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Planeta

10/12/2019 08h00

A Magia dos Andes

Existe uma atração poderosa nas montanhas, vales e mananciais andinos, que provoca em mim um desejo insaciável de para lá retornar

Por Eliane Hauser

Nosso Bem Estar
Magico peru

A Magia dos Andes

À convite da Royal Travel, agência de viagens da  minha amiga Michele Fruet, assumi a responsabilidade de acompanhar grupos que desejem, não apenas conhecer lugares como o Peru, para fazer fotos e compras, mas também, e principalmente, para sentir a energia, conhecer a história de um povo com raízes antigas e, com muito orgulho de quem são. Nossas viagens são mergulhos, na história, no conhecimento, e no poder xamânico, dos quais o povo andino é pródigo.

Mascar as folhas de coca, e tomar o chá feito das folhas verdes, necessário para suportar as altitudes, não significa apenas um gesto físico e mecânico, é antes de tudo, reverenciar as forças da natureza e os deuses que lá são respeitados.

O Peru e parte da Bolívia, com suas referências e lembranças Incas e Pré Incas, possuem uma energia que, poderíamos chamar de cósmica.

Eu e meu grupo acabamos de voltar destes lugares, e quando fecho meus olhos ainda consigo sentir os perfumes e sabores, e me inebriar nas cores enlouquecedoras com que os peruanos e bolivianos são pródigos. Suas vestimentas, artesanatos, e em alguns lugares, as  moradias, são referência de alegria e cores.

A capital do Peru, Lima, com seus dez milhões de habitantes, trânsito caótico, Pacífico congelante, vida noturna, restaurantes, pubs e lugares para dançar a salsa, foi nossa primeira parada, e claro primeiro pisco sour da viagem. Lima é desértica, nunca chove, e raramente faz sol. O bairro que nos hospedou Mira Flores, é lindíssimo, porem todos os seus jardins, canteiros e praças precisam ser regados diariamente. Ainda bem que água não é problema, já que as geleiras das montanhas se encarregam do suprimento.

No tour da primeira tarde, nos deparamos com o sítio  arqueológico  a céu aberto, Huaca Pucllana, uma construção gigantesca, no centro da cidade, em Mira Flores, onde em meio às buzinas, sim peruanos usam muito a buzina de seus veículos, analisamos aquela obra gigantesca que os incas encontraram e preservaram, e que os espanhóis não conseguiram destruir.

O Complexo de San Francisco de Assis é um dos pontos turísticos obrigatórios para quem visita Lima. Independentemente da religião, conhecer o lugar é se deparar com um conjunto arquitetônico inigualável, que guarda obras de arte e uma fonte de história incrível.
O tour inicia pela igreja, com pé direito altíssimo, com altar e capelas lindíssimas. A fachada em estilo barroco é impressionante.  As obras de arte do período espanhol são interessantíssimas; feitas pelos nativos orientados pelos padres, trazem traços da cultura inca. Jesus  moreno, e na santa ceia, vemos um cão aos pés dos apóstolos, além de espigas de milho, e outros detalhes locais. A visita as catacumbas, antigamente usadas como cemitério, e que hoje  tem milhares de ossos em exposição assusta. O passeio é um tanto mórbido; o ambiente é escuro e pequeno, mas é tão singular e diferente que vale a pena conhecer.

O museu Larco é outro lugar digno de se visitar, com  maravilhas preservadas, flores em profusão, e um belíssimo jantar. 

Nossa próxima visita, ainda em Lima foi o museu Pachacámac,   a cidade sagrada de uma civilização pré-inca chamada Huari (ou Wari) e que servia de centro de adoração e peregrinação. Esta região já foi dominada por quatro diferentes povos e seu sítio arqueológico inclui 16 pirâmides, praças, palácios e templos piramidais. Pudemos sentir a energia dos templos do sol e da lua, numa uma meditação em grupo, e que nos tocou profundamente.

Deixamos a Capital e num voo rápido fomos para Puno, onde o destino esperado e ansiado, era o Lago Titicaca. Fomos recebidos pelos seus habitantes, os Uros, povo remanescente de uma civilização pré inca, que construiu e viveu em diversas ilhas flutuantes no meio do lago, para defenderem-se de ataques de outras tribos inimigas. Atualmente, existem mais de 40 dessas ilhas habitadas por pescadores e artesãos, e que ainda mantêm vivas as tradições originais. O material predominante, tanto para a base, como para as habitações e barcos, é a totora. Planta aquática muito abundante nas partes rasas do lago.

Lá tive a alegria de ser recebida pela mesma família, com a qual já me hospedara antes. A Elsa, nossa anfitriã que faz a mais saborosa tainha que se pode experimentar. A noite, com a temperatura quase em 0º, dormindo sobre as águas deste lago profundo e misterioso, e tivemos nosso primeiro rito de passagem. Muitas de nós  sentiram-se morrer e renascer. A altitude, energia, e balanço da ilha, fazem seus ajustes em nossa própria energia.

