Olhando a Terra de fora da Terra
Astronautas e filósofos do passado e do presente refletem sobre a consciência planetária
Nasa5 min de leitura
As muitas viagens espaciais, seis tripuladas para a Lua, e outras que saíram até de nosso sistema solar e percorrem o espaço ilimitado do universo, não criaram, no geral da humanidade, e muito menos nos dirigentes dos povos, a nova consciência planetária que daí se deriva.
Vivemos ainda no regime dos estados-nações, cada um com seus limites, definidos pelo Tratado de Westfália de 1648. A Covid-19 não respeitou os limites das nações. Afetou a todos. Disso ainda não se tiraram as devidas consequências. O modo de vida predador e consumista voltou com ainda mais furor. Não se ouviu a lição que a Mãe Terra quis nos dar.
Acresce ainda o fato de que nos nossos dias termos guerras por territórios (Ucrânia, Faixa de Gaza, Groelândia e outros). Vista da perspectiva dos astronautas, como um dos quatro da nave espacial Artemis II bem observou: “daqui de cima somos um só povo”. Esta afirmação torna estas disputas ridículas. São sustentadas pelos cruéis e genocidas, como Netanyahu e Trump, que ainda não descobriram que somos uma só espécie humana e a Terra nossa única Casa Comum na qual cabem judeus, palestinos e todos os outros.
O olhar desde o espaço
Inesquecíveis são as palavras de Neil Amstrong, o primeiro a pisar na Lua em 20 de julho de 1969: “É um pequeno passo para um homem, um grande salto para a Humanidade”. E continuava: “de repente notei que aquela pequena e bela ervilha azul era a Terra…Com meu dedão cobri totalmente a Terra”.
Temos mais alguns testemunhos de astronautas, reunidos no livro de Frank White, The Overview Effect (Boston 1987, tenho um exemplar autografado por ele). Do astronauta Russel Scheweickhart: “a Terra vista a partir de fora, você percebe que tudo o que lhe é significativo, toda a história, a arte, o nascimento, a morte, o amor, a alegria e as lágrimas, tudo isso está naquele pequeno ponto azul e branco que você pode cobrir com seu polegar. E a partir daquela perspectiva se entende que tudo em nós mudou, que começa a existir algo novo, que a relação não é mais a mesma como fora antes”. (The Overview Effect, 38).
Do astronauta Gene Cernan: “Eu fui o último homem a pisar na lua em dezembro de 1972. Da superfície lunar olhava com temor reverencial para a Terra num transfundo de azul muito escuro**. O que eu via era demasiadamente belo para ser compreendido, demasiadamente lógico, cheio de propósito para ser fruto de um mero acidente cósmico.** A gente se sentia, interiormente, obrigado a louvar a Deus. Deus deve existir por ter criado aquilo que eu tinha o privilégio de contemplar”. (Op.cit,39).
Sigmund Jähn: “Já são ultrapassadas as fronteiras políticas. Ultrapassadas também as fronteiras das nações. Somos um único povo e cada um é responsável pela manutenção do frágil equilíbrio da Terra. Somos seus guardiães e devemos cuidar do futuro comum”. (Op.cit,43).
Essas visões que parecem evidentes nunca foram tomadas a sério pela geopolítica e pelos chefes de Estado. Mesmo sem ter visto a Terra de fora da Terra (nunca saiu de sua cidade Königsberg), Immanuel Kant (1724-1804) em sua última obra A Paz Perpétua (1795) enfatizou que a Terra pertence à inteira humanidade e constitui um bem comum de todos. Então não há por que lutarmos por terras, se tudo é nosso. Podemos viver numa paz perpétua.

Foto: Nasa
Globalismo de Isaac Asimov
Mas quem, no nosso tempo, se deu conta da mudança de consciência a partir do fato de vermos a Terra de fora da Terra foi o prolífico escritor russo, autor de centenas de livros de teor científico, mas populares, Isaac Asimov. Por ocasião dos 25 anos da primeira viagem espacial pelo Sputnik, em 4 de outubro de 1957, inaugurando a Era Espacial, Asimov foi convidado pela revista New York Times para escrever um artigo sobre o legado destes 25 anos. Escreveu um pequeno artigo com o título “Sputnik’s Legacy: globalism” (O legado do Sputnik: o Globalismo).
Sigo alguns tópicos, pois são atuais, embora desconsiderados.
“A primeira palavra a dizer é globalismo. Mesmo contra a vontade” afirma Asimov, “há de se considerar a Terra e a Humanidade como uma única entidade (single Entity). Os satélites mostram esse ser único (unit), quer o aceitemos ou não. Pela primeira vez na história podemos identificar os furacões, os distúrbios climáticos, do começo ao fim”.
Os meios de comunicação nos ligam globalmente uns aos outros, comprovando o globalismo. Globalização, diriam alguns, mas este seria o lado material.
Mas há o lado psicológico: “a visão da Terra como um todo, a esfera planetária, nos obriga a senti-la como pequena e frágil. É arbitrária a divisão de sua superfície em porções (nações) e suas preservações a todo custo, mesmo que implique a destruição do planeta”. Importa ver o todo, o Planeta.
Por fim há o lado das potencialidades. A Era Espacial abriu o espaço para novas viagens e a descoberta de como são compostos os planetas e como funcionam. “Tudo isso será impossível sem uma cooperação global. O desenvolvimento do espaço é o projeto da humanidade como um todo e nisso se mostrará o valor do globalismo”.
Entre o local e o global
No entanto, devemos fazer uma escolha entre o local e o global.
“O localismo (as nações tomadas em si) pode acelerar nossa deriva para uma eventual destruição inclusive da humanidade. O globalismo nos oferece a esperança de uma civilização maior, mais vasta e melhor, com mais versatilidade e flexibilidade, libertando-nos do aprisionamento do local. Se considerarmos as alternativas – localismo - como morte versus globalismo - como vida, seguramente vamos escolher a vida. Esse é o legado da Era do Espaço”.
Hoje estamos vivendo o contrário de tudo o que se expressou acima. Predomina a afirmação de uma nação (nacionalismo) opondo-se à outra, com a ideologia do fascismo, geralmente acompanhado esse movimento, em nível nacional e mundial.
Ao invés de aprofundarmos a globalização (para além de sua redução ao econômico) como uma nova fase da Terra e da Humanidade (todos estamos voltando da grande dispersão) e encontrando-nos num mesmo lugar, no planeta Terra, regredimos a um passado de divisões, oposições e guerras no afã de conquistarmos territórios.
Mas creio que o que é verdadeiro tem força e acaba se impondo. Ele superará a regressão nacionalista/fascista e reforçará o novo rumo da Terra e da Humanidade como uma única e grande complexa realidade nossa Casa Comum.




