A bordo do Calypso de Cousteau

Gaúcho pesquisou com o lendário Jacques Cousteau

Volnei Flávio Soldatelli

Volnei Flávio Soldatelli

04/04/2022
A bordo do Calypso de Cousteau Arquivo pessoal

3 min de leitura

No dia 5 de dezembro de 1982, eu parti num zodíac de Cousteau, desde o porto de Santarém, em direção ao Calypso, para realizar o meu projeto “Levantamento Preliminar do Microfitoplâncton das Águas Claras do rio Tapajós, Pará, Brasil”.

Este seria um dos cinco projetos brasileiros aprovados pela Cousteau Society e pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) para participar da “Operação Amazônia” junto à equipe de Cousteau.

Quando cheguei ao Calypso, fui recebido pela família Cousteau: Jacques-Yves, sua mulher, Simone, e seu filho, Jean-Michel. Ao cumprimentar-me, Cousteau questionou-me sobre a presença do plâncton no rio Tapajós. Então, apontei em direção à popa do Calypso e mostrei-lhe as imensas manchas verdes formadas pelo fitoplâncton (microalgas) que coloriam as águas claras daquele rio. Ao olhar para aquele fenômeno, Cousteau impressionou-se, pela dimensão e beleza.

Volnei Flávio Soldatelli, Jacques-Yves Costeau e mais dois tribulantes do navio Calypso

Durante os próximos seis dias, faríamos seis coletas do fitoplâncton desde a confluência do rio Tapajós com o rio Amazonas, até a localidade de Alter do Chão. O dia seguinte sempre me reservava um novo preparo de materiais e equipamentos para a coleta do fitoplâncton e dos dados ambientais do rio Tapajós.

Jacques Cousteau era um homem programado, pois sua agenda diária estava sempre tomada. Gozava do mais alto respeito, obediência e admiração de seus comandados. Durante o tempo que convivemos juntos, deixou-me transparecer um homem sereno, atencioso, simples, cordial, gentil e bem-humorado.

Ele estava sempre acompanhado pelo seu filho, Jean-Michel, que dirigia a Cousteau Society e sua mulher, Simone, que passava horas contando-me das aventuras do Calypso.

Certa noite, Jacques Cousteau, nos disse: “Não me considero um cientista. Não me interessa quantas escamas tem um peixe, mas sim sua importância para a manutenção do equilíbrio ecológico do meio onde ele está inserido”.

Mais tarde, num tom de sobriedade, afirmou: “Revelar a Amazônia através de sua beleza, nada mais é que a constatação de sua mais pura realidade. O motor solar dos trópicos, acelerado pelo líquido da vida, a água, determina essa exuberância de vida”.

Confesso que partilhar dessas informações e comentários, junto àquele homem soberano no desejo de preservar a vida em nosso planeta, foi um imenso privilégio.

Ao deixar o Calypso, parti a bordo do hidroavião “papagaio” em direção à cidade de Santarém. Margeando o rio Tapajós, percebi enormes áreas desmatadas, outras em chamas e algumas com focos de areia, prenúncio de um futuro deserto.

Naquele momento, senti vontade de chorar por perceber a destruição indiscriminada da natureza por parte do homem. Uma mescla de vergonha, culpa e indignação abateram-se sobre mim naquele instante. Percebi, então, que teria a obrigação ética, moral, profissional e humana de dar a minha parcela de contribuição para preservar aquele mundo verde, recortado por artérias por onde fluem líquidos de várias cores.

Ao retornar para a cidade de Rio Grande-RS, iniciei a identificação do fitoplâncton, junto ao laboratório de planctologia da Base Oceanográfica Atlântica, pertencente à Fundação Universidade do Rio Grande (FURG). Após três anos de estudos, identifiquei 286 espécies e 74 variedades de microalgas. Isso viria a comprovar a enorme biodiversidade da maior floresta tropical úmida do planeta: a Amazônia.

Compartilhar minha experiência na “Operação Amazônia”, através de palestras, seminários, dois livros publicados (A Amazônia que conheci com Jacques-Yves Cousteau; A Amazônia que conheci a bordo do Calypso de Cousteau) e o resultado de minhas pesquisas sobre o fitoplâncton do rio Tapajós têm tido o objetivo de tornar públicas estas importantes informações sobre o magnífico ecossistema amazônico.

Imagem de um barco em um Rio

Ao mesmo tempo, busco inspirar as pessoas a aliarem esforços para sua preservação para que um novo espírito humano seja capaz de salvar, o maior santuário de espécies do mundo: a floresta Amazônica!

Compartilhe

Volnei Flávio Soldatelli

Volnei Flávio Soldatelli

Oceanólogo, Mestre em Ecologia, professor, escritor e palestrante.

Também pode te interessar

blog photo

A difícil arte de ouvir

O poder público municipal assumiu o papel de elaborar a legislação, mas em total desrespeito a uma construção coletiva reconhecida internacionalmente há mais de 30 anos

Elson Schroeder

Elson Schroeder

blog photo

Mudanças climáticas: aprender a fazer as conexões

Não estamos mais indo ao encontro do aquecimento global. Estamos já dentro dele, possivelmente de forma irreversível

Leonardo Boff

Leonardo Boff

blog photo

Pra não dizer que não falei de PAZ

A Carta de Porto Alegre colocou palestinos e israelitas de mãos dadas

Vera Mari Damian

Vera Mari Damian

simbolo Bem Estar

Receba conteúdos que te inspiram a viver bem

Assine nossa newsletter e ganhe um universo de bem-estar direto no seu e-mail