Nutrição ou opressão?

Escolhas para uma alimentação verdadeira, saudável e sustentável

Vera Mari Damian

Vera Mari Damian

06/10/2026
Nutrição ou opressão? Freepik/NBE

5 min de leitura

­­­— Mãe, eu já preparei todos os ingredientes da receita, mas agora faltou xícara — veio comunicar meu menino de 8 anos, animadíssimo em fazer o bolo da receita que tinha copiado da televisão. 

Em seu auxílio, descobri que ele havia colocado cada item em xícaras separadas, com a ideia de que só depois deveriam ser misturados. Diante daquela fileira de xícaras, contive o riso, expliquei e ajudei. O bolo ficou ótimo.

Esse acontecimento real provoca risos entre nós até hoje, a cada vez que é lembrado. Mas promover a autonomia acabou incentivando o gosto do menino pelo preparo de alimentos. Hoje, ele é reconhecido por suas filhas como “o pai que faz comida boa”.

São variados os elos que conectam os umbigos ao fogão. Melhores são aqueles que têm a saúde e o amor como fontes de energia para dar e receber alimentos.

Nestes tempos de glamorização de pratos - que incluem até concursos com humilhações aos cozinheiros -, e da apologia às canetas emagrecedoras, cujas consequências a longo prazo ainda são desconhecidas, o Nosso Bem Estar propõe uma volta às origens e o conhecimento sobre a importância do simples e natural. 

O cérebro do intestino

Mais do que fornecer energia para o organismo, os alimentos participam de processos relacionados ao funcionamento cerebral, equilíbrio emocional, qualidade do sono e capacidade de concentração. 

A alimentação exerce um papel fundamental na saúde do cérebro em todas as fases da vida. Isso porque os nutrientes obtidos por meio dos alimentos participam da formação, do funcionamento e da proteção das células cerebrais.

Todo mundo já ouviu falar que o intestino é o “segundo cérebro” e isto não é alegoria. O sistema digestivo apresenta um sistema nervoso próprio, chamado de sistema nervoso entérico. 

Só no intestino existem cerca de 500 milhões de neurônios e mais de 30 neurotransmissores diferentes. Ali são produzidas, por exemplo, 90% da serotonina - substância química reguladora do sono, do bem-estar e do humor - e 50% da dopamina, responsável pelo estado de motivação e recompensa. E os responsáveis por esta produção são nada menos do que os bilhões de bactérias, vírus e fungos que compõem a microbiota intestinal.

Ou seja, devemos agradecer a estes seres invisíveis da nossa flora intestinal que nos auxiliam na digestão e nos acompanham ao longo da vida por ajudarem a moldar a nossa estrutura cerebral, influenciar o nosso humor, comportamento, saúde mental e a saúde em geral. 

Equilíbrio

Enquanto uma dieta equilibrada favorece o bom funcionamento cerebral, padrões alimentares inadequados podem aumentar a vulnerabilidade física e emocional. 

Dietas com maior presença de alimentos in natura ou minimamente processados, como vegetais, frutas, leguminosas, oleaginosas, peixes e fontes de gorduras insaturadas (“boas”) estão associadas a uma melhor regulação metabólica, menos inflamação sistêmica e menor risco de sintomas depressivos e ansiosos. 

Por outro lado, uma alimentação baseada em ultraprocessados, excesso de açúcar e gorduras de baixa qualidade pode estar relacionada a mais fadiga, pior cognição e maior instabilidade emocional. 

Quando há desequilíbrios frequentes no corpo, o funcionamento dos processos mentais tende a piorar. O inverso também é verdadeiro: o estado mental/emocional interfere diretamente nas escolhas alimentares.

Muitos ultraprocessados favorecem a inflamação crônica de baixo grau e o estresse oxidativo, processos que afetam áreas do cérebro ligados ao humor, à memória e ao controle emocional. 

Segundo pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), a participação dos ultraprocessados no consumo total de energia da população brasileira aumentou cerca de 36% entre 2002 e 2018. Um dado que poderia estar diretamente associado ao (altíssimo) faturamento das farmácias no mesmo período.

— Nosso ambiente mudou muito nas últimas décadas. Mudou a alimentação, aumentou o contato com micro-organismos, com o uso de medicamentos e com a exposição ambiental tóxica. Mudou provavelmente também a nossa microbiota em decorrência do aumento do consumo de alimentos ultraprocessado e de carnes processadas, aliados à redução no consumo de fibras — explica a nutricionista Gabriela Zago, especializada em Nutrição Esportiva e Fisiologia do Exercício.

Segundo ela, o aumento do índice de câncer de intestino, inclusive entre jovens, é um fenômeno real e bastante preocupante e pode estar associado a essas mudanças no consumo, pois são itens importantes quando se fala em saúde intestinal. Também os microplásticos – presentes nos alimentos, água e ar – podem estar interferindo na nossa (falta de) saúde. “Ainda não há evidências científicas da influência dos microplásticos em alergia e/ou câncer em humanos, mas certamente já são uma preocupação ambiental e de saúde pública”, afirma Gabriela Zago.

Terrorismo Nutricional 

A conquista da saúde através da alimentação não vai depender de refeições isoladas, mas do conjunto do que fazemos ao longo do tempo. Uma boa dica é voltar aos padrões “do tempo da vovó”. 

“De maneira geral uma alimentação saudável deve ter variedade e predominância de alimentos in natura ou minimamente processados: frutas, verduras, legumes, feijões e outras leguminosas, cereais integrais, sementes e castanhas, além de fontes adequadas de proteína e boas fontes de gordura”, orienta a nutricionista.  

Ela alerta que a suplementação alimentar através de cápsulas e pílulas tem virado “moda”, mas só deve ser feita quando existir uma necessidade identificada.  “A suplementação não compensa uma alimentação inadequada. O alimento deve ser a base”, alerta.

“Também não acredito em terrorismo nutricional: açúcar, pão, sobremesa ou eventualmente um alimento ultraprocessado não transforma um padrão alimentar saudável em uma alimentação ruim. O que precisamos observar é a frequência, quantidade e, principalmente, qual é a base da alimentação daquela pessoa”, orienta Gabriela Zago. 

“Uma alimentação saudável precisa ser aquela possível, respeitando a cultura, a rotina, condições financeiras e a vida social do indivíduo.  A melhor alimentação não é a mais restritiva nem a mais sofisticada. É aquela que atende às necessidades nutricionais daquela pessoa, protege a saúde dela e ao mesmo tempo, consegue fazer parte da sua vida”, conclui.

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Vera Mari Damian

Vera Mari Damian

Jornalista, ambientalista e produtora cultural

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