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Crescimento pessoal

11/06/2019 08h00

Sozinhas e bem acompanhadas

De mala com rodinhas ou mochila nas costas, conheça a história de mulheres que preferem pegar a estrada com total autonomia e liberdade, sem ninguém a tiracolo

Por Nanda Barreto

Nosso Bem Estar
Jane trilha fitz roy patagonia argentina

Sozinhas e bem acompanhadas

Mas você vai sozinha? Por que não convida suas amigas? Vai deixar seu namorado aqui? E se acontecer alguma coisa? A publicitária gaúcha Denise Tonin, 52, é uma das zilhões de mulheres que cans ou de ouvir este tipo de questionamento. "Era como se eu fosse uma coitadinha por escolher andar só".

No entanto, diferente do que os indagadores supunham, Denise foi adiante na paixão por viajar e conseguiu fazer do turismo um ganha-pão bem-sucedido. Radicada no Rio de Janeiro há 20 anos, em 2015 ela deixou para trás a carreira trilhada na iniciativa privada para se dedicar exclusivamente ao projeto Viajante Solo (viajantesolo.com.br), uma plataforma digital que auxilia outras mulheres a ganharem o mundo sozinhas.

"A ideia de fazer um blog surgiu em 2013, quando eu estava no Canadá. Como a maioria das mulheres, eu também tinha medo de me aventurar. Ler sobre o tema e ver outros exemplos ajudou bastante. Foi uma maneira de incentivar outras a fazerem o mesmo e também de responder perguntas irritantes que sempre me faziam", conta a empreendedora, que participou desta reportagem durante um período sabático pela Europa.

Cursos on-line para organizar roteiros por conta própria, viagens internacionais em grupo eassessoria personalizada são alguns dos serviços que a Denise oferece. "Quando viajamos sozinhas, temos a liberdade total nas escolhas! Também gosto de ressaltar a sensação de realização e de se sentir – ou em alguns casos se descobrir -  totalmente capaz de organizar uma viagem do seu jeito, administrar os contratempos, se adaptar às situações que virão e flexibilizar quando for preciso".

Nada no bolso ou nas mãos

testeO Velho Mundo também foi o destino escolhido em 2016 pela farmacêutica Izabela Netto Pereira, 31, para uma viagem com passagem só de ida. De lá para cá, ela esteve em dezenas de países da Europa e África - e planeja viver autodescobertas pela Ásia. "Minha avó já viajava muito numa época em que não era comum uma mulher viajar sozinha. Então, desde pequena alimentei este sonho que estou realizando agora. Descobri que amo viajar comigo!", celebra. 

Com um perfil que ela própria define como viajera roots, Izabela saiu do Brasil com o intuito de experimentar a sociedade-alternativa-rural, digamos assim. "Desde o início meu projeto era visitar comunidades de permacultura e ecovilas. Então eu viajo fazendo voluntariado, trocando por alimentação e alojamento, além de outros breves trabalhos remunerados. No final das contas, eu ganho bem pouco e consumo quase nada", contabiliza.

Caminhando contra o vento

Nas redes sociais, ela é conhecida como Andante dos ventos. Pudera: a brasiliense Fernanda Pacini Valls, 36, gosta de ganhar chão. Durante a entrevista para esta matéria, ela estava desbravando a Patagônia argentina há meses. "Esta viagem tem um bocado de razões pessoais. Já pensava em sair da minha cidade havia bastante tempo, mas não sabia exatamente para onde e fazer o quê. Até que me deparei com a morte da minha vó e entendi que o momento era este".
Destino inexorável do ser humano, a morte, afinal, também serve para nos lembrar que existe vida e que ela pode acabar aqualquer momento. "Vir para cá é como uma busca de encontro comigo, de amor próprio. De aprender a viver o presente. Gosto de conhecer lugares, pessoas, culturas, vivências, experiências, sair da zona de conforto, valorizar minha história pessoal e de cada pessoa", aprofunda Fernanda, que é atriz, diretora teatral e produtora cultural com 9 países e 1
6 estados brasileiros na mochila.


Fernanda gosta de buscar a essência e cultura de cada lugar por onde passa. "Já fiz diferentes viagens. Não me vejo deuma forma única. Gosto, por exemplo, de caminhar nas ruas sem direção, para ver casas, bares, lojas menos turísticas. Como viajante, tenho buscado lugares onde possa caminhar, fazer trekking, estar em contato com a natureza. Mas, numa outra via, sempre busco lugares ou eventos mais culturais. Hoje em dia tenho adorado escutar e ver as lutas políticas de cada cidade, estado, país. Isso tem sido um encontro muito especial. Principalmente por estar na América Latina. Eu gosto da ideia de pensar em mim como uma peregrina, numa busca interna. Quanto mais caminho, quanto mais conheço, mais pra dentro vou.", filosofa Fernanda.

 

O peito cheio de amores

As buscas pessoais também costumam ser o principal roteiro para astróloga e terapeuta corporal Jane Beatriz Mousquer, 50. "Viajar para mim é uma necessidade. Adoro ir de ônibus, ver cenas pela janela, situações que não precisam ser explicadas. Tenho sede do mundo. Gosto de longas caminhadas com a minha mochila e trilhas meditativas. Muita gente não entende quando vê uma mulher sozinha e oferece companhia. É um pouco chato. Então, com paciência e gentileza, digo que realmente prefiro estar só. Sou uma ótima companhia!", diverte-se.

Peregrina (literalmente) de carteirinha, Jane integra a Associação dos Amigos do Caminho de Santiago de Compostela do Rio Grande do Sul (acasargs.com.br), entidade que oferece informações e auxilia interessados em conhecer esse destino. "Eu sou uma viajante silenciosa, prefiro estar sozinha. Não é que eu não seja uma pessoa sociável, apenas gosto da liberdade de me entregar ao que está acontecendo, sem ter que combinar horários e compromissos com ninguém".

