O que as paisagens dizem sobre quem somos?
Como as paisagens que você habita te constroem?
Freepik/NBE2 min de leitura
*Gabriela Gazola Brandão
Paisagens não são cenários a serem observados. Tampouco meros suportes físicos inertes sobre os quais existimos.Paisagens são vivas, têm cheiro, som, tato, gosto, emoção, memória – e nos afetam muito mais do que costumamos supor.
Somos seres situados, ou seja, existimos em algum lugar: nossa existência física é, necessariamente, atrelada a um espaço geográfico, a uma paisagem. Deste fato decorrem diversas implicações, uma vez que somos influenciados pelos lugares que habitamos, pelas paisagens que habitamos.
Não se trata de determinismo com causa e efeito diretos, gerais e previstos, uma vez que cada ser é único, apresentando particularidades de comportamentos e fisiologia que diversificam as respostas às experiências semelhantes.
Trata-se de influências que se tornam íntimas e próprias daquelas existências, o que fica bastante evidente se ilustrarmos a questão com casos de povos que habitam geografias extremas no que diz respeito ao clima, por exemplo.
Dinâmicas
Pensemos nos esquimós que habitam o Círculo Polar Ártico e seu mundo-vivido**. Os tipos e ritmos das atividades desenvolvidas em um dia e ao longo de um ano, a alimentação, os costumes, a natureza das relações sociais, as edificações, o transporte – todo um modo de vida e uma existência diretamente relacionados com aquela geografia, em resposta a ela, construídos a partir dela.**
Ou ainda, mais perto de nós, considere as seguintes paisagens: urbanas metropolitanas, litorâneas, rurais de montanha.
Quais as dinâmicas do cotidiano das pessoas que habitam cada uma delas?
Qual a natureza das possibilidades para ações triviais como deslocar-se todos os dias para o trabalho ou para comprar algo?
Onde e como se dão os encontros e os desencontros?
Onde e como acontece o relacionar-se com o espaço vivido, com a paisagem, com o outro – as relações sociais?
Que elementos visuais, olfativos, sonoros, táteis, afetivos, fazem parte do dia a dia dessas pessoas?
De que são permeadas suas experiências, e, portanto, suas existências?
As possibilidades de interação a que somos convidados são distintas entre si conforme onde nos situemos.
Assim, nossas ações, comportamentos, modos de nos relacionarmos, hábitos, afetos e, portanto, nossa identidade, são afetados e construídos a partir do que nos oferece a paisagem que habitamos.
Ampliando para um grupo social que habita o mesmo cenário, temos elementos que compõem a cultura local, a identidade de grupos sociais, o senso de pertencimento.
Proponho, aqui, uma reflexão para o leitor: como as paisagens que você habita te constroem?
*Gabriela Gazola Brandão é arquiteta e urbanista pela UFMG, pesquisadora associada ao GHUM (Grupo de Pesquisa Geografia Humanista Cultural) e autora do livro “Ser-Terra: paisagens do café”



