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Crescimento pessoal

28/01/2014 13h33

Refletindo a morte desde a Boate Kiss

Como ficam os sentimentos um ano depois da tragédia em Santa Maria

Por Sérgio Veleda, terapeuta

OVERMUNDO/ FLICKR/ NBE
Boate kiss

Incêndio abalou o país inteiro em 27 de janeiro de 2013

Quando chegamos em Santa Maria, dias depois do incêndio na Boate Kiss, encontramos sentimentos de dor, medo e perplexidade. A convite da Universidade Federal de Santa Maria, viajamos para dar uma palestra de apoio aos alunos, juntamente com a professora e antropóloga Claudia Fonseca. No primeiro momento, muitos alunos, ainda muito fragilizados, não conseguiam entrar no local. Lentamente eles foram se aproximando. Outros evitavam tocar no tema que os lembraria de tudo. 

O que dizer da morte? Essa pergunta me faz pensar e sentir esse trágico. Para morrer não é necessário habilidade ou compreensão. O que mais nos custa é viver vendo os que morrem. É necessário habilidade para lidar com o sofrimento, sem  negá-lo. A morte do outro é uma experiência que se vive e que não se soluciona. E o que nos faz sofrer é o incompreensível da morte e a limitação que nos é imposta. É o que ocorreu com a tragédia na Boate Kiss. O ser humano costuma ter esse sentimento de que a morte é incompreensível e inútil e que não deveria ocorrer. Diante dela, principalmente quando se dá em proporções grandes e trágicas, ficamos perplexos e com um senso de absurdo. 

A forma de lidar com o incompreensível da morte é falar e expressar tudo sobre ela. Quem sofre necessita expressar em palavras e sentimentos o que sofre, e poder falar muitas e muitas vezes. É importante contar com pessoas presentes e dispostas a ouvir. Também os grupos que se organizam para isso  humanizam esse momento de dor  e revolta. Poder falar quantas vezes se necessita é fundamental, assim como não negar o que ocorreu. Assim, aos poucos, o incompreensível vai se tornando compreensível. 

Em situações assim não é o caso de se ficar analisando a morte. As pessoas precisam poder falar  sobre o que geralmente está impedido de ser expresso, a dor e o medo. Elas necessitam poder viver o luto, chorar a morte, tentar compreender o incompreensível. Os que ficam anseiam por poder falar e participar de tudo o que envolve o luto – velar, chorar, enterrar, cremar, visitar os mortos – atravessando todos os rituais. Somente assim, algo internamente se completa, e integra-se parte dos sentimentos incomprendidos. 

O que nos faz sofrer diante da morte não é a dor que ela nos causa, mas  não poder entender e não se ter domínio sobre ela. É não se ter respostas. Por isso, no luto é essencial não negar a dor e o sofrimento. Eles nos abrem e ajudam a desfazer parte do medo que sentimos. A dor e o sofrimento nos humanizam, nos aproximam. 

A humanização da morte, da dor e do sofrimento, é a base, é a fortaleza que nos torna capazes de suportar e compreender o incompreensível. O medo e a falta de humanização da morte ocorrem em um mundo carente de sacralidade e respeito, marcado pelo vazio dissimulado por tantas aparências, pelo excesso de tecnologias e manuais, pela falta contato e a imensa distância. Quanto mais tecnológico é o mundo, mais ele corre o risco de se tornar vazio, sem sentido humano, e se torna muito duro e assustador diante do sofrimento. 

Há um tempo para tudo, já diz um sábio no Eclesiastes. Tempo de nascer e também tempo de morrer. Não se pode impedir esse tempo. Há mais medo do que dor nas situações da morte: medo do sofrimento e da tristeza. Nessas horas acreditamos que não vamos suportar passar por tudo e que seremos destruídos pela tristeza. Por isso, sofremos de maneira inconsciente e confusa. Ao invés de falar, nos fechamos, ou sucumbimos no desespero.

 A capacidade de falar e ouvir demarca um princípio claro de aceitação da morte, de se aprender a lidar com o infortúnio. A coragem brota dessa atitude. A origem da palavra coragem vem de ‘core’, ou seja, coração. Um coração que não suspende o que sente torna-se destemido, não amedrontado. Muitas vezes perdemos a confiança para lidar com as coisas que surgem em nossa vida. Mas todas as situações vitais, inclusive e paradoxalmente a morte, podem ser trabalhadas. Há um sabedoria inerente e humana no sofrimento, ela nos faz aprender e depois pode servir de guia para outros que sofrem. 

O sentido da compaixão é inseparável da dor. Colocar-se no lugar do outro faz surgir em nós virtudes humanas que se revelam no extremo de uma situação trágica e dolorosa: solidariedade, empatia, humanidade, destemor, valor, amor. A compaixão e as virtudes que dela brotam atenuam a dor dos que sofrem. Na dor, no sofrimento e na morte nós ficamos desmascarados, desnudos, desprotegidos. Precisamos ter coragem para assumir o que ainda é humano em nós. Há no coração triste e frágil um tanto de autenticidade e nobreza. E isso nos servirá quando estivermos próximos da nossa própria morte e também da morte dos outros.

*Sérgio Veleda é terapeuta e coordenador do Vale do Ser - www.valedoser.com.br

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