Tudo tem seu preço. Quanto maior o abuso, maior será o preço

O ambientalista José Lutzenberger alertava para as consequências da falta de escrúpulos na exploração da Natureza.

Vera Mari Damian

Vera Mari Damian

15/05/2024
Tudo tem seu preço. Quanto maior o abuso, maior será o preço Gustavo Mansur - Palácio Piratini

6 min de leitura

A foto do painel urbano com a imagem do grande ecologista e professor de toda uma geração de ambientalistas não poderia ser mais icônica.

Captada pelo fotógrafo Gustavo Mansur no dia 8 de maio de 2024, mostra uma região de Porto Alegre, que não resistiu à cheia histórica do Lago Guaíba, emoldurando a obra do artista Kelvin Koubik com a imagem de José Lutzemberger, feita em 2022 para a Virada Sustentável de Porto Alegre.

As consequências de todo este desastre ainda levarão tempo. A apuração de responsabilidades do poder público, da cidade e do Estado, pela falta de manutenção dos sistemas de proteção das enchentes em Porto Alegre também vai se estender. O mesmo vai acontecer em cada município afetado, incluindo seus cidadãos e empreendedores irresponsáveis. Políticos de plantão que encaminham, ou encaminharam, projetos para flexibilizar as leis ambientais deveriam ser linchados nas urnas.

Neste momento, o que mais importa é a profusão da solidariedade. Esta mesma que nos torna mais humanos e nos diferencia daqueles egoístas que se aproveitam para roubar confiança, segurança, bens e/ou bem-estar e se ocupam de promover maldades e/ou mentiras através de fake News.

Mas faço questão de trazer à tona reflexões que meu professor José Lutzenberger já ensinava em 1974, diante de uma grande cheia no Sul do Brasil.

Reflexões que, em alguma medida, obriga cada cidadão a uma mea culpa. No mínimo por não dar ouvidos ao que os cientistas e ambientalistas vêm dizendo há décadas. Os eventos climáticos sempre existiram mas se tornaram extremos devido à ação humana.

Lutzenberger na entrega do Prêmio Nobel Alternativo. Right Livelihood Award Foundation Archive (Wikipédia)

“Inundações, suas causas e consequências...

À medida em que progride a desnudação das montanhas, das cabeceiras e margens dos rios, à medida que desaparecem os últimos banhados, outros grandes moderadores do ciclo hídrico, a paisagem mais e mais se aproxima da situação do deserto, os rios se tornam mais barrentos e mais irregulares. Onde havia um fluxo bastante regular, alternam-se então estiagens e inundações catastróficas. Somente uma inversão no processo de demolição das paisagens pode inverter a corrida para calamidades sempre maiores.

Já são poucos os bosques que sobram, e os que sobrevivem estão muitas vezes extremamente degradados. Na encosta da Serra (gaúcha), durante as grandes enxurradas que causaram as inundações de 1974, apareceram gigantescos deslizes até em áreas ainda cobertas de floresta primária.

Acontece que, em época de seca, as queimadas se alastram mesmo por dentro dos bosques pluviais de aparência sempre viçosa. Sem destruir as árvores adultas, o fogo destrói o sub-bosque e desnuda o solo, consumindo as folhas secas. O solo perde sua estrutura e a erosão começa a trabalhar em plena floresta. As imensas manchas de encosta agora destruídas levarão milhares de anos para recuperar-se.

A função do bosque como regulador não se limita ao trabalho de freio mecânico e amenizador do grande ciclo da água, engrenagem mestra do sistema de suporte de vida. O bosque e todos os demais ecossistemas, savanas, pampas, cerrados, cerradões, banhados ou caatinga, desertos, lagos ou oceanos, toda a grande variedade de sistemas naturais tem, cada um, sua função específica e orquestrada dentro dos grandes equilíbrios climáticos.

É fácil compreender que o bosque tem outra refletividade para os raios solares, outra taxa de evaporação da água, oferece outra forma de resistência ao vento que o deserto, o lago, a savana.

