E agora, professor?

Entre a inteligência artificial e a falta de tempo, talvez o problema não seja só dos alunos

Luis Felipe Nascimento

Luis Felipe Nascimento

23/04/2026
E agora, professor? Freepik/NBE

4 min de leitura

Esta semana eu perguntei aos meus alunos da graduação em Administração se haviam lido os artigos solicitados na semana anterior. Apenas quatro almas sinceras levantaram a mão. No entanto, vinte e nove haviam respondido no Moodle às perguntas relativas aos textos.

O ambiente na sala de aula é bem amigável e descontraído, então tomei a liberdade de perguntar como que eles responderam às perguntas sobre o texto sem ter lido? A resposta já era esperada: “Jogamos os textos e as perguntas numa Inteligência Artificial (IA) e postamos as respostas”.

Dito assim, sem culpas, sem drama, até parece uma solução moderna e prática. O problema é que não há aprendizado quando a leitura do texto é terceirizada. Eu entendo o lado deles: trabalham o dia todo, estudam à noite, chegam tarde em casa e ainda têm que fazer tarefas? Vejo o cansaço no rosto deles.

Eu poderia ter deixado passar e seguido a aula, mas eles sabem que isso não faz sentido. Eu sei que não faz sentido. E, ainda assim, continuar fazendo de conta que funciona?

A constatação era óbvia: meu método, “leitura prévia para aprofundar a discussão em sala de aula”, provou não funcionar. Confesso que meu primeiro impulso foi o discurso clássico do “no meu tempo a gente suava para fazer um fichamento”, ou o igualmente inútil “quem vai perder são vocês”. Mas me contive e pedi sugestões para eles: “Como podemos fazer a preparação para o tema da próxima aula?” Respostas não muito animadoras: “Não ter preparação!”, “Algum podcast curto para ouvir no ônibus”. Em resumo, voltei para casa pensando: “E agora, o que eu faço?”.

Morin, Paulo Freire e John Dewey

Nós, professores universitários, em grande parte, não somos formados pedagogicamente para isso. Repetimos modelos que admiramos, copiamos métodos que funcionaram conosco. Alguns são autodidatas, buscam as teorias educacionais e as utilizam.

Resolvi recorrer a educadores como Edgar Morin, Paulo Freire e John Dewey. Convoquei mentalmente eles para uma reunião pedagógica de emergência e perguntei: “Como vocês agiriam diante de uma situação como esta?”

O Morin me lembrou do seu livro, “Os 7 saberes”, e disse: quanto mais informação acumulamos, menos compreendemos. Observação brilhante, Edgar, mas o problema aqui é que a informação nem foi acumulada, não houve leitura.

Já o Paulo Freire me perguntou: “onde isso toca a vida real dos alunos?”. Humm… admito, às vezes o tema está longe da realidade deles. E então veio John Dewey, com seu “aprender fazendo”. Fazendo o quê, exatamente, numa quinta-feira à noite, com alunos exaustos? A pedagogia ativa encontra seu limite por falta de energia, que já acabou antes da aula começar.

No meio dessa reflexão, caiu uma ficha e reconheci o meu privilégio: eu trabalho numa das melhores universidades do país, com estabilidade, boas condições de trabalho, e estou me lamentando? E meus colegas, com cargas horárias absurdas e turmas ainda mais desafiadoras? Talvez o problema não seja apenas pedagógico, seja estrutural.

Decidi, então, ajustar as expectativas. Não se trata de transformar todos os estudantes em leitores apaixonados da noite para o dia. Talvez seja mais honesto pensar em pequenas vitórias: 30% de engajamento já é mais do que zero. Os outros 70%? Apesar de serem jovens com vinte e poucos anos, são pessoas exaustas, desmotivadas e vivendo num mundo que exige muito delas.

Foi então que me lembrei do Procusto, aquele personagem da mitologia grega que tinha uma cama e uma filosofia simples: todo mundo deveria caber nela. Os menores eram esticados. Os maiores tinham as partes excedentes decepadas. Será que nós, professores, não estamos fazendo algo semelhante? Nossa cama pedagógica foi feita para um mundo que não existe mais, para alunos que não somos nós, com tempos que não são os deles.

Talvez a pergunta correta não seja “o que eu faço?”, mas “o que nós, como sociedade, estamos deixando de fazer para que aprender volte a fazer sentido?”.

Aprender precisa voltar a ser encontro, curiosidade, vínculo e sentido. Caso contrário, continuaremos chamando de formação aquilo que, na prática, é apenas para cumprir as etapas de um currículo. E, quando a escola e a universidade deixam de despertar encantamento, não é só o conteúdo que empobrece**: é o futuro que começa a caber numa cama muito menor do que deveria.**

Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”

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Luis Felipe Nascimento

Luis Felipe Nascimento

Luis Felipe Nascimento é professor na escola de Administração da UFRGS.

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