Consumidor ou cidadão?

O cidadão é muito diferente do consumidor ideal e, numa sociedade democrática, deveria ser o rei do mercado

Arno Kayser

Arno Kayser

20/10/2021
Consumidor ou cidadão? Drobotdean/Freepik/NBE

2 min de leitura

É muito comum, nos dias de hoje, ouvirmos a afirmação de que quem manda no mercado é o consumidor. Tudo é feito para ele e em função dele. Frase muito corrente na boca de teóricos de marketing e da mídia.

Segundo este pressuposto o consumidor é o rei de tudo. Ele é quem manda.
Na opinião dos ecologistas esta tese, mais do que uma constatação de realidade, é um desejo dos marqueteiros. Desejo de que todos nós transformemo-nos em simples consumidores. Com isto abrindo mão da nossa posição de cidadão em troca do suposto estado nirvânico da condição de consumidor.

Quem é o consumidor ideal para estes marqueteiros? Em primeiro lugar um cara com muita grana. Pobre está excluído desta condição de “poderoso determinador do mercado”.

Em segundo lugar o consumidor só consome. Não crítica nem exige coisa nenhuma. Um cara que busca somente a satisfação de seus impulsos e desejos de modo egoísta e sem questionamentos de qualquer espécie.

Pouco importa como e a que custos sociais o produto foi feito. Quanto mais idiota ele for melhor. Mais fácil de ser induzido pelas campanhas publicitárias. Especialmente aquelas que, habilmente, manipulam os desejos e carências das pessoas através de filmes, programas de rádio e TV e outras estratégias.

Consumidor consciente

Bem diferente deste consumidor ideal é o cidadão.

Em primeiro lugar porque o cidadão só compra o que precisa de fato e evita o que é supérfluo.

O cidadão questiona a qualidade do produto quanto aos seus aspectos de saúde.

Ele pergunta sobre os processos como o produto foi produzido.

Quer saber se estes processos não agridem a natureza, não exploram pessoas ou crianças.
O cidadão pensa no bem da coletividade. Se um produto tem problemas ele se organiza para denunciá-lo, boicotá-lo ou para exigir das autoridades a sua retirada do mercado. Já, se o produto é bom, o cidadão divulga, espontaneamente, suas virtudes.

O cidadão não se deixa enganar por campanhas de publicidade. Mesmo as mais bonitas e charmosas. Ele mantém seu espírito crítico.

O cidadão sabe distinguir uma publicidade honesta e informativa de uma campanha manipulativa.

Ele busca consumir produtos que respeitem os princípios de uma vida saudável e justa. Produtos que atentam suas necessidades reais e que contribuam para melhorar a vida de quem os produz e que não só sirvam para gerar lucros, misérias e problemas ambientais.

O cidadão sabe reconhecer os bons publicitários que buscam trabalhar de forma honesta e ética, existentes em grande quantidade na praça.
O cidadão é quem deve ser, numa sociedade democrática, o rei do mercado e não um mero consumidor.

Esta reflexão é importante de ser feita quando pensamos em meio ambiente. Isto porque a sua defesa só entrou em pauta por força da luta de milhares de cidadãos no mundo todo.

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Arno Kayser

Arno Kayser

Agrônomo, ecologista, escritor e autor do Blog “Para pensar a Ecologia em dias tão confusos”.

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