O ser humano tem ainda futuro?
A situação atual representa antes um desafio que um desastre, a travessia para um patamar mais alto e não um mergulho na autodestruição
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Fala-se que entramos numa era geológica nova, o antropoceno. Vale dizer, o meteoro rasante, destruidor da natureza, não é outro senão o próprio ser humano. Outros vão mais longe e acrescentam que estamos na era do necroceno, quer dizer, a maciça morte (necro) de espécies, na ordem de 70-100 mil, segundo o conhecido biólogo Edward Wilson.
Ultimamente o número de incêndios cresceram tanto no mundo inteiro que já se fala do piroceno (piros em grego é fogo), a fase mais avançada e perigosa do antropoceno. Acresce ainda a perversa desigualdade social, pois 1% de ricos possuem mais riqueza que mais da metade da humanidade (4,7 bilhões), o que é uma infâmia e uma negação de humanidade.
Extinção
Face a tal nível de degradação generalizada, nunca vista antes na presença do ser humano no processo de evolução, muitos, entre eles grande nomes da ciência, se perguntam se não estamos próximos do fim possível da espécie humana. E com razão, pois não se trata de fantasmas, mas de sinais perturbadores.
O prêmio Nobel de biologia de 1974, Christian de Duve em seu minucioso livro Poeira Vital, a vida como imperativo cósmico (Campus 1997) afirma que nos dias de hoje “a evolução biológica marcha em ritmo acelerado para uma grave instabilidade; de certa forma, o nosso tempo lembra uma daquelas importantes rupturas na evolução, assinaladas por extinções em massa”.
O cientista Norman Myers calculou que, somente no Brasil, se estão extinguindo nos últimos 35 anos quatro espécies por dia.
Théodore Monod, um notável naturalista, deixou como testamento um texto de reflexão com esse título: “E se a aventura humana vier a falhar?” (2000). Assevera: “somos capazes de uma conduta insensata e demente; pode-se a partir de agora temer tudo, tudo mesmo, inclusive a aniquilação da raça humana”.
Desde que surgiu como homo habilis, há mais de dois milhões de anos vem desequilibrando sua relação para com a natureza. Até quarenta mil anos atrás os danos ecológicos eram insignificantes. Mas, a partir desta data começou um assalto sistemático à biosfera. Em poucas centenas de anos, os caçadores extinguiram os mamutes, as preguiças-gigantes e outros mamíferos pré-históricos.
Na era industrial (1850) foram desenvolvidos instrumentos que tornaram bem sucedida a dominação/devastação da natureza. Nos dias atuais, este processo se agravou a ponto de que os noves itens (planetary bounderies) que sustentam a vida estão celeremente caindo, tornando impossível a civilização.
Já há 2 milhões de anos que estamos dentro da Idade do Gelo. A atual fase interglacial quente começou há 11.400 anos (período do Holoceno). Conforme os padrões do passado deveríamos ingressar num novo período de resfriamento.
Entretanto nossa espécie alterou profundamente a natureza da atmosfera. Vários gases de efeito estufa como o CO2, o metano e outros importantes estão aquecendo todo o planeta.
Até 2030 não poderia alcançar dois graus no aumento da temperatura global, pois seria desastroso para grande parte da humanidade e para a natureza. Já agora em 2025 atingimos 1,77ºC.
A estes problemas acresce a carência de água potável (só 3% é doce) e a super população da espécie humana que já ocupou 83% do planeta depredando-o.
Poderão os seres humanos viver juntos numa única Casa Comum? Não somos seres pacíficos, mas extremamente agressivos, faltosos de cooperação e de cuidado. O astrônomo real Sir Martin Rees da Inglaterra em seu livro “Hora Final: o desastre ambiental ameaça o futuro da humanidade”(2005) estima que, a correrem as coisas como correm, podemos nos liquidar ainda neste século.
Apesar deste quadro sombrio, mantenho a esperança de que o ser humano, com sua inteligência, razão cordial e sentido de sobrevivência decidirá pela continuidade da vida neste planeta e não pelo suicídio coletivo.
Lógico, precisamos ter paciência para com o ser humano. Ele não está pronto ainda. Tem muito a aprender. Em relação ao tempo cósmico possui menos de um minuto de vida no planeta. Mas com ele, a evolução deu um salto, de inconsciente se fez consciente. E com a consciência pode decidir que destino quer para si. Nesta perspectiva, a situação atual representa antes um desafio que um desastre, a travessia para um patamar mais alto e não um mergulho na autodestruição.
Agora cabe-nos mostrar amor à vida em sua majestática diversidade, ter compaixão para com todos os que sofrem, realizar rapidamente a justiça social necessária e amar a Grande Mãe, a Terra. Incentivam-nos as Escrituras judaico-cristãs: “Escolha a vida e viverás" (Deut 30,28).
Andemos depressa, pois não temos muito tempo a perder.




