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Saúde Integral

29/01/2019 20h00

A arte como ferramenta de inclusão

A arte é uma linguagem universal, que possibilita o desenvolvimento motor, intelectual, o senso crítico, e permite expressar ideias e sentimentos.

Por Andriws Porto Alegre, Laís Rodrigues Gerzson, Carla Skilhan de Almeida

Pixabay
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Arte para todos

A arte como ferramenta de inclusão começou de fato no Brasil por volta de 1980, quando surgiram os movimentos de arte e educação enfatizando não somente a prática artística, mas também a reflexão sobre o ensino das artes propriamente dito. Esses movimentos buscavam o reconhecimento da arte como conteúdo escolar, sob o fundamento de que essa disciplina tem seus próprios objetivos e engloba fatores necessários à aprendizagem, como o pensamento artístico, a consciência estética, a sensibilidade, a consciência corporal e a motricidade.

Somente em 1996 a arte passou a ser obrigatória no currículo escolar, inclusive abrindo a possibilidade para se tornar uma das ferramentas como fonte para a educação inclusiva. No entanto, esta continua sendo uma tarefa árdua, pois as políticas públicas e ações que promovem a arte e a inclusão, infelizmente, ainda são muito precárias no ambiente escolar. Além disso, os professores – muitas vezes com uma formação inadequada – não conseguem contribuir na promoção da inclusão, seja no universo das artes, seja nas demais disciplinas.

Esse descaso por parte do Estado vai contra a legislação relativa à educação e à inclusão, principalmente a Constituição Federal de 1988, que assim dispõe em seu art. 205: “A educação é direito de todos e dever do Estado e da Família”. E no que diz respeito à inclusão de pessoas com deficiência e necessidades educativas especiais, o art. 208 da Lei Maior prevê o seguinte: “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino”.

Embora as normas constitucionais acima referidas não citem a arte como parte do processo de atribuição de significados, conhecimento e promovedora de interação social, é de suma importância reconhecer essa relação que ela possui com a inclusão, evidenciando sua relevância para esse processo. A arte é uma linguagem universal, que possibilita o desenvolvimento motor, intelectual, o senso crítico, e permite expressar ideias e sentimentos. As práticas artísticas são benéficas a qualquer indivíduo, sobretudo àqueles que possuem alguma deficiência ou limitação. Portanto, não há nada mais inclusivo que a arte, e por essa razão ela deve ser abraçada por todos que acreditam em incorporar esses seres de grande luz. A fotografia, a pintura, a serigrafia, a escultura, a produção áudio-visual e a dança são alicerces para promover a inclusão. Aliás, devem ser vistas como “FIOS CONDUTORES” para outras disciplinas.

Há na web diversos blogs e projetos artísticos disponíveis (Cadeira Voadora, Tudo bem ser diferente, Elyseu na tela – uma escola inclusiva, Eu sou mais eu, Projeto Borboletas, Instituto Olhar Inclusivo, Lentes Inclusivas, Centro de Atendimento ao Deficiente de Itajubá (CAIDI), Turma da Febeca, Turma da Mônica, Era uma vez um Conto de Fadas Inclusivo, Revista em quadrinho Sesinho, etc.), realizados tanto por pessoas ligadas à educação, à arte e à inclusão, quanto por pessoas que não são profissionais dessas respectivas áreas, mas que sabem o valor e o significado do verbo “INCLUIR”. Esse olhar tem como papel uma visão de empatia, de atitude e resistência, sentimentos estes que parecem “fora de moda” na nossa sociedade atual.

É possível fazer uma reflexão de que basta haver a iniciativa por parte de quem quer promover a inserção dessas pessoas especiais, colocando em prática sugestões para esse fim (adaptação de instrumentos, técnicas e metodologias, etc.). Além disso, tão importante quanto pôr em prática é realizar a produção de conhecimentos sobre o ensino das artes como forma de integração, construindo assim uma rede de ideias sobre iniciativas que deram certo. Não podemos esperar uma iniciativa do poder público para que isso aconteça. É necessário “AÇÃO” por parte da sociedade.

O desafio que faço a você é: disponha-se a conhecer, aprender e entender as diferenças, sejam elas físicas, culturais, sociais ou intelectuais, pois só assim você estará contribuindo para que esse indivíduo possa ser inserido e respeitado. Eu e você somos diferentes. Que tal nos permitirmos a conviver com as diferenças, em vez de viver apenas em um só padrão estabelecido?

 

Andriws é Pedagogo e Especialista em Motricidade Infantil - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil

Laís  é Fisioterapeuta, Doutoranda em Saúde da Criança e do Adolescente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil.

Carla  é Fisioterapeuta, Doutora em Ciência do Movimento Humano, Docente do Curso de Fisioterapia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil

 

A arte como ferramenta de inclusão - Parte II

Entende-se como educação inclusiva o atendimento às pessoas com necessidades especiais dentro de uma escola regular, de forma que a diversidade esteja inserida na aprendizagem, promovendo-se a interação entre todos que frequentam o espaço escolar.

