A nossa velha infância

O uso das telas pelas crianças vem apagando as brincadeiras tradicionais

Redação NBE

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03/10/2022
A nossa velha infância AdobeStock

5 min de leitura

(Para ler ouvindo Bola de Meia, Bola de Gude - Música de Milton Nascimento e Fernando Brant)

Era uma vez... um reino em que as crianças eram as donas da rua. Todo mundo brincava junto, corria, suava, caía, levantava, jogava... até a hora em que a mãe ou o pai dava aquele grito chamando pelo nome e o sobrenome comum: “Fulano Vem Pra Dentro”.

É certo que cada tempo tem seus encantos e a tecnologia tem desvendado mundos nunca dantes navegados, mas a falta de controle no uso de celulares, tabletes, televisão e outros aparelhos eletrônicos distanciou as crianças do convívio lúdico e mudou as interações com outras formas de lazer.


O uso de tablets e celulares, que antes da pandemia ficava em 15% para crianças de zero a três anos, saltou para 59% durante os meses de isolamento.


E o pior, mergulhou adultos numa vida apressada e angustiante que incorporou alguns valores e práticas incompatíveis com a própria saúde física e mental. Exemplo disto foi a adoção das telas como parte integrante do dia a dia familiar durante a pandemia, ocupando não só os espaços destinados ao tempo de trabalho, mas tomando conta da rotina de toda a família, de manhã à noite.

Segundo pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, de São Paulo, o uso de tablets e celulares, que antes da pandemia ficava em 15% para crianças de zero a três anos, saltou para 59% durante os meses de isolamento.

A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria - SBP é de que crianças abaixo de dois anos não tenham acesso a telas. Entre dois e cinco anos o limite máximo de uso é de uma hora diária; entre seis e dez anos, duas horas por dia; e acima de onze anos, três horas.

As recomendações da SBP visam preservar a própria saúde neurológica das crianças. A Primeira e Segunda Infância, que vão até os 6 anos, são consideradas uma janela em que experiências, descobertas e afeto são levados para o resto da vida. É um momento oportuno também para introduzir valores e aprendizados.

Neste período da vida o cérebro da criança possui grande capacidade de se desenvolver, com milhares de sinapses acontecendo e é muito importante que a criança receba os estímulos adequados nesse período.

Entre esses estímulos, o brincar é fundamental.

Faz de conta

Pensadores como Lev Vygotsky, Jean Piaget, Sara Paín, entre outros, falam como as crianças aprendem e se desenvolvem com o lúdico, construindo seu próprio mundo, e como se relacionam com ele, com os outros e com elas mesmas, dando significado a tudo que aprendem. Por meio do lúdico, a criança adquire conhecimento e tem melhor desempenho na aprendizagem.

A criança não deve ser limitada a brincar com brinquedos ou ser direcionada por um cuidador, já que a imitação do cotidiano e da rotina dos adultos faz parte do aprendizado infantil, como brincar de casinha ou fazer comida.


A criança precisa de estímulos adequados, de afeto, de uma boa nutrição e de muita brincadeira.


O faz de conta, em que a criança imita de uma forma mais livre e espontânea, é ainda mais importante. Nesse momento, ela tem liberdade de imitar o que quiser, de fadas e príncipes e princesas, a personagens de livros, desenhos ou filmes.

Ao praticar a imitação e o faz de conta, a criança adquire hábitos das pessoas ou personagens que ela utiliza para a brincadeira, por isso é importante a supervisão e o cuidado ao que ela está tendo acesso. Se ela vê atitudes respeitosas e bondosas, essa será sua referência de vida. Isso vale também para agressividade e má-índole.

“A criança precisa de estímulos adequados, de afeto, de uma boa nutrição e de muita brincadeira”, afirma Sofia Rebehy, gerente do projeto Brinca e Aprende Comigo, lançado em agosto de 2022 que nasceu da visão de que o desenvolvimento infantil tem suma importância na formação das pessoas. Num primeiro momento, o projeto vai atender crianças do Ceará e de Minas Gerais, de zero a oito anos, além de mães, pais e cuidadores.

A realização é uma parceria entre a ONG ChildFund - uma organização internacional que atua na promoção e na defesa dos direitos da criança e do adolescente e foi eleita a melhor ONG para Crianças e Adolescentes do país por três anos (2018, 2019 e 2021) e The LEGO Foundation, ONG suíça que promove mudanças sistêmicas e escaláveis em parceria com outras pessoas e organizações, transformando atitudes e comportamentos em aprendizado, por meio de brincadeiras. Saiba mais sobre o projeto no site da ChildFund Brasil.

Memória afetiva

Com o aumento no uso das telas na vida das crianças, não só as chamadas brincadeiras tradicionais perderam espaço, mas a própria memória afetiva, considerada fundamental para o desenvolvimento infantil, já que é por meio dela que as crianças aprendem sobre limites, gostos, sentimentos, funcionamento do próprio corpo e das suas emoções.

Segundo a psicóloga e professora do curso de Psicologia do UNINASSAU - Centro Universitário Maurício de Nassau Recife, Larissa Oliveira, os pais podem ajudar a construir boas memórias afetivas.


Uma criança demanda muitos cuidados, mas a memória afetiva e o desenvolvimento infantil são primordiais para uma boa infância. Essas dicas que foram dadas precisam ser colocadas em prática. E mesmo os pais muito atarefados precisam reservar um tempo de qualidade com seus filhos.


“É importante que os pais passem mais tempo de qualidade com as crianças, jogando um jogo, lendo histórias antes de dormir, brincando com massinha de modelar ou fazendo pinturas, por exemplo. Além disso, podem cozinhar juntos, fazer pratos simples como cupcake, tortinha de leite condensado, brigadeiro, etc. Também é interessante os passeios fora de casa, em parques ou em locais que tenham atividades culturais. Tudo isso vai ser importante no desenvolvimento infantil”, ensina.

As memórias se formam a partir das experiências que são registradas na consciência. E é no futuro que elas aparecem como memórias afetivas.

“Uma criança demanda muitos cuidados, mas a memória afetiva e o desenvolvimento infantil são primordiais para uma boa infância. Essas dicas que foram dadas precisam ser colocadas em prática. E mesmo os pais muito atarefados precisam reservar um tempo de qualidade com seus filhos”, finaliza.


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