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Crescimento pessoal

27/09/2019 10h40

Psicologia Junguiana

Uma psicoterapia profunda em que ocorre um intenso processo dialético do qual o psicoterapeuta participa tanto quanto o paciente

Por Vinícius Ricardo Sallin

Pixabay
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Psicologia Junguiana

A psicologia junguiana ou psicologia analítica, também conhecida como psicologia profunda, foi criada pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875 - 1961), que pode ser considerado um dos maiores estudiosos da vida interior do homem. Desde jovem demonstrou grande talento, o que fez com que se tornasse um importante colaborador de Sigmund Freud. Entretanto, a publicação do seu livro Transformações e símbolos da libido (1912) foi o início de uma divergência entre eles e, com o lançamento de A psicologia do inconsciente (1917), Jung rompe radicalmente com a psicanálise freudiana que concebia o inconsciente como um depósito de experiências pessoais reprimidas de cunho sexual e com funções meramente compensatórias. Jung lança uma luz sobre o tema, mostrando que além do inconsciente pessoal, há o inconsciente coletivo. Este é formado por sentimentos, pensamentos e lembranças herdados e compartilhados pela humanidade e reside nos locais mais profundos da psique humana, similar aos instintos de caráter biológico, Ideia esta que ele foi buscar na comparação entre culturas diferentes que nunca tiveram contato, bem como em expressões artísticas de doentes mentais que reproduziam tramas e aspectos de civilizações antigas. Jung aprofundou-se em estudos das religiões orientais, filosofia, alquimia, astrologia, mitologia e, principalmente, no seu próprio processo de confronto com o inconsciente. “Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou”. C.G.Jung.  Ele também, fez estudos introdutórios e colaborou em clássicos como O Segredo da Flor de Ouro, I Ching e O livro Tibetanos dos Mortos, que lhe rendeu preconceituosamente o status de místico/religioso. No entanto, seu extenso trabalho, principalmente os dezoito volumes de suas obras completas, é um estudo científico, sistemático e empírico de uma psicologia profunda da psique humana.

Filosoficamente, a visão junguiana de inconsciente parte de uma base teleológica, ou seja, o inconsciente nos impulsiona para a finalidade de um objetivo/realização, que sua teoria chamaria de Self ou si-mesmo. Jung sustenta que a saúde mental depende de uma meta que compreende a busca do sentido da vida de forma que aja uma conexão com o sagrado (self). “Nosso intento é compreender a vida da melhor maneira possível tal como ela se manifesta na alma humana”. No desenvolvimento desta teoria outros termos foram introduzidos: complexo, sombra, persona, anima/animus, arquétipos, sincronicidade e individuação

Na técnica da analise ou psicoterapia junguiana, a individuação é o conceito central, por ser o objetivo primordial do processo terapêutico, por meio do qual a pessoa se torna “una” e quem realmente ela é. Enquanto processo, a individuação é a busca do sentido primordial da vida, é a integração na psique dos aspectos opostos contidos no inconsciente. Tem por base o autoconhecimento e o aprendizado necessário para lidar com os aspectos negativos da mesma forma como lidamos com os positivos. Neste sentido, é fundamental o reconhecimento de que quando suprimimos nossas tendências inconscientes intoleráveis, imorais ou pouco recomendáveis, estas ficam no escuro (sombra) de nossa psique e se manifestam através de projeções, defesas e temores, ou seja, quanto mais rechaçados, mais atormentadores se apresentam. No processo terapêutico a ideia é que, cada vez mais, estes aspectos sombrios se integrem e sejam conscientizados. A análise junguiana segue os mesmos preceitos das outras terapias, propõe o autoconhecimento, o resgate de um sentido de vida e a elaboração de conflitos, mas ela vai ser enfática na proposição do equilíbrio do mundo interno com o externo. Comumente os sonhos do paciente são o mais importante material para análise no setting terapêutico, o simbolismo e as associações conduzem o analista e o analisando à interpretação e compreensão de seus dilemas e ao distencionamento dos complexos. Dentro das propostas do trabalho está a busca de uma unidade psíquica, bem como a identificação daquilo que constitui um papel puramente social (persona) e da verdadeira essência, com o intuito de estar no mundo de forma mais integral, consciente, criativa e livre das armadilhas do ego.

O analista tem um papel ativo na análise, sendo um facilitador do aparecimento dos processos inconscientes do paciente. A análise junguiana necessariamente exige do terapeuta capacidade de empatia e disposição ao acolhimento, que resulta em confiança do analisando, para que este possa compartilhar suas dificuldades e segredos mais profundos. Nesse sentido, Jung deixou esse registro: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”. Jung foi o primeiro a levantar a questão da exigência de análise para o próprio analista/psicoterapeuta. Num contato tão estreito e complexo, o terapeuta deve estar em um grau de desenvolvimento do seu processo de individuação ao ponto de não ser levado pelos conteúdos do paciente, ou seja, dificilmente compreenderemos os dilemas da vida alheia se estes mesmos são tormentos dentro de nós. Na psicoterapia existe um convite para compartilhar um processo a dois, que em alguns momentos o analista e analisando estão em pé de igualdade e, em outros, estando um passo a frente, o psicoterapeuta conduz o paciente ao encontro de si mesmo. Assim, o paciente vai até onde a sua coragem e a coragem do analista permitem. Jung concebe a psicoterapia como um processo dialético do qual o psicoterapeuta participa tanto quanto o paciente e, na maioria das vezes o analisando só consegue obter segurança interior e êxito terapêutico na confiança de sua relação com o terapeuta, o que Jung chamou de transferência.

Há uma diversidade de técnicas e teorias psicoterápicas e seria no mínimo irresponsável qualificá-las como melhores ou piores, adequadas ou inadequadas; o que existe são profissionais mais ou menos preparados e psicoterapias mais efetivas para questões específicas. Por exemplo, para o tratamento do uso de drogas uma técnica será mais indicada que outra. O que se deve levar em conta é a capacidade de identificação do paciente com uma terapia específica e isto inclui a segurança que ele tem em relação ao profissional. Não existe uma receita para encontrar a terapia certa, muitos são os fatores que fazem o paciente investir no tratamento, muitas das vezes é preciso iniciar a psicoterapia para experimentar o ambiente, a técnica e a pessoa do psicoterapeuta. Para sentir-se a vontade e abrir-se é necessário estar em sintonia com o processo como um todo. Mesmo dentro de uma técnica ou teoria específica, a condução muda de terapeuta para terapeuta e algumas vezes só o tempo poderá confirmar se a escolha é a mais acertada.

 

 

Vinícius Ricardo Sallin é Psicólogo Junguiano

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