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Crescimento pessoal

22/12/2020 08h00

Todos Irmãos

Nova encíclica fala sobre a cultura do encontro como solução para a fraternidade universal

Por Ricardo Zugno

STANDRET/FREEPIK/NBE
Sec dez group people supporting each others concept about team work friendship

Todos Irmãos

O grande poeta e compositor brasileiro Vinícius de Morais jamais teria imaginado ser lembrado em uma encíclica papal. Pois bem, nesta foi.

Na encíclica Todos Irmãos (Fratelli tutti) publicada em outubro de 2020, o Papa Francisco cita o verso de Vinicius de Morais “a vida é arte de encontro, embora haja tanto desencontro nesta vida” e avalia a urgência de estabelecer a fraternidade universal a partir de uma cultura do encontro.

"Quando redigia esta carta, irrompeu de forma inesperada a pandemia da Covid-19, que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças. Com base nas várias respostas dadas pelos diferentes países, ficou evidente a incapacidade de uma ação em conjunto. Apesar de estarmos superconectados, verificou-se uma fragmentação que tornou mais difícil resolver os problemas que nos afetam a todos", pontua Papa Francisco.

As questões relacionadas com a fraternidade e a amizade social sempre estiveram entre as preocupações do papa e esta, mais do que uma encíclica conceitual sobre a fraternidade, é um testemunho do seu diálogo com o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, considerado a máxima autoridade do islamismo sunita, grupo majoritário entre os muçulmanos no mundo. O papa recorda o histórico documento firmado com ele, em Abu Dabhi – Emirados Árabes, no dia 4 de fevereiro de 2019: “Naquele encontro fraterno, que recordo jubilosamente, (...) declaramos – firmemente – que as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião que abusaram – nalgumas fases da história – da influência do sentimento religioso sobre os corações dos homens”.

Diante de um mundo polarizado, o papa ressalta, portanto, a urgente necessidade de diálogo entre os líderes religiosos, mas não só entre os vértices. As bases também precisam ser dialogantes: “Também os crentes precisam encontrar espaços para dialogar e atuar juntos pelo bem comum e a promoção dos mais pobres. (...) Como crentes, somos desafiados a retornar às nossas fontes para nos concentrarmos no essencial: a adoração de Deus e o amor ao próximo, para que alguns aspectos da nossa doutrina, fora do seu contexto, não acabem por alimentar formas de desprezo, ódio, xenofobia, negação do outro. A verdade é que a violência não encontra fundamento algum nas convicções religiosas fundamentais, mas nas suas deformações”.

E alerta: "Deve-se reconhecer que os fanatismos que induzem a destruir os outros são protagonizados também por pessoas religiosas, sem excluir os cristãos, que podem fazer parte de redes de violência verbal por meio da internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital”.

A encíclica também questiona os sérios problemas mundiais, agora agravados pela pandemia do coronavírus: a fome que assola quase 10% da população mundial e a perigosa degradação ambiental global, dentre outros. Portanto, além do âmbito religioso e cultural, o papa considera urgente o diálogo e a cultura de encontro também nos âmbitos políticos e econômicos: "O mundo avançava implacavelmente para uma economia que utilizando os progressos tecnológicos procurava reduzir os 'custos humanos', e alguns pretendiam fazer-nos crer que era suficiente a liberdade de mercado para garantir tudo. (...) A tribulação, a incerteza, o medo e a consciência dos próprios limites que a pandemia despertou fazem ressoar o apelo a repensar os nossos estilos de vida, as nossas relações, a organização das nossas sociedades e, sobretudo, o sentido da nossa existência".

Com este propósito, o Papa Francisco convocou, em novembro, um encontro online mundial para repensar a economia mundial. Inspirado no espírito fraterno e de partilha de São Francisco de Assis, o fórum denominado “Economia de Francisco” foi direcionado a economistas, empreendedores e pesquisadores jovens. Contou com a assessoria de renomados economistas, alguns vencedores do Prêmio Nobel para a Economia como o americano Joseph Stiglitz e o indiano Amartya Sen, e o Nobel da Paz, Muhammad Yunus, também conhecido como o banqueiro dos pobres.

Assim como na encíclica Laudato Sii, na enciclíca Todos Irmãos e no encontro mundial sobre economia, o Francisco papa inspira-se mais uma vez no outro Francisco, o Santo de Assis, "que se sentia irmão do sol, do mar e do vento, sentia-se ainda mais unido aos que eram da sua própria carne. Semeou paz por toda a parte e andou junto dos pobres, abandonados, doentes, descartados, dos últimos".

*Ricardo Zugno é jornalista, escritor e tem formação em Ciências da Religião na Suíça e Itália. Conheça toda a encíclica aqui

 

 

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