A arte como ferramenta da educação inclusiva teve início na década de 1990 com a Declaração de Salamanca – Conferência Mundial de Educação Especial em Salamanca, Espanha – que estabeleceu "Regras Padrões sobre Equalização de Oportunidades para Pessoas com Deficiências".

Atualmente no Brasil a Constituição Federal (art.3º, IV, e art. 205) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96, art. 59) reforçam a exigência de atendimento inclusivo às pessoas com deficiência e necessidades educativas, estabelecendo currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específica para atender esse público. No entanto, professores de artes têm dificuldade de praticar a inclusão em suas aulas, pois, muitas vezes, não possuem uma formação adequada para promover essa inclusão, tanto no ensino de artes quanto em qualquer outra disciplina.

Além disso, as políticas públicas de inclusão e as ações que promovem a arte – que deveríamos observar em todas as escolas de ensino básico do nosso país – infelizmente ainda são muito precárias, sem contar que muitas escolas (ou a maioria delas) são sucateadas e não possuem espaços nem ferramentas adequadas para a promoção de uma educação inclusiva, sobretudo no que diz respeito às artes.

Tendo em vista que a inclusão é uma questão de direitos, este artigo apresenta alguns projetos e blogs que podem e devem servir de exemplos e estímulos àqueles educadores que desejam conhecer novas estratégias e aprofundar seus estudos no que se refere a esse tema tão importante.

Ao pesquisar na internet “arte e inclusão”, é possível encontrar alguns sites e blogs que abordam e aplicam este conceito de Arte e Inclusão exemplarmente, e se destacam pela beleza dos trabalhos realizados. O blog “A Cadeira Voadora, idealizado pela professora Laura Martins, formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais e pós-graduada em Revisão de Textos pela PUC Minas, foi criado como um espaço de expressão, um compartilhamento de experiências, e para servir de estímulo para outras pessoas com deficiência física. Embora o blog não trate de arte e inclusão diretamente, nele é possível encontrar relatos de parcerias com projetos que abordam essa temática. Laura é deficiente física por conta de uma mielite transversa, que contraiu aos cinco anos e meio de idade. Link: http://cadeiravoadora.com.br/fotografia-e-inclusao/

O blog “Tudo bem ser diferente”, de Belo Horizonte/MG, foi criado por Marta Alencar, que é psicóloga e fotógrafa, credenciada pelo “Special Kids”. Ela atende crianças com deficiência e seus familiares. No referido blog há o link para o ambiente virtual “Alta Estima”, e ainda há uma personagem muito interessante: “Tina, a deslocada”. O ambiente virtual e a personagem foram criados por Marta com o objetivo de “[...] sensibilizar, gerar empatia e ajudar a mudar o sentimento em relação às pessoas com deficiência [...]”. A criadora do Projeto “Alta estima” relata o seguinte: “[...] Com a fotografia encontrei uma linguagem expressiva que me faz estar mais próxima das pessoas e de suas emoções, o que tem enriquecido meu trabalho como psicóloga dando passo a continuar com minha vocação de ajuda as pessoas. [...] valorizar as diferenças: o que vale é o jeito de cada um ser. Busca-se ver a beleza para além da forma física, ou seja, o belo não é traduzido apenas pelos padrões estabelecidos pela sociedade. Está no olhar, na ternura, na sensualidade, na força, na expressão, no jeito único.” Links: http://www.altaestima.org; https://tudobemserdiferente.wordpress.com/2013/08/12/alta-estima-fotografia-inclusiva-a-diversidade-como-valor-fotografia-como-instrumento-de-inclusao-por-marta-anisia;

A personagem Tina, a Descolada (uma boneca), visita exposições, festivais e eventos que envolvem fotografia, inclusão e debates acerca de pessoas com deficiências, restrições e diversidades; faz viagens e realiza as mais diversas atividades, mostrando para todos que qualquer pessoa pode fazer quase tudo se houver assistência, adaptações, profissionais qualificados e boa vontade. Marta também publicou o livro “Inclusão: Olhares e Possibilidades”, pela Associação Mineira de Reabilitação (AMR). Link: https://tinadescolada.wordpress.com/2013/03/18/tiradentes-fotografia-inclusiva;

O blog “Elyseu na tela – uma escola inclusiva” é de uma escola de ensino fundamental da cidade de Porto Alegre que proporciona a arte e a inclusão, onde os alunos são estimulados a vivenciar diversas experiências envolvendo as artes nas suas mais diversas expressões. A escola já foi pesquisada por dois alunos de mestrado que produziram as seguintes dissertações: “Imagens para além do olhar: escritas possíveis na escola especial”, da autora Anelise Barra Ferreira, e “Rompendo silêncios: alunos com necessidades especiais narram histórias de inclusão” do autor Marco Aurélio Freire Ferraz, ambos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Link: http://elyseu.blogspot.com.br/2015/06/pintura-de-paineis-na-psicopedagogia.html

