Resistência verde em alta
No Rio Grande do Sul movimentos em defesa das árvores e das florestas urbanas reagem à especulação imobiliária
Ricardo Stricher/PMPA4 min de leitura
O Brasil tem mais de 87% da sua população vivendo em cidades, mas a falta de planejamento, associada a comportamentos imobiliários predatórios (gestão pública incluída), cada vez mais comprometem a qualidade de vida dos seres que nela habitam.
Entre os mais importantes elementos de qualidade de vida urbana estão as árvores. São elas que reduzem a poluição atmosférica, melhoram a qualidade do ar e a temperatura, atenuam o ruído urbano, promovem a biodiversidade, protegem a água e o solo e reduzem os riscos de desastres climáticos.
A arborização urbana está associada à melhoria de diversas condições de saúde física e mental. Contribui na redução de sintomas de depressão, ansiedade, estresse e fadiga, fortalece o sistema imunológico e está conectada a menores índices de doenças respiratórias, cardiovasculares e cerebrovasculares. Além disso, áreas arborizadas estimulam a prática de atividades físicas, o convívio social e o lazer ao ar livre.

Tudo isto já deveria ser mais do que suficiente para valorizar o patrimônio arborístico de uma cidade, mas o que se vê são mobilizações cada vez mais frequentes (e necessárias) da população para cobrar condutas adequadas do poder público e para frear a especulação imobiliária que insiste em ocupar espaços a qualquer custo, especialmente derrubando árvores.
Na rua mais bonita do mundo
Recentemente, em Porto Alegre, o movimento VIVA GONÇALO mobilizou moradores e entidades ambientais para impedir a construção de torres de até 60m de altura próximas à rua Gonçalo de Carvalho, cujo túnel verde de tipuanas foi reconhecido como Patrimônio Histórico Cultural e Ecológico da Cidade. A rua que ganhou o título de “Mais Bonita do Mundo” em uma eleição internacional, agora corre risco de ser impactada, entre outros itens, pelo sombreamento excessivo das possíveis construções.

Foto: Stephen Messenger
Os movimentos de resistência pipocam por toda a parte. Na capital gaúcha, moradores e entidades também se mobilizam pela preservação de remanescentes urbanos de Mata Atlântica na Floresta do Sabará, Floresta da Lomba e Floresta da Restinga.
Em Caxias do Sul, a entidade Conselho das Árvores encaminhou ao Ministério Público denúncias de cortes de árvores e podas drásticas, efetuadas na maioria das vezes pelo próprio poder público, enquanto movimentos comunitários se mobilizam para impedir derrubada de um maciço urbano para a construção de um hotel.

Foto: Vera Damian
Fios e postes
As companhias de distribuição de energia elétrica dão a sua grave contribuição com podas que muitas vezes condenam as árvoresà morte ou à queda.
“É um jogo forte do sistema econômico e nós, ambientalistas, sempre lutamos contra essa forma indiscriminada de tratar a arborização sem cuidados maiores. Estamos vendo uma desfiguração da arborização das cidades a partir do interesse supremo das empresas de distribuição de energia elétrica e com a conivência de dos órgãos públicos”, pontua o biólogo e ativista Paulo Brack, do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais – InGá, em Porto Alegre.
“A especulação imobiliária destrói a arborização urbana para ganhar alguns milímetros a mais e depois fugir da cidade pela qual ela não tem consideração nem amor. Já a construção civil séria valoriza e amplia a quantidade de árvores, porque sabe dos seus benefícios ambientais para a cidade. Árvores embelezam a vida e transformam as cidades num lugar saudável porque as flores, as aves, as borboletas e tudo o mais que vem junto com as árvores fazem parte indispensável e indelével da saúde humana”, complementa Francisco Milanez, diretor Científico e Técnico da Agapan – Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural.
Plano Nacional obriga a ampliação de áreas verdes
O Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), lançado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) em novembro de 2025 durante a COP30, visa ampliar áreas verdes nas cidades brasileiras.
Entre as metas definidas até 2045 está elevar a cobertura vegetal para 3,29 milhões de hectares, beneficiar 40 milhões de pessoas com mais arborização no entorno e garantir instrumentos de planejamento em 100% dos municípios.
O PlaNAU reconhece que árvores são parte da infraestrutura essencial das cidades e dá orientações para ampliar e qualificar a cobertura arbórea urbana.
Entre as definições das metas de arborização urbana está a “Regra 3-30-300”, referência internacional para cidades mais verdes, que estabelece três parâmetros centrais:
- garantir que cada pessoa veja pelo menos três árvores de sua residência;
- que cada bairro tenha ao menos 30% de cobertura arbórea;
- que todos vivam a uma distância máxima de 300 m de uma área verde.

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