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Saúde Integral

05/08/2015 09h58

100% vegan

Muito além de uma dieta sem carne e derivados de origem animal, o veganismo é uma maneira de levar a vida com responsabilidade sobre o consumo

Por Nanda Barreto/Nosso Bem Estar

KURHAN/DOLLAR PHOTO CLUB/BE
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Veganismo: ética ambiental da boca para dentro

O veganismo vai além do cardápio: está mais para um estilo de vida. Além de não consumir nada de origem animal, quem é vegano descarta também artigos que tenham sido testados em animais, como shampoos e produtos de limpeza. Peças em couro? Nem pensar. Ou seja, o vegano não consome nada que traga em si a carga de sofrimento e exploração de outros animais.

Adepto do veganismo há mais de uma década, o advogado Guilherme Leonardi, 34, conta que essa opção trouxe transformações profundas e positivas para o seu cotidiano. “A primeira delas é a tranquilidade de não causar opressão aos animais”, pontua. Outra mudança importante, claro, diz respeito aos hábitos alimentares. Geralmente, os veganos passam por uma fase vegetariana antes.

A fotógrafa Sheila Uberti, 25, está exatamente nesse momento de transição. “Eu não tenho bem uma data que marque o início da minha alimentação vegetariana. Comecei a pensar nisso uns 6 anos atrás e fui cortando as carnes das refeições, numa adaptação que levou cerca de três meses. Ainda comi em algumas ocasiões, por perceber que meu corpo estava pedindo aquilo naquele momento”, lembra Sheila.

Para ela, o próximo passo é o veganismo. “A opção pelo vegan total vem da vontade de boicote a um sistema que está se tornando política ambiental e culturalmente insustentável”, defende. Na avaliação de Guilherme, o veganismo é necessariamente uma forma de ativismo político. “É a ética e a proteção ambiental da boca para dentro”, sustenta.

A experiência do psicólogo Venicio Loenert, 34, fortalece essa visão. “Quando me tornei vegetariano, a motivação inicial foi apenas a saúde e o fato de que tinha a intenção de aprofundar a minha prática de yoga. Depois, com o tempo, essa motivação foi tomada pela compaixão pelos animais. E, faz algum tempo, caiu a minha ficha de que meu círculo compassivo ainda era pequeno e ilusório. A partir daí, comecei a fazer a transição para o veganismo.”

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Xiii… Lá vem um vegano...
Numa sociedade em que a carne é o prato principal do cardápio, fica fácil rotular os veganos de chatos. Por isso, é comum que eles sintam certo preconceito social. Pudera: o fato é que os veganos são uns tipinhos que questionam muito. Combatem a alienação social e a monotonia alimentar. Querem saber tintim por tintim de cada item que entra no carrinho do supermercado. E nada incomoda mais os que estão sentados na poltrona, de frente para a tevê, comendo fast-food, com o controle remoto na mão, do que alguém que decidiu sair da zona de conforto e fazer diferente.

“Sem dúvida há preconceito com os veganos e com a alimentação vegana. Há críticas e piadas, mas elas são uma oportunidade para expor um pouco da filosofia vegana, desconstruir mitos e plantar sementes para uma reflexão mais profunda”, pontua Guilherme.

Sheila concorda com Guilherme e busca assumir uma postura de diálogo quando outras pessoas criticam a sua opção. “Sempre tento ser flexível nessas horas e nunca deixo de conversar, mostrando meu ponto de vista de forma positiva, nunca criando discussão ou embate”, resume.

Frequentadora de restaurantes e eventos veganos, a fotógrafa observa que se tornou uma consumidora mais exigente. “É bem verdadeiro afirmar que ser vegana é um hábito que me tornou uma consumidora muito mais crítica, até ‘chata’ em algumas situações. A partir do momento em que a consciência crítica está formada na sua mente, não tem como agir da mesma forma de antes.”

Para Guilherme, a maior dificuldade a ser superada é a dicotomia criada em torno da carne. “As pessoas se habituaram a enxergar os animais vivos e a carne no prato como se fossem coisas diferentes, para, assim, afastar a sua responsabilidade sobre aquela morte e aquele sofrimento. Esse é, seguramente, o maior entrave para o diálogo.”

Mas o que é que vocês comem?
Quem centraliza sua alimentação no consumo de carnes tem certa dificuldade de entender do que se alimentam os veganos. Diferente do que se possa imaginar, é uma dieta diversificada e saudável. De acordo com estudos apontados pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), entre as pessoas que optam por esse tipo de dieta observa-se uma menor incidência de todas as doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão, infartos, diabetes, diversos tipos de câncer e obesidade.

