Quem fica depois das eleições?
A cada quatro anos, elegemos um presidente e, de brinde, descartamos amigos. Será que dá para discordar do voto sem terminar a relação?
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Em 2018, eu já tinha amigos queridos que apoiavam Bolsonaro. Quando percebi o ódio crescendo entre os eleitores dele e os de Haddad, propus a uma amiga terapeuta para formarmos um grupo, mediado por ela, para entender os pontos de vista dos dois lados e o que impedia manter amizades e laços familiares com os opostos. Ela gostou da ideia, mas não conseguimos colocá-la em prática. O resultado foi o que se viu: brigas, amizades desfeitas e famílias rachadas.
Em 2022, a polarização repetiu o roteiro. Agora, em 2026, o filme é o mesmo. Nos últimos dias, li muitas declarações públicas de decepção, cancelamentos e rompimentos de relações que pareciam antigas.
Tenho a sensação de que, a cada quatro anos, as pessoas fazem uma faxina nas relações: “essa aqui não serve mais”, e vai para o descarte, como a roupa velha do armário. Só que amigo não é roupa, e o armário das relações não se reabastece com facilidade.
Sei o impacto que uma vitória ou outra terá na minha vida e na de milhões de brasileiros. Também sei que a maioria dos meus leitores já decidiu o voto, e não tenho a intenção de convencer ninguém. Quero apenas propor uma reflexão: como conversar, nestas eleições, com quem pensa diferente de nós?
Chamar o adversário de ladrão, mentiroso, raramente convence alguém, e muitos de nós fazemos isso quando estamos certos de que o outro está errado. Quem ouve o insulto ao seu candidato só se fecha mais, e a conversa acaba antes de começar.
Medo e mentira
As campanhas sabem disso e exploram o medo da vitória alheia em vez de discutir o que de fato mudaria no país. O medo e a mentira são velhos instrumentos de poder. Hitler justificou a invasão da Polônia, em 1939, com um falso ataque à rádio de Gleiwitz, encenado por nazistas disfarçados de poloneses. Em 2003, os EUA invadiram o Iraque sob o argumento de que o país tinha armas químicas e biológicas, que nunca foram encontradas. Quando alguém tenta nos assustar demais, convém perguntar o que quer que deixemos de enxergar.
Circula um meme que diz: “Tem gente que pesquisa mais antes de comprar uma air fryer do que antes de escolher um presidente”.
Tem um fundo de verdade, e talvez todos tenhamos um pouco dessa air fryer política para rever: quantas vezes compartilhamos uma notícia sem checar a origem só porque ela confirma o que já pensávamos?
Há quem vote por impulso, só contra um candidato, sem nada a favor do outro. E há os que se abstêm, votam em branco ou anulam; são mais de 25% do eleitorado.
A decepção com a política explica parte disso, mas quem se ausenta de votar deixa que os demais decidam por ele.
Proponho duas perguntas simples: o que cada candidato fez e o que promete fazer? Na minha leitura, nenhum dos dois deve surpreender.
Lula tende a manter o caminho de ampliar os gastos sociais, ainda que com pressão sobre o déficit fiscal, bem como manter uma certa independência dos interesses de Trump.
Flávio, se cumprir o que anuncia, tende a buscar cortes de gastos e propor mudanças na Constituição, alinhando-se com a política e interesses de Trump no Brasil.
É uma leitura minha e pode ser contestada. Não há nada de errado em haver projetos distintos. É para isso que existem eleições. Mas o voto não termina na urna: depois de escolher, o eleitor passa a ser fiscal do eleito, cobrando que cumpra o que prometeu, seja quem for.
Respeito
Há ainda um problema que a urna não resolve. As ofensas de agora não terminam quando com a apuração. Quem rompeu relações terá dificuldades para reconstruí-las. Talvez nem queira, mas muitas vezes não terá escolha: o colega de trabalho continuará na mesa ao lado e os familiares, na ceia de Natal.
Pois é, os presidentes passam, os mandatos terminam e as bandeiras de campanha acabam guardadas. Mas a pessoa que hoje pensa diferente de você pode ser aquela que amanhã estará ao seu lado quando a vida apertar.
Antes de excluir alguém da sua vida por causa de um voto, faça uma pausa e se pergunte: vale a pena ganhar uma discussão política e perder uma amizade?
Quem sabe, em vez de uma faxina nas amizades, façamos uma faxina naquilo que nos impede de reconhecer a humanidade do outro. Porque uma democracia mais forte não nasce quando todos pensam igual, mas quando pessoas que pensam diferente ainda conseguem sentar-se à mesma mesa, conversar, rir, discordar e continuar se respeitando.




