A dança dos sarandis

Onde irão se empoleirar as garças, os socós, os martins-pescadores?

Paulo Brack

Paulo Brack

10/04/2023
A dança dos sarandis Arquivo pessoal

3 min de leitura

Sabes a origem do verbo sarandear (dançar)?

Eu sarandeio, tu sarandeias, ele sarandeia, nós sarandeamos, vós sarandeais, eles sarandeiam.

Tudo indica que vem de algumas plantas exclusivas de beira de rios, chamadas sarandis, que, com as enchentes, tremem seus galhos altamente flexíveis, num balanço que parece uma dança. Então o verbo sarandear deve ter sido inventado por algum(a) amante das danças gaúchas, sendo o termo mais conhecido no Rio Grande do Sul.

Sarandi é um nome de origem tupi-guarani. Tem cidade, bairro e localidades com esse nome, principalmente no Pampa internacional (Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina).

Bom, agora vamos à Botânica. A espécie de sarandi mais conhecida é o sarandi-vermelho, Gymnanthes schottiana, da família das euforbiáceas (a mesma da mandioca, seringueira e mamona).

É uma planta anfíbia, um arbusto alto, quase uma árvore, muito ramificado e que tolera enchentes e corredeiras. No Salto do Yucumã, no Parque Estadual do Turvo, se pendura nas corredeiras, sem problema. As folhas são pequenas e estreitas, para aguentar o atrito com a água, os ramos são altamente flexíveis, para aguentar o tranco, e as raízes são bem ramificadas, geralmente aderidas a frestas de rochas.

Pouteria salicifolia

Pouteria salicifolia - Caçapava do Sul

O pequeno fruto, quando seco, explode, jogando três sementes na água, até encontrarem um remanso ou uma fresta e virem a germinar.

Os outros sarandis são também arbustos, raramente árvores baixas, em geral com folhas estreitas, cuja base é aguda, em “V”, justamente para diminuir o atrito com a água, ou seja, permitir maior hidrodinâmica em rios caudalosos.

Existem os sarandis-branco (Phyllanthus sellowianus e Cephalanthus glabratus), o sarandi-amarelo (Terminalia australis), o sarandi-mata-ollho (Pouteria salicifolia), entre os mais conhecidos, pertencentes a outras famílias botânicas, mas que têm em comum convergências morfológicas, ecológicas e sobretudo evolutivas. Levaram milhões de anos para se adaptar a este habitat altamente seletivo, que poucas plantas conseguem ocupar.

Phyllanthus sellowianus

Phyllanthus sellowianus - Cascata dos Venâncios - Camabará do Sul

Mas hoje seus habitats estão ameaçados...

Lacuna no conhecimento

Estas e outras plantas de zonas ripárias (margem inundável), adaptadas aos pulsos de água de enchentes e secas, são denominadas ecologicamente de Reófitas, estando associadas à borda das matas ciliares, ribeirinhas, ripárias, em galeria, infelizmente a maioria destruída por atividades humanas (agricultura, hidrelétricas, mineração de areia, construção civil, aterros...).

A construção de hidrelétricas atualmente é a principal causa do desaparecimento de sarandis e demais Reófitas, um assunto pouco conhecido da maioria, tanto na engenharia de quem projeta a construção, no licenciamento ambiental, na justiça que, ao fim e ao cabo, libera as obras contestadas judicialmente pelos ambientalistas e acadêmicos que lidam com o assunto.

É um tema de enorme lacuna de conhecimentos, inclusive nas pesquisas botânicas e ecológicas.

Para piorar a situação, em um estudo que fizemos e publicamos em 2015, constatamos que havia 278 projetos de hidrelétricas previstos para a bacia do Rio Uruguai, afetando seus habitats.

Imaginem o que sobrará de Reófitas e onde irão se empoleirar as garças, os socós, os martins-pescadores?

E que sombra e que peixes terão os(as) pescadores(as) que vivem dessa atividade que alimenta suas famílias?

Esperamos que os seres humanos, se racionais, respeitem a vida de outros seres que vivem nestes ecossistemas há milhares e milhões de anos e não façam "dançar" os sarandis e toda a biota associada embaixo de colunas de água das hidrelétricas.

É bom destacar que todas essas espécies de sarandis ocorrem também nas margens do Guaíba e estão sujeitas, conforme leis ambientais, a uma faixa de proteção enquanto Áreas de Preservação Permanente (Lei Federal n. 12.651/ 2012) de 500 m desde a margem do Guaíba em direção aos terrenos dos municípios que o margeiam. Porto Alegre incluída.

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Paulo Brack

Paulo Brack

Paulo Brack é biólogo, mestre em Botânica, doutor em Ecologia, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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