubro de 2026, o investimento poderá ser realocado para outro país.
Por mim, tchau. Outros ambientalistas também abanam. Se o Lutz ainda estivesse vivo, certamente seria mais uma voz dando adeus em alto e bom tom.
Tantas lutas
Lutz levantou a voz e abriu os olhos do mundo sobre a destruição da Amazônia, ainda na década de 70. Nos anos 80, ele, Agapan e outros ambientalistas aprovariam de forma inédita na América do Sul a Lei Estadual sobre o controle dos agrotóxicos e a Lei das Águas, que serviram de modelo para os demais estados brasileiros. Fundariam a Secretaria do Meio Ambiente em Porto Alegre, abrindo caminho para a criação de outras secretarias ambientais do país e do próprio Ministério do Meio Ambiente.
É obra de Lutzenberger também a criação do Parque do Delta do Jacuí, do Taim, do Turvo, de Itapuã, de Itapeva, do Espenilho, do Morro do Osso e da Reserva Ecológica Municipal José Lutzenberger, hoje Reserva Biológica do Lami José Lutzenberger, bem como a criação do Parque Nacional Fernando de Noronha e a elaboração do primeiro Plano de Manejo de Parques do Brasil.

José Lutzenberger palestra na China, no ano 2000, quando recebeu o título de Professor Honoris Causa pela Universidade de Shandong – Foto arquivo Lurz Global
Várias homenagens a Lutzenberger vão acontecer neste ano. O Fórum Internacional do Meio Ambiente, promovido pela Associação Riograndense de Imprensa em março prestou sua homenagem ao Professor e apresentou um audiovisual com depoimentos inéditos de integrantes da Agapan sobre Lutzenberger, que você pode conhecer aqui.
Como integrante da EcoAgência de Notícia Ambientais, tive a oportunidade de entrevistar grandes ambientalistas contemporâneos de Lutzenberger, como Sebastião Pinheiro, Caio Lustosa, Jacques Saldanha, Alfredo Aveline (Lama Samten), Flavio Paim, Celso Marques, entre outros. O projeto “Ambientalistas do Sul”, desenvolvido em 2022 e 2023, teve o objetivo de registrar as memórias de “ambientalistas raiz” da Região Sul do Brasil. TODOS, absolutamente TODOS os que entrevistei do Rio Grande do Sul fizeram uma referência explícita à importância fundamental de José Lutzenberger para o ambientalismo gaúcho. A playlist das entrevistas pode ser conferida aqui.
Veja também a série de depoimentos de ambientalistas “Minhas memórias com Lutz” no Lutz Global aqui.
Minha homenagem
O ano de 2026 marca os 100 anos de nascimento do grande ambientalista José Lutzenberger e é claro que temos muito a comemorar pelo seu nascimento, mas principalmente agradecer por todos os seus ensinamentos.
Eu tive a oportunidade de fazer isto em vida. Após uma de suas brilhantes palestras, fui até ele, abracei e disse com todas as letras: obrigada, professor, por toda a sua luta e seus ensinamentos.
“Mas tem muito pra fazer ainda”, me respondeu meio constrangido pelo abraço, já que não era muito afeito a intimidades.
Olhando hoje para aquele momento, fico feliz por ter podido abraçá-lo e agradecer. E triste em ver que ele tinha toda razão: há ainda muito a fazer e tanto a refazer.





