As músicas mais felizes de todos os tempos
O que a neurociência tenta explicar e o coração insiste em sentir
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Tudo começou quando meu amigo Cláudio Senna me enviou um artigo no qual o neurologista holandês, o tal de Jacob Jolij, teria criado uma fórmula matemática para descobrir as músicas mais felizes de todos os tempos. Fiquei curioso, fui investigar a tal fórmula, que eu não entendi bem, mas os argumentos do autor fazem sentido.
O Jacob recebeu um pedido de uma agência de publicidade para identificar “qual a música mais feliz de todos os tempos”. Ele já pesquisava há anos a relação entre música, emoção e humor. E, pensando bem, quem nunca usou a música como um remédio invisível? Eu uso. O tempo todo. De manhã, música clássica suave para acordar o corpo na paz. Para malhar, batidas fortes, quase um empurrão sonoro. Para trabalhar, instrumental calmo. Na cozinha, hits antigos que aquecem a alma. Para dormir, músicas que parecem um colo em forma de som. Não dá para dormir ouvindo Led Zeppelin, nem puxar ferro ao som de Enya. A música ajuda o nosso funcionamento interno como poucos estímulos conseguem.
Voltando à pesquisa, Jacob percebeu rapidamente algo essencial, o que o gosto musical é muito pessoal. Está ligado às nossas histórias, memórias e associações afetivas. Ainda assim, ele encontrou padrões**. As músicas citadas como “mais felizes” tinham, em média, entre 140 e 150 batidas por minuto, geralmente em tom maior, com letras positivas ou, curiosamente, letras que não fazem muito sentido, talvez porque, às vezes, a alegria dispense explicações.**
Com isso, ele montou a seguinte fórmula:

Não sei como, mas daí saiu uma lista de hits irresistíveis. Entre eles: “Walking on Sunshine”, “I Will Survive”, “Livin’ on a Prayer”, “Girls Just Wanna Have Fun”, “I’m a Believer”, “Eye of the Tiger”, “Uptown Girl”, “Good Vibrations”, “Dancing Queen” e “Don’t Stop Me Now”. Difícil escolher uma só. Eu fiquei dividido entre “I Will Survive” e “Dancing Queen”. E você?
Na minha percepção, as músicas que realmente nos atravessam são aquelas que carregam memória. Impossível ouvir “My Heart Will Go On” (tema do filme Titanic) e não lembrar do momento romântico em que Jack segura Rose na proa do Titanic. Ou ouvir “Unchained Melody” (tema do filme Ghost) sem lembrar do reencontro silencioso e doloroso de Sam e Molly. Algumas músicas não são apenas músicas, são cenas, quase filmes dentro da gente.
E há aquelas que dispensam qualquer imagem. São uma injeção na veia de paz e tranquilidade, tipo “What A Wonderful World” e “Somewhere Over the Rainbow”. Elas agem imediatamente no nosso sistema nervoso e nos abduzem para outro mundo.
Nossas músicas
Quando penso nas nossas músicas brasileiras, precisaria de muitas páginas para listar as que mexem comigo. Vou escolher algumas que marcaram a minha geração: “Como Nossos Pais” (Elis/Belchior), “Canção da América” (Milton) e “Tocando em Frente” (Almir Sater). Já chorei muito me despedindo de amigos ao som de “Canção da América”, e ao me despedir da minha mãe ouvindo “Tocando em Frente”, sua música preferida.
E é aí que mora um ponto importante: as músicas mais importantes não são, necessariamente, as mais alegres. São as que acolhem, as que consolam, as que ajudam a atravessar o que dói.
A vida, afinal, se parece muito com a música; não é sobre as notas, é sobre o que a gente sente entre elas.
Hoje existem músicas que grudam na cabeça como chiclete, mas somem em poucos meses. E há aquelas que entram devagar e nunca mais vão embora, porque viram parte da nossa história, da nossa playlist íntima.
Essa, para mim, é a verdadeira fórmula secreta: a que transforma som em lembrança, letra em afeto, melodia em sentido. Uma fórmula que nenhuma inteligência artificial consegue replicar, porque ela nasce do encontro entre música e vida.
No fim das contas, talvez a música mais feliz seja aquela que, ao tocar, nos lembra que ainda estamos vivos, sentindo, lembrando, amando. E, enquanto houver alguém disposto a apertar o play e deixar o coração escutar, a música continuará fazendo aquilo que sempre fez de melhor: nos humanizar.
(Agradecimentos ao Claudio Senna Venzke, com quem discuti as ideias deste texto.)


