A espiritualidade natural, a ética, o cuidado: como evitar o fim do mundo

Veja três pilares para garantir a sobrevivência planetária

Leonardo Boff

Leonardo Boff

10/04/2024
A espiritualidade natural, a ética, o cuidado: como evitar o fim do mundo Adobe Stock/NBE

6 min de leitura

A crise de nosso modo de viver neste único planeta envolve a todos, até as nações imperiais. Quem diria que estaria havendo uma severa erosão dos valores democráticos dos Estados Unidos? O sonho original americano, repetem seus melhores, “implicava um novo mundo no qual o povo vivia livre para realizar seus sonhos, no interior de um ambiente social que gerava cidadãos esclarecidos, responsáveis e comprometidos, com uma apaixonada preocupação com a dignidade e os direitos individuais e dos outros na perspectiva do bem comum”. Evidentemente, esse era o sonho da população, não dos órgãos governamentais e do aparato militar de segurança que buscavam e ainda buscam, por todos os meios, mesmo bélicos, o monopólio do poder mundial. Aqui era e é outro o sonho.

O que está ocorrendo a partir dos anos 60, diz-nos Steven Rockfeller - da família dos bilionários Rockefellers, um dos idealizadores da Carta da Terra, de opção budista, uma das pessoas mais dialogáveis com quem pude conviver nos trabalhos da redação da referida Carta - que a atual juventude esqueceu os referidos valores, vive centrada no próprio eu, deprecia seu próprio país e perdeu o sentido da solidariedade. Conclui dizendo: ”A América é uma nação à procura de sua própria alma” (Sipiritual Democracy and our Schools, N.York 2022,p.15).

O que se diz dos Estados Unidos vale praticamente para todos os principais países, mesmo para o nosso, já que estamos todos interdependentes e reféns da cultura do capital, acumulador, materialista, consumista, excludente e insensível ao destino das maiorias pobres. Como professor e pedagogo, Steven Rockefeller escreveu o referido livro “para renovar o espírito americano através da educação desde a mais tenra infância”. Maneja três categorias com as quais me identifico e com elas tenho trabalhado há anos, em vista de um novo paradigma e de um outro estilo de educação: a espiritualidade, a ética e o cuidado da Casa Comum.

Espiritualidade

Steven vê a espiritualidade como uma dimensão essencial do ser humano com o mesmo direito de cidadania que o corpo, a inteligência, a vontade, a psique. Por isso é natural. Não se há de identificar a espiritualidade com a religião, embora possa haver inter-relações entre elas. A espiritualidade natural é inata. Dela nascem as religiões como canalizações culturais deste dado originário.

Como nos tem mostrado, diz Steven, a filosofia, a psicologia do profundo e as neurociências, a “espiritualidade é uma capacidade inata no ser humano que, quando alimentada e desenvolvida, gera um modo de ser feito de relações consigo mesmo e com o mundo, promove a liberdade pessoal, o bem estar, e o florescimento do bem coletivo” (p.10). A espiritualidade natural coloca as questões inadiáveis do ser humano: por quê estamos neste mundo, o que nos espera para além desta vida e a percepção de uma Suprema Realidade. Ela se expressa pelo amor incondicional, pela reverência face ao Universo, pela solidariedade, pelo cuidado com tudo o que existe e vive e pela compaixão por quem sofre.

Essa compreensão me faz recordar a fala de Michail Gorbachev ao se encerrar a redação da Carta da Terra nos espaços da UNESCO em Paris no ano 2000: ”Se quisermos salvar a vida no planeta, precisamos de novos valores e de uma outra espiritualidade”. Vale dizer, não são suficientes nossos bens materiais nem a tecnociência. Tudo isso deve vir impregnado dos valores do coração, sede do amor, da afeição, da empatia, da ética, do cuidado e da espiritualidade. Só assim se consegue estabelecer um laço afetivo e solidário para com todos os seres e para com a Terra e assim salvá-los.

Todo ser possui um valor em si mesmo, para além do uso humano. A espiritualidade natural nos permite sentir tudo isso. É uma espécie de órgão natural de nossa vida que nenhuma porção de nossa natureza pode desempenhar adequadamente. A física quântica, Danah Zohar, e seu marido neurólogo, I. Marshall, demonstraram que temos dentro de nós “o ponto Deus no cérebro”. Toda vez que de forma existencial se abordam temas do Sagrado e do Espiritual, verifica-se uma aceleração significativa de neurônios de uma parte do cérebro. É uma espécie de órgão interior pelo qual nossa espiritualidade natural e inata capta aquela Energia poderosa e amorosa que tudo sustenta e age também em nosso interior. (D.Zohar, O ser quântico, Rio 1991).

Ética

A espiritualidade natural nos remete diretamente à ética, no sentido clássico dos gregos: a Casa (ethos) bem cuidada, agora a Casa Comum, a Terra. O “ethos” busca o bem viver. A “ética”, as formas e maneiras de concretizar o bem viver, pelas virtudes do amor, da justiça, da justa medida, da beleza e demais virtudes consoante o sentir das várias culturas. Desde a mais tenra idade e no processo educacional deve-se desenterrar a espiritualidade natural que sempre vem acolitada pela ética do bem viver.

Hoje mais do que nunca se faz urgente o cuidado, entendido como a essência de todos os viventes, especialmente do ser humano, consoante o mito romano de Higino, explorado pela filosofia e pela antropologia (cf.L. Boff. Saber cuidar:ética do humano-compaixão pela Terra, Vozes 2023). Deixado por si mesmo, nenhum organismo vivo sobrevive sem o cuidado.

Amazônia

Paradigma da modernidade

Atualmente se confrontam dois paradigmas: o do poder e o do cuidado. O do poder atual como dominação caracteriza a modernidade. Foi com este poder que se submeteram os povos, muitos feitos escravos, a natureza desapiedadamente explorada, a matéria, a vida e a própria Terra hoje com parca sustentabilidade. O paradigma do cuidado renuncia ao poder como dominação, estabelece uma relação amigável com a natureza e respeita a Terra como a Grande Mãe e Gaia. Atualmente com a devastação no modo da modernidade, impõe-se o paradigma do cuidado se quisermos garantir as condições ecológicas de nossa sobrevivência.

A humanidade se encontra numa encruzilhada: ou segue o caminho do poder atual, que implica uma exploração ilimitada dos recursos naturais a ponto de ter afetado o equilíbrio da Terra, haja vista a mudança climática irreversível (esse caminho pode levar-nos a um armagedom ecológico), ou segue o caminho do cuidado**. A humanidade para, reflete sobre os riscos para sua sobrevivência e então define um rumo mais benevolente, marcado pelo cuidado para com a natureza, de uns para com os outros e com a Terra.** Caso contrário, diz a Carta da Terra, ”arriscamos a nossa destruição e a da diversidade da vida” (Preâmbulo). Não disse outra coisa o Papa Francisco na Fratelli tutti: ”estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” (n.24).

Se ainda tivermos tempo para esta guinada do nosso destino comum com a Terra, iremos sobreviver e inaugurar outra forma de habitar o planeta, com sentimento de pertença e com a consciência de sermos seus guardiães fiéis.

A educação possui essa missão messiânica de desentranhar, desde a nascença, a espiritualidade natural, a ética da Terra e o cuidado pela criação. Por esse caminho haverá salvação.

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Leonardo Boff

Leonardo Boff

Leonardo Boff é ecoteólogo e autor de mais de 60 livros. Foi porfessor em vários centros de estudo e universidades no Brasil e no exterior. Em 2001, foi agraciado com o prêmio nobel alternativo em Estocolmo (Right Livelihood Award).

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