O equilíbrio global entre os efeitos parciais de todos esses sistemas está em interação recíproca e em interação com a atmosfera e a hidrosfera. Mas o homem está hoje alterando ou degradando cada um dos sistemas. É claro que acabará alterando o equilíbrio global.

Não sabemos onde está o limiar de tolerância para esses abusos, mas sabemos que existe um limiar. As interferências humanas se aproximam hoje das ordens de magnitude dos grandes equilíbrios planetários.

No dia em que uma parte significativa da hileia Amazônica deixar de existir, teremos, certamente, uma mudança fundamental no clima da Terra.

Ninguém nos garante que essa mudança será para melhor. As irregularidades climáticas que há vários anos atingem quase todo o mundo podem representar irregularidades esporádicas como as que sempre têm havido e que se repetem a cada três ou quatro décadas, mas é perfeitamente possível que já estejamos presenciando o começo da inevitável inversão climática global.

O homem moderno estraga, uma a uma, as peças da engrenagem - e ainda joga areia no mecanismo, dificultando seu funcionamento e preparando o colapso.

Esse é o significado da poluição. A sociedade industrial, com sua sede insaciável de energia, queima combustíveis fósseis em quantidade crescente tal que, hoje, o consumo anual corresponde à produção natural de mais de um milhão de anos.

Com isso não somente estamos esbanjando um capital irrecuperável, mas já estamos também afetando seriamente a própria natureza da atmosfera.

O gás carbônico do ar é um dos fatores mais importantes do equilíbrio térmico. Seu "efeito de estufa" consiste em permitir a penetração dos raios solares, ao mesmo tempo que dificulta a saída dos raios infravermelhos, que são os raios de calor. Sem os 0,03 por centro de CO2, o clima da Terra seria mais frio e mais violento.

Desde o começo da Revolução Industrial, já aumentamos em quase trinta por cento a concentração do gás carbônico na atmosfera, e até o ano 2000 teremos acrescentado pelo menos outros trinta por cento, não somente pela combustão dos combustíveis fósseis - petróleo, carvão, lignina, turfa e gás natural - mas pelos próprios incêndios florestais.

O que acontecerá? Se a consequência for um aumento de poucos graus na temperatura média planetária, desaparecerão as calotas polares e o nível dos oceanos poderá aumentar em até 70 metros.

Porto Alegre, Buenos Aires, Nova York, Hamburgo, Hong Kong e muitas outras grandes cidades desaparecerão. Desaparecerão regiões inteiras. A Holanda desaparecerá, e na Amazônia surgirá um grande golfo.

Não sabemos se isso vai acontecer. É possível que aconteça o contrário.

Ao mesmo tempo em que estamos aumentando a concentração do gás carbônico, estamos também agindo drasticamente sobre o fator que tem efeito contrário. A poluição da atmosfera com partículas sólidas e líquidas - pó, fumaça, aerossóis - está tornando a atmosfera menos transparente, ao mesmo tempo em que as partículas de impurezas servem de núcleos de condensação para a formação de nuvens.

Uma atmosfera menos transparente e com mais nuvens devolve ao espaço vazio maior proporção da energia solar. Isso contribui para um clima mais frio. Caso predominar esse último efeito, voltaremos à idade glacial. As últimas tendências meteorológicas parecem estar indicando isso, o que talvez explique a atual irregularidade do clima.

Está claro que a espécie humana não poderá continuar por muito tempo com a sua cegueira ambiental e com sua falta de escrúpulos na exploração da Natureza.

Tudo tem seu preço. Quanto maior o abuso, maior será o preço. Devemos compreender que a Ecosfera é uma unidade funcional, onde todas as peças são complementares de todas as demais. Não podemos causar danos apenas locais. Tudo está ligado com tudo... ”

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Vera Mari Damian

Vera Mari Damian

Jornalista, ambientalista e produtora cultural

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