Bem-vindo ao Nosso Bem Estar!
Para acessar toda positividade de nosso conteúdo, escolha o portal mais próximo a você.

Crescimento pessoal

16/06/2020 08h00

A revolução do cuidado

É da natureza humana: se não houver quem cuide, jamais haverá quem cresça - em todos os sentidos

Por Nanda Barreto

Nosso Bem Estar
Td jun united nations covid 19 response g4z85zc zqi unsplash

A revolução do cuidado

A importância do cuidado nunca esteve tão evidente na nossa experiência coletiva. O mundo pandêmico devolveu o cuidado ao patamar de onde jamais deveria ter saído: o centro das nossas vidas, a base da existência humana. Cuidar de si, do outro, da nossa casa, da comunidade, do planeta Terra.

Justo agora que estamos distantes, reconhecer a nossa interdependência é caminho mais curto para superarmos o grave desafio que se apresenta. Está claro como água: cuidar de mim é cuidar de você. Estamos isolados em nossas casas para não contrair o novo coronavírus e - em igual medida - para não sermos agentes de propagação. Mesmo que a gente não adoeça, podemos ser um risco para o outro. E vice-versa. 

Como temos visto, esta dimensão do cuidado compartilhado parece não ter valor para algumas pessoas - notadamente para as que acreditam que a Terra é plana, o que realmente faz algum sentido: nessa lógica, bastaria varrer o vírus para além das beiradas. Assim como todo o lixo produzido pelo nosso consumo inconsciente, claro.  

Ironias à parte, entendo que existem inúmeros motivos pelos quais muitos de nós têm dado de ombros para as recomendações da Organização Mundial da Saúde: a necessidade de garantir o sustento, sem dúvida, é um imperativo. Mas eu queria aqui tratar de algo que me parece ser o pano de fundo desta situação em que nos metemos: a desconexão com nós próprios e - consequentemente - com o outro. 

Como bem sintetizou o espetaculoso Leonardo Boff no livro Saber Cuidar, Ética do humano - compaixão pela terra, "o cuidado serve de crítica à nossa civilização agonizante e também de princípio inspirador de um novo paradigma de convivialidade".

Então, é preciso voltar algumas casas no jogo e começar pela autocrítica. Os erros são civilizatórios e este ônus também nos diz respeito. Cada um/a é parte fundamental na transformação deste modelo individualista de sociedade. Isso precisa se dar no nosso zelo de práticas rotineiras - nas dimensões física, mental e espiritual - nas redes de afeto e comunitárias.

Mas de NADA adiantará usar máscara e álcool gel se a gente continuar LAVANDO as mãos frente ao descaso agravado pelo pensamento neoliberal que exalta a propriedade privada, encarcera nossos sonhos, esgota os recursos naturais e menospreza o bem-viver como um direito universal. 

Só existe um aparente paradoxo entre cuidar da economia ou das pessoas porque nos colocamos à serviço desta entidade escravagista chamada mercado financeiro, que concentra mais de 70% da riqueza mundial às custas da nossa mão de obra e da evasão (legal) de impostos. Não sei vocês, mas eu não tenho dúvidas de quem deve pagar a conta da crise: é preciso, sim, taxar as grandes fortunas. E, a partir daí, investir prioritariamente na saúde pública - e todos os demais serviços.

Em outras palavras, é dever de todes que têm acesso à informação COBRAR radicalmente a revitalização do Estado na sua missão de cuidar da sociedade. E isso precisa florescer no cerne de cada ser humano - especialmente nos do gênero masculino. A pandemia tem escancarado também esta desigualdade na gestão do cuidado: em todas as áreas, as mulheres estão na linha de frente.

Dentro de casa ou no atendimento público à saúde, a responsabilidade pelo cuidado sempre coube a nós - uma sobrecarga injusta que precisa ser reparada. Sobre esta desigualdade especificamente pretendo me debruçar numa próxima coluna. 

Para finalizar, convido quem chegou até este ponto da leitura a dar um primeiro passo, oferecendo a sua contribuição para que a reflexão sobre quem cuida e quem é cuidado se transforme em uma prática cotidiana e, principalmente, num debate público. O interesse no assunto não poderia ser mais nobre: garantir a continuidade da nossa própria espécie. 

Nanda Barreto é jornalista, instrutora de yoga, feminista y otras cositas más! Nas redes sociais, é @transitivaedireta. Na vida real, é poeta.

X