Os “papas” da IA versus o Papa Leão XIV

Quando o algoritmo vira dogma e os bilionários se tornam profetas

Luis Felipe Nascimento

Luis Felipe Nascimento

30/06/2026
Os “papas” da IA versus o Papa Leão XIV Adobe Stock/NBE

3 min de leitura

Há uma disputa teológica em curso, e ela não acontece entre igrejas, mas entre duas visões radicalmente distintas de humanidade, transcendência e poder. De um lado, um papa que escreve encíclicas. Do outro, bilionários do Vale do Silício que constroem algoritmos. Ambos disputam o direito de dizer ao mundo quem somos, para onde vamos e o que devemos venerar.

Em maio de 2026, o Papa Leão XIV publicou a encíclica Magnifica Humanidade, um documento que enfrenta com rara coragem intelectual os desafios éticos da inteligência artificial (IA). 

Apoiado na tradição da Igreja, nos documentos conciliares e nos ensinamentos de seus predecessores, Leão XIV recorda que nenhuma tecnologia é neutra e que a IA reflete os valores, os interesses e os objetivos de quem a desenvolve, de quem a financia e de quem a controla. O eixo central de sua mensagem é simples, a tecnologia deve estar a serviço da humanidade, e não o contrário. Parece óbvio, mas nenhum chefe de Estado teve a coragem de dizer isso claramente.

A encíclica também mira a concentração de poder das Big Techs. Diz o papa: quando poucas empresas controlam sistemas usados por bilhões de pessoas, os processos decisórios tornam-se praticamente impossíveis de fiscalizar. 

Essa dependência tecnológica não é apenas econômica, ela é cultural e política. Quem controla os algoritmos passa a exercer influência crescente sobre aquilo que as pessoas veem, acreditam, consomem e até sobre o que desejam. 

Diante disso, Leão XIV propõe regulamentação nacional e internacional, transparência algorítmica, controle rigoroso sobre o uso militar da IA e distribuição mais justa dos benefícios tecnológicos. Nada que soe como rejeição à modernidade, mas tudo que soa como ameaça a quem lucra com a ausência de limites.

Reações

As reações foram previsíveis. Líderes das Big Techs acusaram o Papa de exagerar os riscos e de ameaçar o ritmo da inovação. Economistas liberais argumentaram que toda revolução tecnológica desperta temores semelhantes e que, historicamente, o progresso acaba gerando prosperidade. Outros criticaram a visão econômica da encíclica por considerá-la excessivamente intervencionista.

Mas há ainda outra dimensão que foi explorada no podcast humorístico Calma Urgente. Trata-se de uma disputa teológica. 

De um lado, Leão XIV, que recorda a finitude humana e a sua criação como imagem de Deus. Do outro, os “papas” das Big Techs, obcecados pela imortalidade na nuvem, prometendo o fim do trabalho, das doenças e da escassez. A consciência humana seria transferida para a nuvem. 

Peter Thiel, um dos bilionários do Vale do Silício, e outros investidores já chamam o Papa de “anticristo” por ousar conter a IA. Para eles, a inteligência e a consciência são meros processos computacionais e o ser humano apenas uma transição rumo a uma forma superior de inteligência.

A observação do humorista Gregório Duvivier ilustra bem essa transformação cultural. Antigamente, muitas pessoas recorriam a Santo Antônio para encontrar um par, agora recorrem ao Tinder. Criadores de conteúdo modulam sua linguagem para agradar ao algoritmo e evitam certas palavras como se fossem pecados, dizem o que ele quer ouvir como se fossem preces. O sagrado não desapareceu. Apenas mudou de endereço.

Já o jornalista Bruno Torturra aponta que, nos últimos vinte anos, bilionários passaram a ser convidados não apenas para falar de seus negócios, mas para profetizar sobre o futuro da humanidade, da exploração espacial e do trabalho. Como se o dinheiro conferisse autoridade moral e intelectual sobre questões que filósofos, cientistas e pesquisadores levam vidas inteiras estudando. Os bilionários se veem como seres superiores, “os escolhidos” para liderar a multidão.

Infelizmente, a opinião pública está dividida entre os que admiram esses bilionários e os que estão com uma sensação de impotência, de inevitabilidade desta situação. 

Eu, que tantas vezes critiquei os papas conservadores, desta vez defenderei os princípios desta encíclica. Não sei se conseguiremos regular o uso da IA, mas é pelo que podemos lutar. 

Espero que Miguel Nicolelis esteja certo, que a IA seja mesmo uma bolha prestes a estourar e que ela não seja nem inteligência e nem artificial. Mas não podemos esperar sentados que a profecia se cumpra.

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Luis Felipe Nascimento

Luis Felipe Nascimento

Luis Felipe Nascimento é professor na escola de Administração da UFRGS.

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