Bem-vindo ao Nosso Bem Estar!
Para acessar toda positividade de nosso conteúdo, escolha o portal mais próximo a você.

Família

25/07/2019 08h00

Quem escolhe?

A escolha da escola deve ser feita, antes de tudo, em conformidade com o trabalho educacional desenvolvido na família.

Por Tania Zagury

Pixabay
2

Quem escolhe?

A família vive uma crise de identidade. Embora seja bem grande o número de pessoas que criticam os pais, como se fossem eles os únicos culpados pelos atos inadequados dos filhos, nunca houve nas gerações anteriores pais tão preocupados com a democratização da relação. A hierarquia rígida que existia na família foi sendo gradualmente substituída por diálogo, respeito à individualidade, direito à privacidade, desejo de alcançar uma relação baseada no respeito mútuo e não no medo.

Assistimos, ano a ano, à luta dos pais para não repetirem o modelo inflexível que vigorou até a década de 60. Até então prevaleciam duas concepções: ou a criança era vista como um adulto em miniatura (o que gerava expectativas irreais sobre suas possibilidades: não se sujar, sentar direitinho, etc.) ou, ao contrário, como um ser incapaz de participar de decisões (era comum ouvir-se: criança não tem querer!). Qualquer que fosse a maneira, o caminho da criança era apenas um: obedecer sem contestar. Depois, chegou-se ao oposto: tem criança decidindo até o modelo de carro que o pai vai comprar ou se a família vai encomendar um irmãozinho a mais! Devido a tantas mudanças, muitas vezes os pais confundem ou ignoram seu verdadeiro papel. Em nome da igualdade, tem gente desesperada com a falta de limites dos filhos. A questão é: até onde vai o direito de as crianças decidirem sobre a própria vida e sobre a vida da família?

Ouvir as necessidades dos filhos e atender a elas é fundamental. Saber quais são seus desejos, preferências, expectativas e necessidades é importante. Mas é necessário que os pais estejam conscientes de suas responsabilidades. Por exemplo, quem decide que tipo de escola o filho deve frequentar, qual o modelo de educação a ser seguido, com que idade começar a ir ao colégio, se deve ou não faltar à escola porque está chovendo muito? Decisões desse teor devem tomar por matriz a análise cuidadosa do estágio de desenvolvimento da criança e não apenas o que ela gostaria de fazer. Nas primeiras séries (educação infantil e ensino fundamental), a escolha tem de ser feita pelos pais, porque a criança não tem ainda condição intelectual ou emocional, nem discernimento, para definir qual modelo de escola irá cursar - tradicional ou moderna, religiosa ou leiga, voltada para o conteúdo ou para a formação de habilidades.

Essa opção precisa ser feita com base em vários elementos. O mais importante (antes de considerar distância da residência, equipamentos, instalações confortáveis, etc.) deve ser a definição do tipo de educação que se deseja dar aos filhos. A escolha deve ser feita, antes de tudo, em conformidade com o trabalho educacional desenvolvido na família. É importante que não haja discrepância entre o que os pais ensinam e o que é trabalhado na escola. Assim, se eles acreditam que o mais importante é o desenvolvimento do raciocínio e da análise crítica, devem buscar uma instituição que priorize a discussão e a formação do pensamento divergente. Se, ao contrário, acham que o respeito à hierarquia e à autoridade e o domínio do conteúdo programático são os aspectos essenciais na educação, devem procurar escolas que tenham perfil mais tradicional do ponto de vista pedagógico. Em geral, o que a criança priorizaria? A escola onde o amigo preferido estuda, o prédio mais “maneiro” e outras coisas que nada têm a ver com uma formação de qualidade. Crianças e adolescentes buscam, na maior parte dos casos, o prazer, enquanto pais e professores têm metas educacionais, dirigem seu olhar para mais adiante.

O segundo aspecto essencial a ser considerado é a personalidade da criança. Como é nosso filho? É voraz e interessado em aprender ou só pensa em jogar futebol e videogame? Tem alta capacidade de concentração ou se distrai com facilidade? É motivado ou é preciso estar sempre criando situações para que se interesse por qualquer coisa? Desiste com facilidade dos projetos em que encontra dificuldade ou é obstinado? É introvertido ou despachado? Cada uma dessas perguntas (e muitas outras) deve ser considerada. A partir de 12 anos mais ou menos, porém, se precisamos transferir a criança para outro estabelecimento de ensino, ela já terá condições de trocar ideias de forma mais objetiva. Aí, sim, será positivo ouví-la para avaliar o que deseja.

É bom lembrar que o imediatismo do adolescente pode conduzí-lo a aspirações nem sempre mais indicadas quando se trata de estudar. De todo modo, ouvir os filhos, em qualquer idade, é sempre bom e necessário. Considerar de fato o que disseram também. A decisão final, no entanto, deve ser dos pais. A família precisa reassumir sem medo o papel de principal agência educadora das novas gerações. A escolha da escola é uma decisão dos pais, ainda que baseada nos desejos e nas características dos filhos.

Tania Zagury é filósofa, mestre em educação, autora de “Educar sem Culpa” e “Limites sem Trauma”, entre outros.

 

X