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Bem-estar

07/05/2019 08h00

O perigo que vem das telinhas

Entenda por que os filhos de fundadores de gigantes da tecnologia como Google, Apple e Facebook são proibidos de utilizar smartphones e tablets durante a infância

Por Filipe Marcel

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O perigo que vem das telinhas

Pode até soar estranho que Bill Gates, fundador da Microsoft, tenha limitado o acesso a uma tecnologia que ele mesmo ajudou a criar. Seus filhos Phoebe, Jennifer e Rory, hoje com 16, 19 e 22 anos, passaram toda a infância e parte da adolescência sem telefone celular e tablet. Atualmente, os aparelhos já estão liberados, exceto durante as refeições e próximo do horário de dormir.

O mesmo acontece na casa do CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, que promete manter seus dois filhos, August, hoje com 1, e Maxima, de 3 anos, longe das telinhas, até que ambos tenham condições para absorver a grande quantidade de informação compartilhada nas redes que, ironicamente, ele também ajudou a formar. A mesma restrição aconteceu na casa de Steve Jobs (1955-2011), fundador da Apple, enquanto seus filhos ainda eram pequenos. Todos foram impedidos de utilizar o iPad, uma das principais criações de Jobs.

Todo esse controle vindo dos pais, no entanto, é algo muito diferente do que estamos acostumados a ver, com uma quantidade cada vez maior de bebês, crianças e adolescentes utilizando esses dispositivos sem qualquer restrição de tempo ou limites de espaço. Tornou-se comum vermos smartphones e tablets nas mãos dos pequenos durante as refeições, servindo de distração nos momentos que deveriam ser aproveitados para interagir com a família.

Pesquisadores de diferentes universidades norte-americanas observaram que um período sem acesso a aparelhos eletrônicos pode melhorar o reconhecimento de emoções pelas crianças. Isso porque diversos estudos têm mostrado que a presença exagerada em redes sociais, por exemplo, pode aumentar o risco de desenvolver depressão. O mesmo vale para os joguinhos. Acionistas da Apple chegaram até a escrever uma carta aberta compartilhando a preocupação que tinham com o uso desses dispositivos, especialmente pelas crianças, enfatizando que existe uma clara necessidade de oferecer aos pais mais oportunidades e ferramentas para que assegurem que os jovens estejam usando os produtos da melhor maneira possível.

Discursos à parte, os filhos dos criadores do Vale do Silício, onde estão instaladas as principais empresas que produzem essas tecnologias altamente viciantes, parecem ser os únicos que estão a salvo dos produtos que seus pais criaram. Enquanto isso, a maioria das pessoas sofre com a falta de sono, depressão e enfrentam, até mesmo, casos de suicídios dentro da família, atribuídos ao uso excessivo desses aparelhos.

Já deu o seu like hoje?

Na guerra por audiência, quem perde somos nós. A cultura de “curta o meu vídeo”, e “me siga no Instagram” vem sendo passada sem filtro também para as crianças. Enquanto cresce a quantidade de “likes” nos canais e perfis pessoais, empresas dos mais diversos segmentos aproveitam a grande onda para se aproximar desse público segmentado. De acordo com um levantamento da YOUPIX, 68% das empresas já consideram o marketing de influência como algo estratégico para seu negócio. 69% delas entendem que o chamado “influenciador” traz resultados diferentes do que qualquer outro tipo de comunicação. Essa febre causada pela monetização dos canais tem gerado muitos ganhos para quem produz esses conteúdos, além de retornos efetivos para as empresas que investem nesses meios para promover seus produtos, ajudando a reforçar seu posicionamento. Isso sem contar as próprias plataformas, que são as que mais faturam. Elas possuem relatórios detalhados sobre o tipo de conteúdo mais visto, sugerem novidades aos usuários e garantem, assim, a lucratividade a um custo cada vez mais alto para a saúde física e mental de adultos e crianças.