A dieta vegetariana bem planejada, como deve ser qualquer dieta, oferece todos os nutrientes de que precisamos. Há mais de 10 anos, quando Guilherme decidiu deixar de ser vegetariano para tornar-se vegano, era complicado encontrar opções de restaurantes. “Ser vegano por um lado dificulta encontrar alimentos prontos na rua, por outro lado, porém, permite descobrir uma grande variedade de ingredientes que normalmente os onívoros não conhecem ou não utilizam.”

Guilherme confessa que passou anos sem realizar nenhum exame para verificar como estavam suas necessidades nutricionais básicas, o que não é recomendado. “Todos os exames que fiz posteriormente sempre foram excelentes, sem nenhuma deficiência ou excesso. Acredito que isso se deva justamente à imensa variedade de alimentos consumidos.”

Mais ligada à culinária, Sheila dá preferência à alimentação caseira. “De início cozinhar vegan parece ser mais difícil, porque pede mais criatividade e mais variedade. Acho que as pessoas estão acostumadas a viver num ritmo tão alucinado que não conseguem parar para pensar o que as alimenta, e quando se vêem nessa obrigação acham um sacrifício. O paladar se acostuma se a pessoa tiver disposição. Eu não sinto a menor falta do sabor de nenhuma carne, e fico com asco se tento comer”, destaca.

Equilíbrio nutricional
De acordo com a nutricionista Suellen Lorenci, alguns desequilíbrios nutricionais são comuns em pacientes veganos. “É importante manter alguns cuidados/alimentos essenciais para aproveitar ao máximo todos os benefícios desta alimentação livre, leve e nutritiva. As proteínas são essenciais ao corpo humano, portanto é importante manter fontes diárias de proteínas vegetais, além de garantir um bom aproveitamento delas pelo organismo, com um sistema digestivo eficiente”, salienta.

Para a nutricionista, também é preciso estar atento às substituições. “É necessário garantir o aporte de micronutrientes importantes como ferro, zinco e cálcio, ficar atento à vitamina B12 e cuidar para não compensar e abusar dos carboidratos, principalmente os simples, ricos em farinhas brancas, açúcar e pobre em nutrientes e fibras”, complementa.

 

Veganismo: um bom negócio
Vegana há um par de anos, Taís Duranti Pereira, 40, fez dessa filosofia o seu ganha-pão. Proprietária de uma loja virtual que oferece produtos 100% livres de sofrimento animal, ela também é uma das organizadoras da Feira Vegana de Porto Alegre. “A Feira cresce a cada edição, superando todas as nossas expectativas. Isso quer dizer que existe demanda e ainda faltam opções.”

A cada bimestre, o evento reúne cerca de 30 expositores com oferta de alimentos, cosméticos, artigos de higiene, limpeza, artesanato e vestuário. “A próxima será realizada em agosto. Cerca de duas mil pessoas visitam o local! É muita gente!”, celebra. A gerente de certificação vegana da SVB, Carol Murua, 32, acredita que o mercado vegano está em plena ascensão. “Geralmente os empreendimentos veganos são de pequeno porte. É muito raro alguém abrir e dar errado”, sustenta.

De acordo com Taís, essa é uma tendência mundial. “Na Europa não param de abrir as portas de supermercados exclusivamente veganos. Aqui, já está na hora de os mercados considerarem a importância de ter um espaço dedicado a esse público, assim como já acontece com produtos dietéticos”, sugere.

Sem elitismos
Com a moda da gourmetização, o nicho do veganismo acaba se tornando atrativo para negócios. Os adeptos, no entanto, estão atentos e descartam esse tipo de mercado. “Não vejo justificativa lógica para o elitismo, pois tirar a carne do prato acaba barateando seu custo. Eu vou a vários eventos de rua com porções veganas bem saborosas a preços bem honestos. Tem prato vegano simples, barato e fácil, e tem prato vegano elaborado, que realmente custa mais. Imagino que tenha gente vendo nisso uma oportunidade conceitual de negócio, mas acho que isso deturpa a essência do vegan, que é ser muito mais do que aparentar”, defende Sheila.

Dignidade humana e ética vegana
De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), “os casos de trabalho escravo têm sido encontrados principalmente na pecuária (80% dos casos)”. Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT), 51% dos casos de trabalho escravo ocorridos em 2008 estavam ligados à pecuária e, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a pecuária é o setor da economia do qual foram resgatados mais trabalhadores em condições análogas à escravidão durante o ano de 2012.

Meio ambiente e veganismo
Produzir 1 quilograma de carne bovina no Brasil envolve a emissão de 335 Kg de CO2, o equivalente às emissões geradas por um carro médio percorrendo 1.600 Km. Considerando todas as emissões da cadeia, desde os cultivos que viram ração animal até o transporte e varejo da carne processada, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que o setor pecuário é responsável por 14,5% das emissões globais de gases do efeito estufa oriundas de atividades humanas.

 

 

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