Travessia interior

Nossa viagem pela Nova Zelândia nos mostrou que não são os quilômetros que nos transformam, são as decisões de continuar

Luis Felipe Nascimento

Luis Felipe Nascimento

04/03/2026
Travessia interior Freepik/NBE

4 min de leitura

Depois de passar fevereiro de 2026 na Nova Zelândia, rodando 6000 km numa campervan carinhosamente batizada por nós de “Vânia”, atravessamos o país de norte a sul, de leste a oeste, conhecendo brasileiros que ficaram, turistas que passam e neozelandeses que são bem mais tranquilos que o nosso padrão latino, voltamos diferentes. Não somos especialistas neste tipo de aventura, mas temos algum conhecimento acumulado.

A Nova Zelândia tem tamanho parecido com o Rio Grande do Sul, mas com metade da população. Sobra espaço, especialmente para ovelhas. Cerca de 30% da população nasceu fora do país: ingleses, chineses, indianos, filipinos e povos das ilhas do Pacífico como Fiji, Tonga, Samoa, Ilhas Cook e Niue. Ao mesmo tempo, entre 15% e 20% dos kiwis (neozelandeses) vivem fora, muitos na Austrália e no Reino Unido.

É um país que recebe e que parte. Que acolhe e que também explora o mundo.

Essa mistura cria uma sociedade multicultural que, na maior parte do tempo, convive com naturalidade.

Passeando com uma amiga brasileira que mora lá, ela identificava de que ilha vinham determinadas pessoas só pelo jeito de vestir ou pelo formato do rosto. Já os maoris, estes são facilmente reconhecidos e as mulheres frequentemente usam uma flor no cabelo, como quem carrega a própria identidade com delicadeza e firmeza ao mesmo tempo.

E então vieram as curiosidades:

É absolutamente normal encontrar pessoas descalças no supermercado, algumas de roupão, outras de pantufas. A primeira vez você estranha. A segunda, admira. Na terceira, começa a questionar: por que a gente precisa trocar de roupa para ir na esquina? Existe ali uma liberdade silenciosa: as pessoas parecem menos preocupadas em performar para o mundo.

Lixo só daqui a 100 km

O país é um curioso equilíbrio entre a modernidade dos EUA e a consciência ambiental europeia. Infraestrutura impecável, tecnologia, organização, mas também uma obsessão responsável pelo destino do lixo.

Fora das grandes cidades, descartar resíduos vira quase uma caça ao tesouro. Em alguns campings públicos não há lixeira. Nos postos de combustíveis, também não, mas os lugares continuam limpos. Chegamos a ver uma placa na estrada informando onde haveria descarte de lixo nos próximos 100 km.

Você aprende rápido: o lixo é sua responsabilidade, cuide dele.

Nos pontos turísticos, uma cena nos divertia: mulheres orientais impecavelmente arrumadas posando para fotos, até no meio de trilhas, lagos e montanhas. Imagino que ser um bom fotógrafo seja um critério para elas escolherem os namorados.

Quando eram duas mulheres, era sempre a “feia” fotografando a “bonita”. Não se viam aquelas cenas tradicionais de fazer fotos juntas ou de uma fazer a foto da outra e depois trocar as posições. Muitas delas com o rosto tapado para não pegar sol. Pele branca é sinal de status nestes países.

Acordar os neurônios

Dirigir na mão inglesa foi um bom exercício para acordar os neurônios preguiçosos. Impressionante como o cérebro logo se adapta. Mas, quando eu queria dar seta, ligava o limpador de para-brisa. Passei dias sinalizando chuva imaginária para os demais motoristas. Pequenas confusões que lembram como somos condicionados e como podemos reaprender.

Dormimos 24 noites na Vânia (nossa campervan). Eu, que nunca tinha dirigido nem uma Kombi, terminei apaixonado pela van. Havia algo profundamente libertador em poder parar no meio do caminho, deitar na cama, esquentar água para o chimarrão, cozinhar algo simples e seguir viagem.

Tivemos zero pneus furados, nenhum acidente, apenas um atolamento que foi divertido. No antepenúltimo dia, o motor decidiu testar nossa paciência: morreu duas vezes, fomos guinchados, visitamos três mecânicos. E sem desespero, seguimos viagem, afinal, onde parávamos, “estávamos em casa”, tínhamos cama, comida e banheiro. Aliás, eu já não entendo como alguém pode fazer uma viagem longa num carro que nem banheiro tenha!

Realizar sonhos, revela

Essa viagem era um sonho antigo. E realizar sonhos tem um efeito curioso: não apenas realiza, mas revela. Enfrentei desafios que achava que já não teria mais disposição para enfrentar. Percebi na prática minhas limitações.

Descobri que conforto demais pode anestesiar a coragem. Quando ficamos exigentes demais, encontramos argumentos elegantes para desistir antes de tentar. Talvez o maior aprendizado não tenha sido sobre a Nova Zelândia, mas sobre nós mesmos.

Há um momento na vida em que começamos a dizer “isso não é mais para mim”. Talvez por medo. Talvez por cansaço. Talvez por acomodação. Mas a verdade é que a vida continua esperando que a gente se mova. Que a gente tente. Que a gente erre o lado da seta. Que atole. Que seja guinchado. Que siga.

Porque, no fim, não são os quilômetros que nos transformam, são as decisões de continuar. E talvez o maior risco não seja dirigir do lado errado da estrada, mas estacionar para sempre no lugar confortável das desculpas.

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Luis Felipe Nascimento

Luis Felipe Nascimento

Luis Felipe Nascimento é professor na escola de Administração da UFRGS.

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