2025 foi marcado pela indústria da raiva

A produção deliberada de conteúdos pensados para provocar raiva e gerar engajamento na internet definiu a Palavra do Ano

Redação NBE

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02/02/2026
2025 foi marcado pela indústria da raiva Freepik/NBE

2 min de leitura

Em 2024, o Dicionário Oxford escolheu “brain rot” como a Palavra do Ano — expressão que pode ser traduzida como “apodrecimento do cérebro” e que passou a nomear a sensação de deterioração mental provocada pela superexposição a conteúdos banais, repetitivos e hiperinflados no campo da internet.

Em 2025, o termo eleito foi “rage bait” (isca para raiva) e se refere à produção deliberada de conteúdos pensados para provocar raiva e gerar engajamento (curtidas e/ou novos seguidores).

“Essas palavras não descrevem apenas modismos linguísticos. Elas descrevem um estado psíquico coletivo”, afirma a psicanalista Camila Camaratta.

Brain rot

Segundo ela, a “brain rot” não se refere a um simples excesso de informação. Trata-se de algo mais profundo: a perda progressiva da capacidade de sustentar a própria vida psíquica. “O sujeito não tolera silêncio, dúvida ou espera. Precisa estar continuamente excitado, interrompido, atravessado por estímulos que o salvem do encontro consigo mesmo”, explica.

A ideia não é nova na teoria psicanalítica. Freud já apontava que o aparelho psíquico adoece quando submetido a excitações que não conseguem ser simbolizadas. Já o psicanalista inglês influente no campo do desenvolvimento psicológico, Donald Winnicott, falava da importância do chamado “espaço potencial” — um intervalo interno necessário para a criatividade, o brincar e a elaboração emocional.

Hoje, esse espaço parece cada vez mais ocupado por demandas constantes de reação. E quando o pensamento falha, a raiva entra em cena. No tempo atual, cuidar da saúde mental não significa aprender a ser feliz o tempo todo. Significa, antes, aprender a não ser capturado.

Rage bait

Segundo Camaratta, o “rage bait” não cria raiva, ele a explora. “É um dispositivo de captura de afetos brutos. Não quer convencer, quer ativar. Não convoca o simbólico, convoca o reflexo”, diz.

Nesse processo, o ódio deixa de ser uma experiência subjetiva e passa a funcionar como engrenagem algorítmica.

No Brasil, esse fenômeno encontra um terreno especialmente fértil. O livro Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, traça o retrato de um país marcado pela insegurança permanente: medo difuso, desconfiança entre as pessoas e sensação de abandono institucional. Ao mesmo tempo, valores rígidos de pertencimento — como família, fé e identidade — surgem como âncoras defensivas diante de um mundo percebido como ameaçador.

“Esse arranjo psíquico-social produz sujeitos fatigados, mas também extremamente sensíveis a estímulos que oferecem culpados, certezas rápidas e alívio imediato”, observa a psicanalista. “A raiva digital não é ruído. É um sintoma.”

Forma-se, assim, um circuito fechado: quanto menos o sujeito consegue simbolizar, mais reage; quanto mais reage, menos consegue pensar. Entre a “brain rot” e a indústria da raiva, instala-se um modo de funcionamento que empobrece o pensamento e intensifica o mal-estar.

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