Eu vou, por que não?

A pedagoga Janah Leite, 34, não viaja sozinha mas sua experiência pode ser inspiradora para muitas mulheres. Desde que tornou-se mãe, ela decidiu que iria apresentar o mundo para Maria Eduarda, sua filha, hoje com 11 anos. "Acredito que criar nossos filhos perto da natureza, viajando, possibilita uma aprendizagem rica, pois existem perrengues e os pequenos já vivenciando isso, aprendem que temos que tomar decisões, criar hábitos para economizar e ser menos consumista. Nós viajamos no intuito de agregar conhecimento e conscientização no cuidado com o meio ambiente", destaca Janah.

Moradoras de São José dos Campos (SP), as duas já foram juntas para mais de 10 estados e 4 países. Das maravilhas vividas na estrada, veio a vontade de compartilhar a experiência com mais gente. Daí nasceu o site Mãe e Filha Trips (maeefilhatrips.com.br) com dicas e relatos de viagens. "A página nasceu com a intenção de eternizar os momentos vividos com minha filha, como um diário 

para que possamos ler juntas ou com nossos netos e tataranetos, no futuro. Ter um lugar onde possamos buscar informações e rirmos novamente. Também de promover conhecimento para mulheres que queiram viajar com seu filho ou sozinha", explica.

Atualmente, Janah se prepara para uma transição profissional. Quer se afastar do serviço público e focar sua criatividade no empreendimento digital. "Hoje o site virou uma comunidade colaborativa de informações úteis para o empoderamento no nicho de viagem e qualidade de vida. A verdade é que cansei de viajar apenas nas férias e feriados, decidi que a vida nômade é mais apropriada para dar conta dos meus sonhos. É um planejamento que faço há quatro anos. É mais demorado porque preciso garantir as necessidades da minha filha. É preciso bastante coragem e responsabilidade", ensina.

Sempre interessada em se conectar com a cultura local de forma colaborativa, Janah evita rotas turísticas e passeios com guias. "Claro que gosto de passeios, mas não apenas isso, gosto de ver mais além e mostrar para minha filha essa visão, para ela crescer com menos preconceito e menos futilidades".


Eu quero seguir vivendo

Numa sociedade em que o machismo predomina, a segurança e integridade física é uma preocupação inata às mulheres. Viajando, não é diferente. Na experiência de Izabela, a solidariedade feminina é uma marca na estrada. "As mulheres se ajudam muito, trocam dicas, se oferecem como companhia. A gente tem que estar sempre ligada em tudo, mas sem deixar o medo nos frear", salienta.

Embora tenha o espírito aventureiro, seja adepta de caronas  e serviços de hospedagem gratuitos, como o couchsurfing, Izabela conta que se mantém alerta à perigos pelo fato de ser mulher. "Infelizmente a violência de gênero é uma realidade e precisamos lidar com isso. Em alguns lugares, eu cuido bastante a roupa que eu uso, evitando decotes e roupas justas. Vivi choques culturais nesse sentido e foi bem difícil. Mas eu não quero deixar de fazer nada por ser mulher. Ao contrário, eu quero provar que, sim, nós mulheres podemos tudo!"

Fernanda também viveu percalços nesse sentido. "Certa vez, em Barcelona, acompanhei um senhor de idade até sua casa, lhe dando o braço pela sua dificuldade de caminhar e no fim ele tentou me beijar, escapei e ele deu um tapa na minha bunda! Na Itália, passei por uma revista coletiva e um dos policiais avaliou o meu corpo para confirmar que eu era brasileira. Essas coisas me deixaram mais alerta para determinadas situações", lamenta.

Viajando com a filha, o cuidado é redobrado: "Precisamos estar atentas até dentro das nossas casas, pois os principais assediadores são parentes e amigos próximos. Infelizmente, isso são dados e não a minha opinião. Eu procuro ficar em quartos individuais, couchsurfing apenas de mulheres, quarto coletivo apenas de mulheres. Não existe lugar seguro para mulheres, não tem como eu falar: olha vai para tal lugar que é mais seguro para mulheres, não existe. Mas temos que ir, pois não podemos deixar o medo tomar conta, não podemos deixar de viver", sustenta.

Os olhos cheios de cores

Com a bagagem de quem já passou por mais de 300 cidades no mundo, Denise Tonin acumula sugestões para quem está pensando em dar o primeiro passo.

"Temos que considerar que nem sempre a primeira viagem solo é maravilhosa, porque pode ser uma experiência bastante diferente do que a pessoa está acostumada e isso pode causar estranheza. Então, minha dica é: comece devagar para ver como você se sente. Experimente uma viagem curta, de poucos dias. Isso vai dar uma ideia de como você vai se sentir e, se não gostar mesmo, poderá voltar mais rápido", assinala.

 

Na avaliação de Jane, viajar sozinha é um convite ao autoconhecimento. "Todo mundo em algum momento deveriaexperimentar viajar consigo e descobrir se pode ou não considerar-se uma boa companhia. Experimentar a solidão fora da sua zona de conforto é fundamental. A coisa mais linda que a gente pode encontrar numa viagem solitária são novidades sobre nós mesmos", sugere. Denise compartilha desta opinião. "Viajar sozinha não é, obrigatoriamente, bom para todas as pessoas e não há nenhum problema em não gostar. Mas acho que as pessoas deveriam ao menos experimentar uma vez".

 

Nanda Barreto é jornalista, instrutora de yoga e adora mochilar sem lenço e sem documento

 

 

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