Litoral incompreendido

O litoral do Rio Grande do Sul dispõe de várias características que o tornam único! Falta sabermos interpretar e compreender o que essa região da imensa planície costeira nos oferece

Sílvia Marcuzzo

Sílvia Marcuzzo

09/02/2026
Litoral incompreendido Prefeitura de Torres

5 min de leitura

Ah, nosso querido litoral, resultado de avanços e recuos do oceano, testemunho de tantas coisas que foram e continuam sendo apagadas. Nessa época do ano, surgem nas redes (anti) sociais manifestações que caracterizam a nossa costa como algo reto, sem graça, de cor desprezível.

Tenho percebido que precisamos lapidar melhor, com mais atenção, esse imaginário sobre o nosso litoral. Essa coisa de achar que naquela parcela do território gaúcho dá para transformar em qualquer coisa porque é sem graça, é fruto de ignorância ou tem por trás interesses obscuros, onde o poder e o dinheiro estão dando as cartas.

Ambientes cheios de peculiaridades

Nosso litoral dispõe de várias características que o tornam único! E o que falta é justamente sabermos interpretar e compreender o que essa região da imensa planície costeira nos oferece, permite que seja feito. O rosário de lagoas, por exemplo, com rios de extrema beleza e sinuosidade da Bacia do Tramandaí, é algo que precisamos conhecer melhor, conviver para dar valor. Por que até hoje não tem atividades de ecoturismo, como a travessia entre lagoas? Quando fui repórter do Correio do Povo, nos anos 90, cobri a ida da Lagoa Itapeva até o encontro do rio Tramandaí com o mar.

Sem conhecer, poucos terão interesse e capacidade de se mobilizar pela sua preservação. Inclusive, acredito que essa pouca visibilidade que se dá para atributos naturais do nosso litoral, com ecossistemas sensíveis e cheios de peculiaridades, é uma estratégia de quem quer transformá-lo em algo pouco comprometido com a sua conservação. Explico: quanto menos observarmos as aves, a relação delas com os mariscos, com as restingas, com os tuco-tucos, melhor será para aqueles que visam o lucro acima de qualquer coisa. Ou seja, quanto mais nos distanciamos dos ambientes naturais, mais fácil será para destruí-los.

Resta muito pouco dos ambientes naturais que não foram altamente impactados no Litoral Norte. E aí, te pergunto: além do Parque da Guarita, conhece o Parque Estadual de Itapeva em Torres? É a única Unidade de Conservação que guarda ecossistemas com mata, restinga e faixa de praia do nosso litoral.

Parque Estadual de Itapeva

Foto: Prefeitura de Torres

Agora imaginem o que será da região se o tal Porto de Arroio do Sal sair do papel? Em tempos de pós-verdade, as pessoas preferem ouvir o canto da sereia do desenvolvimento, daquele lero-lero de geração de empregos, do que considerar o que cientistas de várias áreas das ciências ambientais, sociais e econômicas estão alertando.

Nosso litoral tem um terreno altamente instável, com regime de ventos, dinâmica de dunas, entre outros elementos, que denotam que não é viável sob o ponto de vista econômico e ambiental fazer um cais onde não há qualquer vocação portuária.

Nosso litoral, além de ser o único do país a não contar com mangue, carrega muita história que tem sido empurrada para debaixo do tapete. Tanto da época dos sambaquis, aliás, restou algum pra contar a história? (a saber, a rua Rio dos Índios, na divisa de Xangri-Lá com Atlântida, dava num sambaqui que foi totalmente esquecido, invisibilizado pelas administrações municipais). Sobrou alguma construção dos primeiros veranistas?

Desconfio que muitos condomínios foram erguidos em cima de sítios arqueológicos…

Outro aspecto que acredito que merece nossa atenção é compreender o significado do que aparece de fauna e flora na faixa de areia. Já viu como atuam os mariscos, aqueles brancos, grandes, de aproximadamente 10 centímetros? Pois eles andaram sumidos por muito tempo e voltaram, pelo menos eu os vi em quantidade o ano passado. Eles têm um jeito próprio de se alimentar, andam em comunidade e fazem a alegria dos raros marisqueiros que se lembram de fartas coletas no século passado.

Se hoje tem sido menos frequente a tal coloração que alguns chamam de Nescau (devido às algas), é sinal de que as correntes marítimas do norte estão chegando com mais intensidade por aqui. Junto com elas, vêm a água mais quente e as águas-vivas.Tudo isso que estou levantando constatei ou ouvi da boca de cientistas. Nosso litoral ainda é rota de aves migratórias, como maçaricos, batuíras, andorinhões. Isso sem falar das UCs que ficam mais ao Sul, onde ficam o Parque Nacional da Lagoa do Peixe e a Estação Ecológica do Taim.

Por onde anda a educação ambiental?

E aí te pergunto: onde se difunde, se explica para a população as características do nosso litoral? Já visitaste o Ceclimar em Imbé? Por que o lençol freático lá é tão próximo da superfície? Por que prefeituras ou mesmo o próprio governo do Estado não se preocupam com educação ambiental e em divulgar as razões do nosso ambiente ser tão peculiar? E será que até hoje se constroem edificações sem rede de esgoto?

Se tanta gente passa mal – perdi as contas de quantos casos ouvi – ao tomar banho nas paradisíacas, mas sujas, praias de Santa Catarina, é porque o planejamento urbano do estado vizinho tem sido bem mais negligente que o nosso. Isso não é por acaso; os técnicos da Fepam têm um importante papel nesse contexto, que sofre pressão de todos os tipos. A propósito, a balneabilidade deste veraneio evidenciou que Capão da Canoa necessita de medidas para amenizar a poluição da água.

Por essas e por outras, me inquietei para escrever o quanto precisamos valorizar o nosso litoral. E também porque estou morrendo de saudade de colocar o pé na areia na orla salgada. Faz quase um ano que não sinto o Nordestão me acariciando o rosto. Que saudade de me deparar com bolachas-do-mar, caravelas, conchas, garças, peixinhos nas ondas e o barulho dos piru-pirus.

E de perceber o quanto as feições e os trejeitos dos gaúchos têm relação com as características incisivas da nossa planície costeira. Ou, ainda não reparaste no formato das figueiras que ainda estão em pé próximas à beira da praia?

(Texto adaptado de uma publicação no Sler, com autorização da autora.)

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Sílvia Marcuzzo

Sílvia Marcuzzo

Sílvia Marcuzzo é jornalista, "artivista" e participa de coletivos e redes onde procura articular ações e disseminar informações sobre como a comunicação se relaciona com a sustentabilidade. Instagram @silmarcuzzo

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