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Família

16/07/2020 08h00

Reinventar trocas e afetos

Para onde vão os abraços que a pandemia nos priva? Será que a conexão virtual ressignifica o agora? Aqui, meu convite para refletirmos sobre novos territórios do encontro

Por Nanda Barreto

Reinventar trocas e afetos
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Reinventar trocas e afetos

Cada gesto de afeto renova o colorido dos meus dias: o link de uma música que chega por mensagem, a amiga que me envia uma lista de bons filmes, o áudio de uma poesia, a sugestão de um texto inspirador. Atitudes como estas rompem o isolamento e tingem meu coração de esperança nestes meses de absolutas incertezas, saudades e tantos aprendizados.

À revelia das confusas decisões impostas por governantes despreparados, sigo em quarentena desde 10 de março - um privilégio que busco honrar evitando as ruas, para não ser ponte de contágio do novo coronavírus. Nesta jornada, algumas vezes, entreguei pequenos presentes nas casas de amizades próximas: um pão caseiro, um bocado de feijão novinho, um livro, velas e incensos - coisas assim. 

Na janela do prédio onde moro, em Brasília, também recebo visitas: amigos que param lá embaixo para trocar dois dedos de prosa - meio aos berros, por conta da distância. Invariavelmente, retribuo jogando algum carinho: uma fruta, uma barrinha de chocolate e dia desses lancei até uma marmitinha pro almoço.

Quero dizer: estamos todas buscando novas formas de se relacionar e expressar afetividades. Pudera: este é o momento mais exigente de nossas vidas, coletivamente. Em diferentes dimensões, vivemos uma sucessão de perdas: perdemos a convivência, a rotina e supostas seguranças. Alguns de nós, perderam o emprego. Outros, perderam entes queridos. São perdas bruscas e dolorosas que a pandemia nos traz.

Felizmente, existem ganhos alentadores. Há algumas semanas, recebi a foto de um desenho feito por minha adorável amiga Anita, de 8 anos. Na imagem, duas guriazinhas trocam ideias, tomando sorvete, de máscaras, acompanhadas por um robô e um cachorrinho. Acima da ilustração, um texto sugere: "as veses, o mundo virtuau tem mais possibilidade que agora" (sic). Esta reflexão da Anita fez meu pensamento dar belos passeios. 

Fiquei horas conjecturando como deve ser a pandemia para alguém na idade dela, todo o processo de inclusão digital, aulas online e encontros virtuais para brincar. Pensei em mim própria, na alegria inesperada de quando acordo e leio coisas assim: "Bom dia. Como você amanheceu?" Ou, me chega no meio de um dia: "Vamos beber um vinho ao vivo mais tarde? Tô precisando conversar".  

Sem falar nas festas por videoconferência. Parabéns pra você. Chás de fralda. Reencontros. Celebrações: tudo intermediado por um tela amparada pela - controversa - tecnologia. Encontros improváveis também são possíveis: quer dizer, se não formos irresponsáveis, a única maneira de interagir com gente nova é pela internet. Da minha parte, recomendo vivamente se abrir para esta possibilidade: pode ser sincronamente bonito. 

Mas, de todas estas experiências online, gostaria de compartilhar uma, em particular. Foi assim: fizemos um círculo de mulheres surpresa para manifestar bênçãos à nossa amiga e sua filha, que em breve vai nascer. Em conchavo com sua professora de yoga, ocupamos a sala de aula on-line, cada uma do seu lar. Com velas acesas e coração cheio, soamos cantos, instrumentos e oferecemos nossas palavras de boas-vindas. 

Foi muito tocante. A vontade certamente era de abraços, olhares, presença. Mas o fato é que realmente estivemos ali juntas - para além de qualquer distância -, juntas no território do afeto. Não sei como é para você que me lê, mas eu tenho sentido muito. De todos os abraços que me fazem falta, os que mais me doem são os que não posso dar nas amizades que estão perdendo outros amores para a covid-19. 

Por aqui, já tenho os dedos de uma mão cheia de pessoas próximas que estão enfrentando o luto com todas as restrições que o momento impõe. É desolador não oferecer um ombro nesta hora. Por isso, acredito que para nós, que ainda ficamos, é radicalmente necessário renovar compromissos com a vida. Redesenhar prioridades. Reinventar jeitos de partilhar. E sobretudo: aproveitar cada chancezinha de amar. 

 Nanda Barreto é jornalista, instrutora de yoga, feminista y otras cositas más! Nas redes sociais, é @transitivaedireta. Na vida real, é poeta.

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