Luz no fim da tela

A pesquisa “Offline: Os Jovens e o Abandono das Redes Sociais”, divulgada no início do ano, indica que os adolescentes já cogitam sair do Facebook e cancelar sua conta no Instagram. Cerca de 40% dos usuários entrevistados deixaram ao menos uma rede social em 2018. 59% demonstraram o desejo de excluir seus perfis no Facebook em algum momento. O mesmo movimento acontece com uma parte dos influenciadores, que passaram a defender mais qualidade em detrimento da quantidade de novos seguidores, postando conteúdo realmente informativo em suas redes e utilizando aplicativos que os impedem de acompanhar a quantidade de novos seguidores. O cenário pode até parecer favorável, já que também mostra que o uso que se faz dos smartphones é uma questão, cada vez mais, relevante para os jovens. Diante dos últimos escândalos de uso indevido de dados pelas empresas, enxurrada de fake news e o excesso de propagandas enganosas, fazem com que uma parcela crescente de jovens reveja o peso que a internet exerce de fato em suas vidas.

A desintoxicação digital está em alta este ano. Não apenas pelos estudos divulgados por consultorias de tendências, como também pelas propagandas de empresas de tecnologia, como Motorola e Vivo, que começam a incentivar o consumidor a parar de usar a internet, celular e TV para viverem mais experiências fora da tela. A Infobase Interativa reuniu diversas pesquisas sobre os hábitos de consumo digital do jovem, que parece estar cada vez mais atento aos problemas causados pelo uso abusivo das redes, entre eles falta de produtividade e atenção, ansiedade, depressão, queda de autoestima, entre outros.

Os resultados mostraram que 35% dos jovens acreditam que as redes sociais trazem muita negatividade. Além disso, 18% dos entrevistados acreditam que elas ainda causam uma pressão social desnecessária. No ranking geral, o Instagram aparece como a pior rede social para a autoestima. 72% das pessoas afirmam que as redes sociais diminuem a concentração e 68% admitem que plataformas como Facebook, Instagram e Snapchat, às vezes, fazem com que elas se sintam ansiosas, tristes e depressivas. São os próprios jovens que indicam algumas saídas para combater esse tsunami e começam a mandar recados às plataformas, inclusive para que passem, por exemplo, a sinalizar as imagens manipuladas digitalmente. Ações como essa mostram a importância da colaboração de todos para um uso mais saudável das redes sociais, garantindo uma experiência online positiva e reduzindo, por conseguinte, parte dos seus impactos negativos que elas têm gerado ao mostrar uma visão distorcida do mundo.

Em busca do tempo perdido

Novos distúrbios como o FOMO (Fear Of Missing Out) – uma sensação parecida com a abstinência de drogas, quando a pessoa não consegue acessar o que está acontecendo, naquele exato momento, na Internet – tem preocupado as autoridades em saúde. Com uma média diária de 3h39 online, o Brasil aparece em segundo lugar no ranking de tempo gasto nas redes sociais, perdendo somente para Filipinas. Somente no último ano, foram registrados 8 milhões de novos usuários brasileiros em redes sociais, um aumento de 7% em relação a 2017. Os números são do relatório Digital in 2018, do site We Are Social.

Por isso, para ajudar as novas gerações, devemos antes encorajar os pais a mudarem os seus hábitos. O número de escolas sem tablets e computadores, onde o celular é proibido em contrato tem crescido No Vale do Silício. No Waldorf of Peninsula, uma dessas escolas particulares - onde são educados os filhos de funcionários da Apple, Google e outras empresas de tecnologia - as telas só entram quando eles chegam ao ensino médio. "Se você coloca uma tela diante de uma criança pequena, você limita suas habilidades motoras, sua tendência a se expandir, sua capacidade de concentração" afirmou Pierre Laurent, pai de três filhos, engenheiro de computação na Microsoft, em entrevista ao repórter Pablo Gimón, do jornal El País.

A reportagem faz parte da série “Crescer Conectados” e reúne uma série de artigos que exploram a vida de crianças e adolescentes em um mundo digital. O conteúdo reflete o que já sabemos: os adultos, que melhor entendem a tecnologia dos celulares e dos aplicativos, querem que seus filhos se afastem das telas, uma vez que os benefícios delas na educação infantil são limitados, enquanto o risco de dependência é alto. "Na escala entre doces e crack, o uso excessivo de telas está mais próximo do crack", emendou Chris Anderson, ex-diretor da revista Wired, considerada a bíblia da cultura digital, à reportagem.

A matéria ainda destaca o resultado de um estudo publicado em janeiro deste ano na revista médica JAMA Pediatrics. A pesquisa revelou que um tempo maior diante da tela, aos dois e três anos de idade, está associado com atrasos das crianças em atingir marcos do desenvolvimento dois anos depois. “A Academia de Pediatras dos Estados Unidos publicou algumas recomendações em 2016: evitar o uso de telas para crianças menores de 18 meses; apenas conteúdo de qualidade e visualizações na companhia de pais, para crianças entre 18 e 24 meses; uma hora por dia de conteúdo de qualidade para crianças entre dois e cinco anos de idade; e, a partir dos seis anos, limites coerentes no tempo de uso e conteúdo”, descreve Guimón.