Este lago de águas profundas e misteriosas é considerado o berço da civilização pré-colombiana. Não seria surpresa falar sobre mitologia e mistérios dos antigos povos locais, independentemente da cidade ou local em que estamos. O fato é que o país inteiro esconde um pouco de sua história milenar em seus costumes, sítios arqueológicos, tradições e até na culinária. No Lago Titicaca não poderia ser diferente. Convivemos por um tempo, curto demais, com pessoas que têm em seus costumes a própria sabedoria ancestral. As crianças não veem televisão, o celular é usado apenas como telefone, e as casas onde moram, não possuem janelas, e nem um tipo de conforto; apenas cobertas quentinhas, afinal são usadas apenas para dormir. Todos  reúnem-se nos espaços em comum, ou estão sobre o lago pescando, conversando e trocando informações e conhecimentos em sua língua, o quéchua e aimará, que até para quem fala fluentemente o espanhol é bastante difícil entender. Eu aprendi uma palavra, “Ñaña” pronuncia-se “nhanha” que significa irmã, e que amo usar. Na manhã seguinte ver o sol nascer, e o seu reflexo nas águas profundas, é um espetáculo grandioso.

Saímos deste lugar, depois de algumas horas convivendo com os Uros, nos sentindo mais leves, e aprendendo a saborear o tempo presente, com mais profundidade.

E estamos prontas para a Isla Del Sol, no lado boliviano do lago. Segundo uma  lenda andina, o Deus Sol ordenou a seus filhos Manco Capac e Mama Ocllo a buscarem um local perfeito para o desenvolvimento de seu povo. A escolha teria sido  um local batizado de Isla del Sol, que foi habitada pelos antigos até a invasão dos europeus no século XVI.  Em frente, está Isla de La Luna, que parece namorar com esta ilha maior.

Em nosso grupo de jovens meninas, dos vinte e três aos setenta e dois anos não havia lugar para medo, hesitação, ou incompetência. Nossa bagagem sobe no lombo dos queridos burrinhos, e nós escalamos por trilhas milenares, gratas, embevecidas e energizadas.

A pousada nos recebe com o mesmo calor de outros lugares visitados. A proprietária Sonia, nos serve uma sopa divina, e nos, cansadas, logo vamos para nossos lindos apartamentos descansar. É surpreendente como a arquitetura e construção da pousada pode ser tão cuidada, e requintada. Tudo chega à ilha por água, e sobe nos pequenos burrinhos.

Despertamos às 4h, para ver a lua ir se despedindo e chamando  o sol, sobre as águas do Titicaca.

Nosso guia boliviano, um xamã muito doce, nos leva até a fonte da juventude, uma vertente que brota sem cessar, pelo menos a centenas de anos. E  guiadas por sua celebração, usamos a água para nos abençoar, e quem sabe, garantir alguns anos mais jovens? E tudo é tão lindo, a natureza é tão pródiga,  que temos vontade de parar o tempo, e nos determos ali só para contemplar.

Na volta um passeio por Copacabana, deitada as margens do Lago, com suas casas coloridas e a igreja de Nossa Senhora de Copacabana, padroeira da Bolívia, e que foi construída no ano de 1560, com sua arte sacra belíssima, e muitos vendedores de quinquilharias, na praça ao redor.

Rumamos para Cusco, mas antes uma breve parada em Pucará, e claro, todas compramos  “toritos”. Segundo a lenda, dois touros são necessários para unir e manter juntas duas pessoas que se amam. Todas as casas na região possuem dois touros sobre o telhado, eles conferem proteção e prosperidade para a família. Estes trabalhos de arte em cerâmica, são muito bonitos, e as cores dos bichos têm todo um significado: Verde traz prosperidade, vermelho o amor, azul a fidelidade, laranja a alegria. Etc. E, venham os toritos!!!

Cusco ( umbigo) é realmente o centro. A Plaza de Armas, com suas igrejas (construídas sobre templos milenares), casarios, negócios, restaurantes  e cafés nos chamava. Nos arredores o mercado, e o centro de compras, levam as mulheres à loucura. E claro, o melhor café, no Starbucks, ponto de parada obrigatório.

A cidade está assentada entre montanhas e tem o formato de um felino. A energia é muito forte. Nos sentimos seguras e confiantes passeando, tanto ao longo do dia como também a noite. Aliás voltamos com a sensação de que tanto no Perú como na isla boliviana, é relativamente seguro, quase como nas nossas cidades  interioranas. Os moradores demonstram ter muito afeto pelas “brasilianas” e adoram  conversar. E  como os negociantes peruanos em geral, adoram pechinchar. Nos divertimos muito nestas negociações, em que as vezes entravam três línguas diferentes.

Visitamos mais sítios arqueológicos,  onde além de ver a beleza das cidadelas, pudemos entender o amor daquele povo por suas raízes.

No centro da cidade, está o complexo  Koricancha, e em cima do templo inca, está a igreja de Santo Domingo, que nos é apresentada. Não tivemos muito  interesse  pela arquitetura hispânica, porém nos encantamos com a obra monumental do templo pré colombiano que fica sob a dita igreja, e que antes de ser saqueado, tinha suas paredes recobertas de ouro, e obras monumentais em seus jardins, também do mesmo metal. Imaginamos a praça e o templo, em todo seu esplendor, conduzidas pela fala macia de nosso guia encantador.

