Por que tanta gente procura conforto nos jogos virtuais?
Os chamados “jogos de conforto” já contabilizam mais de 100 milhões de cópias vendidas
Getty Images com edição de Fernanda Moraes3 min de leitura
Você acorda, escova os dentes, toma café da manhã e vai cuidar da plantação e dos animais em uma manhã ensolarada e tranquila. A sensação de conforto e a segurança de uma rotina calma e pré-definida prevalecem enquanto você colhe frutas frescas para presentear os vizinhos e cultivar novas amizades. E o melhor? Tudo isso é feito na frente do computador ou algum outro dispositivo eletrônico, no intervalo da vida real.
Jogos como Stardew Valley, Animal Crossing e The Sims, que juntos ultrapassam, com folga, as 100 milhões de cópias vendidas, marcam uma categoria que ganhou força durante a pandemia, quando tudo parecia tão imprevisível: os jogos de conforto.
Embora a ideia de conforto varie de acordo com o jogo – que vão desde simulações de vida completa até nichos específicos, como atendente de supermercado –, eles compartilham a característica de basearem-se em tarefas do cotidiano, que para muitos, inclusive, são vistas como tediosas.
Mas, para os jogadores, é justamente a simplicidade que desperta sentimentos. Em um mundo caótico e automatizado, onde o robô aspirador limpa a casa enquanto trabalhamos em uma carga horária cada vez maior e mais cansativa, a simulação de uma vida pacata é capaz de atravessar as telas e proporcionar o bem-estar, ainda que momentâneo, que tanto procuramos.

Imagem: Nintendo
A ciência explica
Desde 2020, diversos estudos se dedicaram a entender os efeitos dos jogos de conforto no cérebro. Em geral, a sensação de bem-estar pode ser explicada por um misto de pequenos prazeres: desligamento psicológico, relaxamento, domínio e controle.
Desligamento psicológico (psychological detachment) é o estado mental que se atinge ao desligar-se de agentes estressantes, como trabalho, preocupações financeiras e conflitos familiares, direcionando a atenção a atividades simples e sem estímulos excessivos.
Nos jogos, não há notificações incessantes, e-mails, prazos, metas, sobrecarga; a única preocupação é plantar batatas ou organizar uma prateleira. O relaxamento é uma consequência do alívio da tensão e ansiedade.
Além disso, tarefas simples são fáceis de serem aprendidas e dominadas, sem que seja necessário muito esforço mental para progredir e obter recompensas. E, claro, o controle está nas mãos do jogador: o quê, quando e por quanto tempo fazer.
Assim, é fácil entender o boom na época da pandemia: um respiro de previsibilidade em um cenário de medo, tanto do presente quanto do futuro… e que perdura até hoje, mesmo sem COVID.
Válvula de escape ou mercantilização do cansaço?
É importante considerar em que ponto os jogos de conforto deixam de ser uma distração – como visto, necessária para a saúde mental – para tornarem-se um mecanismo de fuga da realidade.
O jogo saudável não anestesia diante dos problemas e nem adia o retorno para a vida fora do virtual. Ao contrário, oferece uma pausa que permite recuperar-se para, então, jogar-se ao mundo. E talvez seja justamente nesse conforto que resida uma questão mais incômoda: por que o mundo em que vivemos nos faz precisar de uma válvula de escape?
Que carga de trabalho e que modelo de produção seriam necessários para construirmos uma vida da qual não precisássemos escapar com tanta frequência? Por que pequenos prazeres, antes encontrados no cotidiano, parecem cada vez mais deslocados para dentro de uma tela? E, sobretudo, quem se beneficia de uma sociedade em que o alívio precisa ser comprado, consumido e transformado em produto?
Não por acaso, um dos mais famosos jogos de conforto, Animal Crossing, ultrapassou 50 milhões de vendas sob o slogan “Sua fuga para uma ilha pessoal”. O produto não é apenas o entretenimento, mas uma ideia de existência alternativa na qual é possível, simplesmente, viver uma vida que não seja permeada pela ânsia em produzir à exaustão.




