Surge no Japão um novo business: sumir para existir

O desaparecimento voluntário é um movimento que cresce e já tem até nome: é “johatsu”

Luis Felipe Nascimento

Luis Felipe Nascimento

28/08/2025
Surge no Japão um novo business: sumir para existir Adobe Stock/NBE

4 min de leitura

Você já teve vontade de “sumir do mapa”? Em deixar para trás tudo o que já viveu e recomeçar em outro lugar onde ninguém o conheça, sem passado, sem cobranças, sem lembranças?

Eu já ouvi pessoas confidenciarem que, em determinado momento da sua vida, desejaram desaparecer, como se a única saída fosse evaporar.

O cinema já mostrou isso em filmes como “Dormindo com o Inimigo”, no qual Julia Roberts interpreta Laura, que escapa do marido violento e, adota o nome de Sara Waters para nascer de novo.

Na vida real, vimos artistas como Belchior desaparecerem misteriosamente, deixando fãs e familiares atônitos. Existem também criminosos que literalmente se transformam em outra pessoa para fugir da lei.

Mas o que me chamou a atenção recentemente foi descobrir que, em alguns países, esse desejo de desaparecer virou negócio. Sim, um serviço oferecido como se fosse uma mudança qualquer. No Japão, o termo para isso é “johatsu”, que significa “evaporar”. Pessoas que, voluntariamente, cortam todos os laços e se apagam da vida anterior.

Estima-se que dezenas de milhares de japoneses tenham usado os serviços das chamadas “yonigeya”, que significa “lojas de fuga noturna”. Essas empresas clandestinas ajudam a organizar a saída: transporte, esconderijo e documentos novos. Em uma madrugada silenciosa, a vida de alguém é encaixotada e levada embora. No dia seguinte, é como se tivesse evaporado.

Essa prática é facilitada em países como Japão e Coreia, onde a privacidade é quase sagrada e onde o uso de dinheiro vivo é comum. Isso dificulta rastreamentos, facilitando o desaparecimento de quem deseja evaporar.

Mas por que as pessoas fazem isso?

Os clientes desse negócio, em geral, não são criminosos ou vítimas de abusos, mas pessoas que estão cansadas da sua vida atual, das pressões sociais e vergonha. Os motivos mais comuns são: problemas financeiros, fracasso profissional, decepções amorosas, problemas conjugais ou familiares, bullying na escola ou no trabalho e esgotamento mental.

E como elas vivem depois que evaporaram?

A pessoa que “morreu socialmente”, assume nova identidade, encontra um novo emprego e inicia uma vida nova no anonimato, longe de todos os seus antigos laços. Imagine a tortura que deve ser para as famílias, que não sabem se a pessoa morreu ou se está vivendo outra vida. Como não há evidência de crime, a polícia não investiga essas situações. Ficam apenas o silêncio e a ausência.

Pesquisando sobre o tema, encontrei organizações legais que providenciam a mudança de identidade na Alemanha, Holanda e EUA, com o objetivo de proteger a pessoa de violência doméstica, perseguição política, ameaçadas por máfias etc. Nos EUA, é o próprio governo que oferece isso pelo Programa de Proteção a Testemunhas.

O Brasil, inspirado nesse modelo, criou em 1999 o PROVITA (Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas), oferecendo mudança de domicílio, identidade nova, apoio financeiro e psicológico e, em alguns casos, mudança de aparência. Tudo isso é coordenado pela Secretaria Nacional de Justiça, no mais absoluto sigilo sobre o local e rotina da nova vida da vítima.

Existe também o outro lado da moeda: empresas privadas especializadas em encontrar aqueles que sumiram. Nos EUA, são os “skip tracers”; no Brasil esse papel é assumido por detetives particulares ou pela polícia.

Mas, no fundo, a pergunta que não sai da minha cabeça é: como se sentirá uma pessoa nessa “ressurreição em vida”? Será que é possível se reinventar apagando todas as marcas do que fomos? Será que estas pessoas se sentem mais livres ou é apenas outra forma de prisão?

Eu tento imaginar a minha vida sem meus amigos, sem minha família, sem as histórias que construí até aqui. Quem eu seria sem mim? Como seria carregar o peso de um nome escondido, de um passado proibido, de uma identidade que não pode ser revelada? Quando cortamos nossos laços, não apagamos apenas o sofrimento, apagamos também os afetos.

Talvez a maior experiência de quem escolhe evaporar não esteja na fuga em si, mas no confronto silencioso com a própria ausência. Essas pessoas vivem a estranha dualidade de carregar em si duas vidas: a que abandonaram e a que inventaram para sobreviver. Carregam um luto secreto pelo que deixaram para trás, ao mesmo tempo em que precisam aprender a respirar no vazio de um presente sem raízes. É como se cada passo fosse uma tentativa de apagar pegadas que, por dentro, continuam gravadas.

No fundo, evaporar não é apenas desaparecer — é viver na fronteira entre o esquecimento e a memória, entre o alívio e a dor, entre a liberdade e a eterna sensação de estar incompleto.

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Luis Felipe Nascimento

Luis Felipe Nascimento

Luis Felipe Nascimento é professor na escola de Administração da UFRGS.

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