Travessias necessárias para uma sociedade biocentrada

Se quisermos sobreviver sobre o planeta Terra, precisaremos fazer várias travessias inevitáveis

Leonardo Boff

Leonardo Boff

13/09/2024
Travessias necessárias para uma sociedade biocentrada Freepik/NBE

4 min de leitura

Há uma percepção mais ou menos generalizada de que a vida humana no planeta Terra, assim como se apresenta, não pode continuar. Na verdade, ela se encontra numa encruzilhada: ou muda ou corre o risco de ir ao encontro de uma incomensurável tragédia ecológico-social. Há indicadores inegáveis. O mais sensível é o acelerado aquecimento global. Só em 2023 foram lançadas na atmosfera perto de 40 milhões de toneladas de CO2 que permanecem nela por cerca de cem anos. O aquecimento até 1,5ºC projetado para 2030 foi antecipado.

Das nove fronteiras planetárias (Planetary Boundieries: desde as mudanças climáticas até os microplásticos), seis já foram rompidas. Cientistas afirmam que se rompermos a sétima e a oitava pode ocorrer um desastre sistêmico, capaz de ameaçar a civilização.

A disputa pelo domínio geopolítico do mundo entre os EUA, Rússia e China pode culminar numa hecatombe nuclear, deixando o céu branco pelas partículas atômicas, introduzindo uma nova era glacial, extinguindo grande parte da humanidade e da biosfera e tornando miserável da vida dos sobreviventes. Além de outras, como a grave escassez de água potável.

Céu alaranjado por emissões de fumaça

Foto: Pixabay/Agência Brasil

Se quisermos sobreviver sobre o planeta Terra, precisaremos fazer várias travessias inevitáveis.

Travessias

– Da Terra tida como meio de produção e balcão de recursos, entregue ao projeto de um crescimento ilimitado, para a Terra como um Super Organismo vivo, Gaia, Pacha Mama ou Mãe Terra, com bens e serviços limitados, muitos não renováveis.

– Do paradigma do poder/dominação em vista da conquista do mundo para o paradigma do cuidado da Terra viva e da comunidade de vida.

– De uma sociedade antropocêntrica, separada da natureza, para uma sociedade biocêntrica, que se sente parte da natureza e busca ajustar seu comportamento à lógica da própria natureza e do processo cosmogênico que se caracterizam pela sinergia, pela interdependência de todos com todos, pela cooperação e por ser mais com menos.

– De uma sociedade industrialista, mercantilista e consumista que depreda os bens naturais e desestrutura as relações sociais de riqueza/pobreza para uma uma sociedade de sustentação de toda a vida e garantia dos meios de vida para todos os seres humanos.

– Da lógica da competição, que se rege pelo ganha-perde e que opõe as pessoas e as empresas, para a lógica da cooperação do ganha-ganha, que congrega e fortalece a solidariedade entre todos.

– Da era tecnozóica que, não obstante os benefícios reconhecidos que nos trouxe, devastou grande parte dos ecossistemas, para a era ecozóica pela qual todos os saberes e atividades se ecologizam e todos cooperam para salvaguarda do futuro da vida.

– Do antropoceno, que faz do ser humano a grande ameaça à bioversidade, para o ecoceno, no qual a ecologia será a grande preocupação e todos os seres serão reconhecidos com um valor em si, portadores de direitos e dignos de respeito.

– De redes sociais voltadas para a desinformação, divisões sociais e ameaças às instituições democráticas, para redes como espaços de comunicação social civilizada e novos conhecimentos.

– Do capital material sempre limitado e exaurível para o capital humano-espiritual ilimitado, feito de amor, de solidariedade, de respeito, de compaixão, de veneração e de uma confraternização com todos os seres da comunidade de vida.

– Dos Estados-nação para a Terra como a única Casa Comum, que deve ser cuidada por uma governança plural para equacionar os problemas globais de toda a humanidade e do sistema-vida.

– Do projeto “um só mundo e um só império”, mantra da política externa estadunidense, para “um só mundo e um só projeto coletivo de convivência e sobrevivência”, assumido por todos os povos.

Conversão ecológica global

Essa é a grande “conversão ecológica global”, exigida pelo Papa Francisco em sua encíclica "Sobre o cuidado da Casa Comum" (2015, n.5). Em outro lugar, diz: ”Estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”.

Para garantir o futuro da humanidade e da própria biosfera, precisa triunfar um consenso mínimo de natureza ética: o conjunto de visões, valores e princípios que mais congregam pessoas e melhor projetam um horizonte de vida e de esperança para todos.

Seria a já denominada "biocivilização" ou a "Terra da Boa Esperança", que corresponde à Noosfera sonhada já em 1933, lá no deserto de Gobi na China, por Pierre Teilhard de Chardin. Quer dizer, a esfera nova na qual mentes e corações convergem numa consciência coletiva de espécie, habitando a única Terra que temos.

Essa biocivilização é viável e está dentro das possibilidades humanas construí-la na observância da ética da Terra, feita de cuidado, de responsabilidade universal, de acolhida de todas as diferenças e do sentimento de habitarmos uma Casa Comum junto com toda a comunidade terrenal e a comunidade de vida - sob o olhar benevolente do Criador “que ama tudo o que criou e que não odeia nada do que fez porque é 'o soberano amante da vida'” (Sab 11,24-26).

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Leonardo Boff

Leonardo Boff é ecoteólogo e autor de mais de 60 livros. Foi porfessor em vários centros de estudo e universidades no Brasil e no exterior. Em 2001, foi agraciado com o prêmio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).

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