Poucos kms adiante, nos defrontamos com Sacsayhuaman, lindíssima e poderosa. Enfrentamos nossos medos, e adentramos  entre rochas, num túnel estreito e assustador, para entendermos os sistemas de armazenamento dos alimentos, usados com tanta propriedade pelos antigos moradores.

Descemos para o vale sagrado, com suas obras monumentais, terraços de cultivos, silos escavados nas montanhas, com sistema de refrigeração natural, através das janelas e o movimento dos ventos. O templo do sol nos faz pensar na capacidade de construir daquele povo, e seu conhecimento de matemática e engenharia.

Todas nós  subimos os duzentos e sessenta degraus, e chegamos ao alto, onde tivemos uma visão de quase 360º de perder o fôlego, e alimentar a alma.

Em Pisac, pequena cidade, com suas ruas estranhamente tortas, fomos levadas ao centro de produção e comercio de joias em prata. E mais delírios de prazer, com tantas peças lindas e de pureza absoluta.

Muito próximo de Pisac, ainda neste vale regado pelo rio Urubamba, chegamos em  Ollantaytambo, joia do vale. A noite passeamos e jantamos no centro, que é um retorno nos séculos, mas com um trânsito doido, com tuc tucs descendo e subindo ladeiras. Assistimos  a um espetáculo de danças folclóricas na praça, comemos as pizzas peruanas famosas, feitas em fornos à lenha, tomando a chicha murada, suco feito de milho vermelho, que bem gelada é muito saborosa.  Queríamos ficar lá para sempre.   Mas havia um trem no dia seguinte, para nos levar a Machu Picchu, que como eu dizia ao grupo, era cereja do bolo.

A viagem de trem partindo  da linda estação de Ollantaytambo, tendo o rio, e as montanhas nevadas como pano de fundo foi extasiante.  

Em Águas Calientes, mais surpresas para quem chega pela primeira vez, não existem carros, tudo vêm de trem, e na vila a tração é humana. E somente os ônibus do governo podem subir a montanha.    Para chegar ao hotel atravessa-se por um imenso mercado, onde se pode comprar de  tudo.

O nome da localidade deriva de uma fonte natural de origem vulcânica, e que era aproveitada para banhos  desde o tempo dos incas. Um canal subterrâneo emerge, e flui através das rochas, a altas temperaturas;  as águas sulfurosas e terapêuticas são conduzidas para  pequenas piscinas,  a cor  da  água  é  amarela, dando a impressão de  suja, mas é pelo teor de enxofre . As temperaturas das águas ficam entre 38º C e 46 °C, e para refrescar um jorro geladíssimo que dá vontade de gritar.

Esta pequena, porém movimentadíssima, vila  no sopé da montanha de Machu Picchu, regada pelo rio, com seus restaurantes alegres, comida farta e saborosa, nos relaxa e deixa prontas para o grande clímax da viagem. Por falar em relaxar, é um dos lugares com maior número de ofertas de massagens terapêuticas e relaxantes, por metro quadrado.

Subir a montanha por dois dias consecutivos, foi a prova de que todas nós estávamos determinadas, e prontas para qualquer desafio.A escalada da montanha até o pé da cidade perdida, feita em ônibus ecológico, é o primeiro deles. Motoristas experientes, mas que nos parecem insanos, sobem e descem a estradinha, que diríamos que não é feita de curvas, mas que são na verdade, curvas servindo de caminho. Sentar-se a frente, ao lado do motorista é uma das grandes emoções da viagem.

Chega-se ao alto, e começa a entrada ao parque com muita gente, turistas de todas as regiões do planeta, uma babel de sons e vozes. Quando os turistas têm sorte, o sol aparece, e a cidade pode ser vista em toda a sua magnificência. Como somos meninas afortunadas, ele esteve presente todos os dias, nos permitindo desfrutar de todo o esplendor da região.

Sentimos e apreciamos toda a força do lugar. Entre relógios de sol, espelhos de água, lugares de sacrifícios, janelas imponentes, lhamas amistosas, chinchilas curiosas, fomos percorrendo respeitosamente aqueles corredores, e entrando em salas que a centenas de anos abrigavam um povo incrível.

Apreciar, as belezas da cidade perdida, conhecer a história do Condor, do Puma e da Serpente, e alcançar a Porta do Sol, no segundo dia, depois de duas horas e meia subindo, e percorrendo a antiga trilha inca foi extasiante, e nos deixou plenas. Não nos cansamos, e nem sequer necessitamos de massagens terapêuticas na volta ao pueblo, embora as ofertas fossem tentadoras.

Todas as vivências, experiências e aprendizados certamente, nos mandou de volta para nossas vidas, com um novo  olhar. A troca que fizemos, levando o  nosso amor;  trazendo conhecimento, e muito mais respeito por lugares e pessoas, foram os itens  mais significativos desta deliciosa  aventura.

 

 

      

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