A guerra não pode ser humanizada, tem que ser cancelada
Não basta ser pela paz. Temos que estar contra a guerra. Toda guerra, em si, mata vidas de outros, nossos semelhantes
Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via Reuters5 min de leitura
A frase do título não é minha, é de B. Russel e de A. Einstein em seu manifesto de 9 de julho de 1955 contra os perigos de uma guerra nuclear e pela paz. Esse é o grande anseio da humanidade, sempre frustrado e sempre de novo renovado. Essa utopia pela qual lutamos para que seja viável não pode ser nunca abandonada, pois seria cinismo face às vítimas das guerras e deserção de qualquer sentido ético.
Max Born, prêmio Nobel de física (1954) denunciou a prevalência da matança de civis na guerra moderna. Na primeira guerra mundial morriam só 5% de civis, na segunda guerra, 50%, na guerra da Coreia e Vietnam, 85%. E dados recentes davam conta de que contra o Iraque e a ex-Iugoslávia 98% das vítimas eram civis. O mesmo está ocorrendo na guerra de Netanhyau contra os palestinos da Faixa de Gaza. Mais de 18 mil eram crianças que nada tinham a ver com a guerra e foram sacrificadas.
Não basta ser pela paz. Temos que estar contra a guerra. Toda guerra, em si, mata vidas de outros, nossos semelhantes.
Juízo ético
O fenômeno da guerra apresenta-se tão complexo que nenhuma resposta ou explicação é suficiente. Isso não nos dispensa de pensar sobre o fato da guerra e suas perversas consequências humanas e materiais.
Por exemplo, se um país é agredido por outro, que fazer? Tem direito de se defender com forças defensivas? Há nisso proporcionalidade? Como devem se comportar os governantes dos povos que assistem o genocídio a céu aberto como na Faixa de Gaza? Ou diante da limpeza étnica de minorias aplicada na ex-Iugoslávia, no Kosovo e na Bósnia por soldados sanguinários, que ainda violavam sistematicamente direitos humanos básicos? Vale alegar o princípio da não intervenção em assuntos internos de estados soberanos e assistir, passivos, a crimes contra a humanidade? Qual é o limite da soberania? É absoluta? Está acima do humano?
Como reagir ao fenômeno difuso do terrorismo que, eventualmente, pode ter acesso a materiais atômicos, ameaçar toda uma cidade, pondo-a de joelhos? E se for lançada, inviabilizaria a vida de toda a cidade por causa da radioatividade. Contra isso é legítima uma guerra preventiva?

Foto: Reuters
São questões éticas que ocupam mentes e corações nos dias atuais. Para não desesperar temos que pensar. No mundo inteiro, dada a estratégia do atual presidente dos EUA Donald Trump (que disse e está realizando), a paz se fará não pelo diálogo mas pela força. Jamais seria Paz, mas uma pacificação forçada. É discurso recorrente em todos os presidentes, inclusive com Barack Obama, afirmar que os EUA tem interesses globais e podem intervir quando estes são ameaçados, usando até a força.
Face a estes problemas referidos apresentam-se várias opções.
Um grupo numeroso sustenta a tese: dada a capacidade devastadora da guerra moderna com armas químicas, biológicas e nucleares que podem comprometer o futuro da espécie e toda a biosfera, não há mais nenhuma guerra justa (ius ad bellum). A vida e o ser humano em suas várias formas estão acima de tudo.
Outro grupo afirma: pode haver guerra justa, a “intervenção humanitária”, mas limitada para impedir o etnocídio e crimes de lesa-humanidade.
Outro grupo, representando o establishment global, reafirma: há que se resgatar a guerra justa como autodefesa, como punição de países do “eixo do mal” e como prevenção de ataques com armas de destruição em massa.
Façamos um juízo ético sobre estas posições: nas condições atuais, toda guerra representa altíssimo risco, pois dispomos da máquina de morte, capaz de destruir a humanidade e a biosfera. A guerra é um meio injusto, por ser globalmente letal.
Dentro de uma política realista, uma “intervenção humanitária” limitada é teoricamente justificável, sob duas condições: não pode ser decidida por um país singular, mas pela comunidade das nações (ONU) e deve respeitar dois princípios básicos (ius in bello = os direitos no curso da guerra): a imunidade da população civil e a adequação dos meios (não podem causar mais danos que benefícios).
A força empregada como autodefesa não a torna boa, mas se justifica dentro da estrita adequação dos meios.
A guerra de punição, como contra o Afeganistão e contra o Sul do Líbano onde atua o Hammas, se baseia na vingança e não é defensável. Só alimenta raiva e ressentimentos, caldo de futuros conflitos.
A guerra preventiva, contra o Iraque, na suposição falsa de possuir armas de destruição em massa, era ilegítima porque se baseava em falsas análises, sobre o que ainda não era e poderia não acontecer. Nenhum direito, de qualquer natureza, lhe concede legitimidade por ser subjetiva e arbitrária.
Tudo isso vale teoricamente, pois importa clarear posições. Praticamente, porém, se mostrou que todas as guerras, mesmo a de “intervenção humanitária” não observam os dois critérios, da imunidade da população civil e da adequação dos meios. Não se faz distinção entre combatentes e não combatentes.
Para enfraquecer o inimigo se destrói sua infraestrutura, com muitas mortes de inocentes e de civis. As consequências da guerra perduram por anos como no caso do urânio empobrecido, usado pelo exército norte-americano, causando enfermidades para todo um grupo afetado.
A guerra não é solução para nenhum problema. Devemos buscar um novo paradigma, à luz de São Francisco de Assis, de Leon Tolstói, de Gandhi e de Luther King Jr, se não quisermos nos destruir. A paz como meta e como método. Se queres a paz, prepara a paz.