Uma pesquisa da Common Sense Media comprovou que 98% dos domicílios com filhos nos EUA possuem celulares, ante 52% em 2011. “Quando a tecnologia se generalizou, o problema foi o contrário: as famílias com elevado poder aquisitivo tiveram mais facilidade para impedir que seus filhos passassem o dia na frente de celulares. Enquanto os filhos das elites do Vale do Silício são criados entre lousas e brinquedos de madeira, os das classes baixa e média crescem colados em telas”, assinalou.

Game over

Em última análise, todos concordam que ainda cabe à família dar o melhor exemplo. É o que também orienta o FOSI (Family Online Safety Institute), organização, com sede nos Estados Unidos, responsável por difundir boas práticas relacionadas ao mundo digital. No final de março, a entidade divulgou as principais tendências e estatísticas de sua mais recente pesquisa, a Online Safety Across the Generations (Segurança Online Através das Gerações, na tradução livre). O relatório entrevistou milhares de pais sobre segurança online e as preocupações e benefícios de usar a tecnologia com sua família.

A maior parte dos pais de crianças de 2 a 17 anos relatou que a tecnologia torna as coisas, aparentemente, mais fáceis. Isso porque a tecnologia ajuda nos deveres de casa, mantém as crianças entretidas e aumenta o acesso à informação. No entanto, 28% deles disseram que a tecnologia dificulta o seu trabalho de educar. Mesmo com isso, os pais ainda acreditam nos efeitos positivos do uso da internet na vida de seus filhos e observam, apenas, alguns impactos negativos, como baixas nos níveis de condicionamento físico e problemas de atenção.

O conteúdo é a grande preocupação que os pais têm na era digital. A maioria se sente preocupado com as coisas que o filho vê ou ouve quando está online. Outra grande questão é a quantidade de tempo que as crianças passam conectadas. Preocupações a parte, todos os entrevistados concordam que é importante educar melhor para que seus filhos possam se beneficiar ao estarem online.

O Brasil ainda tem uma das maiores populações online do mundo, com mais de 126 milhões de pessoas conectadas à Internet, segundo o IBGE. Destes, cerca de 25 milhões são crianças e adolescentes. Apesar de ainda não podermos medir os impactos no crescimento de toda uma geração que passa os seus dias com os olhos colados na telinha, já sabemos que o mau uso desses recursos causa efeitos negativos sobre a mente e o corpo dos seus usuários. Não precisa ser nenhum Bill Gates para saber que, quando o hábito vira vício, é preciso cuidar para que o consumo dessa tecnologia, desenhada justamente para caber na palma da mão, não cause maiores danos. Por isso, impedir o consumo exagerado, mesmo na dúvida, é sinal de prudência. O cientista Albert Einstein, que faleceu na década de 50, já dizia na época: “se tornou aparentemente óbvio que nossa tecnologia excedeu nossa humanidade”. Cuidemos, então, para que o óbvio não seja aceito como algo natural.

 

SINTOMAS DE VÍCIO TECNOLÓGICO

 LEIA COM ATENÇÃO E VEJA SE VOCÊ JÁ TEM ALGUNS DELES.

1 Preocupação constante com o que acontece na internet quando está offline.

2 Necessidade contínua de utilizar a web como forma de obter excitação.

3 Irritabilidade quando tenta reduzir o tempo de uso.

4 Utilização da internet como forma de fugir de problemas ou aliviar sentimentos de impotência, culpa, ansiedade ou depressão.

5 Mentir para encobrir a extensão do envolvimento com as atividades on-line.

6 Diminuição ou piora do contato social com amigos e familiares.

7 Falta de interesse em atividades fora da rede.

8 Comprometimento das atividades profissionais e acadêmicas, como perda do emprego ou não ser aprovado na escola.

9 Lesões nas articulações dos dedos causadas pela intensa digitação.

IMPORTANTE - Um teste para medir a dependência da internet pode ser realizado no site www.dependenciadeinternet.com.br, mantido pelo Hospital das Clínicas de São Paulo.

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