Sobre riscos e insustentabilidade

O risco climático é real. Os custos associados a ele também. O “Custo Rio Grande do Sul” fica maior a cada novo episódio de clima extremo

Paulo Eduardo Macedo Ferretti

Paulo Eduardo Macedo Ferretti

10/06/2024
Sobre riscos e insustentabilidade Gustavo Mansur/Palácio Piratini

5 min de leitura

Tenho insistido, em minhas falas e escritos, sobre o fato de que a sustentabilidade é mal compreendida. O cenário caótico vivido pelo Rio Grande do Sul em sua mais recente tragédia climática (não a última, infelizmente) comprova isso.

Sustentabilidade não trata apenas de reduzir emissões de carbono, economizar água e apoiar questões de inclusão social. Sustentabilidade tem a ver, e muito, com identificação e gerenciamento de riscos. Porque esses riscos existem, são reais, por mais que muitos não os queiram ver ou considerar.

A negação de um fato ou da mera perspectiva de seu acontecimento é uma estratégia de defesa mental: finge-se que não existe e a vida segue. Por que preocupar-se com algo que talvez nem aconteça? Até o momento em que o risco assume forma real e atinge com força quem o desdenhava até então. Não é mais possível viver assim. Nem para as empresas, nem para os governos, nem para os cidadãos. Duvidar e negar significa estar despreparado. Significa morrer.

Como lidar com o risco? Primeiro, através de conhecimento. Identificar, mapear, mensurar. Avaliar as perspectivas de ocorrência, a tendência de evolução dos fatores de risco e seus impactos. O conhecimento exige atitude, em função da responsabilidade dos gestores do processo.

É inadmissível conhecer os riscos e simplesmente ignorá-los ou os subestimar. Essa compreensão é uma premissa básica: é preciso agir. Ação que inicia com a elaboração de planos de contingência, para que os riscos identificados sejam eliminados, diminuídos ou, não sendo possível nenhuma dessas alternativas, que possam ser adequadamente manejados, enfrentados, gerenciados.

Alguns riscos não podem ser simplesmente eliminados. Os problemas associados a eles acontecerão. Para esses riscos inevitáveis, o que cabe é preparação, antecipação, contingência. Parte deles pode ser atenuada, em alguns casos. Se houver essa possibilidade, ela deve ser feita sem demora e do melhor modo possível.

Se não houver prevenção e não for possível evitar, resta lidar com os problemas causados. Geralmente, é o que acontece. “Não sofrer por antecipação”, dizem uns. “Depois eu vejo o que fazer com isso, pode ser que nem aconteça”, dizem outros. Quando acontece, faltam os planos, falham as ações, impera o desespero, fica evidente o despreparo. Tarde demais. Negligenciar riscos, mesmo que sua ocorrência seja mera possibilidade, invariavelmente resulta em danos, problemas, perdas. Melhor a precaução e a prevenção, tanto quanto possível.

Modelo insustentável

O modelo de desenvolvimento ainda em voga traz muitos riscos. Por mais que hoje se digam preocupadas com a sustentabilidade, nossa sociedade e instituições continuam extremamente inviáveis a longo prazo, ou seja, insustentáveis.

Parte dessa insustentabilidade deve-se ao fato de que subestimam, ignoram ou desdenham dos riscos associados ao processo. Há décadas é sabido que o nível de consumo da humanidade excede ano a ano a capacidade do planeta em prover recursos naturais e ainda manter intacta a prestação dos serviços ambientais que sustentam a própria vida.

Johan Rockström e seu grupo de pesquisadores do Stockholm Resilience Centre, na Suécia, demonstraram, ainda em 2009, com atualização do estudo em 2023, que os limites planetários, as barreiras naturais que não deveriam ser rompidas, estavam absurdamente comprometidas pelo modo de vida humano. Existem ciclos naturais, obviamente. Mas só gente muito desinformada ou mal intencionada poderá negar a influência da humanidade sobre o funcionamento desses ciclos.

O comportamento da natureza não é uma questão de vingança, é importante esclarecer. Trata-se apenas de ação e reação. O planeta busca compensar os excessos, restaurar o equilíbrio físico-químico de seu sistema. O que inclui rearranjos em termos de clima, relevo, ciclos. Devido ao ritmo lento da Terra, muitas dessas mudanças levam séculos ou milênios para acontecer. Assim, a humanidade estabeleceu-se em muitos lugares e viveu conforme achou mais conveniente durante muito tempo, submetendo a natureza para atender suas demandas. Mas a pressão sobre o corpo planetário cresceu demais, o que provocou aceleração de seus processos de ajuste.

Agora, é a humanidade que precisa perceber, compreender e se adaptar às mudanças. E rápido.

O Coração da Terra

Alguns argumentam que não seria possível seres tão limitados como os humanos afetarem de tal modo o corpo planetário a ponto de provocar tantas mudanças. Mas a natureza está repleta de exemplos de que os números têm força. Uma grande quantidade de indivíduos consegue causar danos até mesmo em corpos e sistemas maiores e muito fortes. A boa notícia é que, assim como o dano é causado, também se pode trabalhar por sua reparação. Desde que esta seja ainda possível, viável.

O corpo planetário tem sido duramente castigado. Já perdeu muitas de suas partes. Assim como os humanos, o planeta também pode sobreviver com algumas peças faltando ou funcionando mal. Mas quem pode garantir qual dos golpes desferidos atingirá fatalmente o coração da Terra? Ironicamente, no momento em que isso acontecer, não será o planeta quem morrerá, mas nós, seus ingratos e descuidados ocupantes temporários.

O risco climático é real. Os custos associados a ele também. O “Custo Rio Grande do Sul” fica maior a cada novo episódio de clima extremo. Perdem-se casas, lavouras, animais, empresas, estruturas, histórias, significados, vidas. Se morre o povo, o que será do território? Se morre o território, o que será do povo? Qual o sentido de uma terra em que não se pode mais morar ou produzir, que não suporta mais a vida? Quando se fala em insustentabilidade, é sobre isso: sobre inviabilizar a longo prazo, sobre comprometer os fatores que sustentam. O risco existe, é real.

Quão perto estamos do ponto de insustentabilidade? O que pode ser feito a respeito? E o que, de fato, tem sido feito a respeito?

*Administrador de Empresas, Mestre em Ambiente e Sustentabilidade. Consultor para as áreas de planejamento estratégico, desenvolvimento local, turismo, negócios e sustentabilidade. ferretticonsultoria@gmail.com

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Paulo Eduardo Macedo Ferretti

Administrador de Empresas, Mestre em Ambiente e Sustentabilidade. Consultor para as áreas de planejamento estratégico, desenvolvimento local, turismo, negócios e sustentabilidade.

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