O projeto “Eu sou mais eu”, de Rio Branco, no Acre, idealizado pelo fotógrafo Marcus Vicente, tem como objetivo difundir debates entre as pessoas deficientes, reconstruir valores e também levar o debate às pessoas sem deficiência. O idealizador do projeto relatou em entrevista que “o projeto nasceu de um curso de fotografia [...] ministrei esse curso para cadeirantes e amputados, desse curso nasceu esse projeto a fim de valorizar essas pessoas e motivá-las para a vida, cada um fez alguns trabalhos de valorização das suas histórias...”. Como se pode ver, este projeto também promove a inclusão de maneira simples e sem que haja altos custos. Link: https://www.projetoeusou.com.br/

Outro projeto que pode ser apreciado é o “Projeto borboletas”, que proporciona alegria e inclusão para muitas famílias, também por meio da fotografia. Desenvolvido pela fotógrafa Tamara Wagner, esse projeto tem como objetivo compartilhar informações e relatos de famílias relacionadas às crianças com qualquer tipo de deficiência, de necessidades educacionais especiais e/ou restrição motora e cognitiva. Link: https://www.projetoborboletas.com.br

O Instituto Olhar Inclusivo é outro belíssimo projeto que possui uma ação de inclusão social relevante. Trata-se do ensino da fotografia para jovens e adultos com deficiência intelectual. Os alunos têm aulas de fotografia diretamente com professores bem-conceituados no Brasil. Este curso tem como finalidade realizar uma exposição para apresentar à sociedade o desenvolvimento desses alunos.          Link: https://www.catarse.me/projeto_olhar_inclusivo_fotografia_para_deficientes_intelectuais_f684

 O Projeto Lentes inclusivas também traz a fotografia como ferramenta de inclusão. Assim consta na página do projeto: “a fotografia inclusiva surgiu em minha vida por um acaso [...] Cada criança clicada, cada história contata por cada uma das famílias [...] O poder da inclusão através da fotografia é algo mágico, as pessoas precisam enxergar o outro como igual, cada um com suas diferenças. Fotografar pessoas especiais para mim é especial como todo meu trabalho com fotografia”     Link: https://laudianelira.com/                                    

 
   

O projeto Centro de Atendimento ao Deficiente de Itajubá (CAIDI) foi criado por um grupo de cinco estudantes da Universidade Federal de Itajubá com o objetivo de melhorar as vidas de pessoas com necessidades especiais. Segundo consta no site: “Nós acreditamos que a Arte é para todos e que cada um de nós possui uma percepção diferente em relação a ela. Não há limitações que impeçam pessoas de se expressarem através dela. Queremos levar essa ideia para os deficientes físicos, visuais, auditivos e mentais do CAIDI através de oficinas de pintura”.

             O cartunista Victor Klier criou “A Turma da Febeca”, uma história em quadrinhos que tem como personagens crianças com alguma deficiência. O autor afirma que buscou inspiração em crianças reais, e que, como a maioria das pessoas que não tem deficiência, não costumava prestar atenção nas limitações das pessoas com deficiência. Segundo o autor: “Uma das minhas ideias foi criar uma personagem cadeirante e que também fosse protagonista das histórias. Link: http://turmadafebeca.blogspot.com 

             A famosa Turma da Mônica é uma série de histórias em quadrinhos criada pelo cartunista Mauricio de Sousa. As histórias são baseadas no cotidiano das crianças. Em certo momento o criador observou que faltavam personagens com deficiências na turma, o que era um contrassenso, já que suas histórias refletem a vida das crianças, e elas merecem ser tratadas sem preconceito nenhum. Humberto, personagem com deficiência auditiva, foi criado na década de 1960; Dorinha é cega, e seu nome foi uma homenagem a Dorina Nowill, fundadora da Fundação Dorina Nowill; Luca é cadeirante e amante dos esportes, principalmente basquete; André é autista; Tati é uma menina com Síndrome de Down; e Hamyr é um dos personagens que usa muletas. Link: http://turmadamonica.uol.com.br/inclusaosocial/

A coletânea “Era uma vez um conto de fadas inclusivo”, composta por 11 famosas fábulas infantis de Cristiano Refosco (fisioterapeuta especialista em neuropediatria, há 13 anos trabalhando com crianças com deficiência), traz indagações no âmbito da educação geral a respeito da inclusão de alunos especiais no dia a dia das escolas do sistema regular de ensino. O autor relata que “normalmente transforma os contos para distrair as crianças e amenizar a dor durante as sessões de fisioterapia. Eles precisam se familiarizar com isso, além das próprias pessoas com deficiência, os irmãozinhos e familiares. Sempre vejo que, na sala de espera, as outras crianças brincam de empurrar as cadeiras de rodas ou com as muletas". A coleção tem como objetivo educar desde cedo, de forma que se aprenda a conviver e se relacionar com pessoas que possuam habilidades e competências diferentes, expressões culturais e marcas sociais próprias. A criança que convive com a diversidade poderá aprender muito.

Há também a coleção de revistas em quadrinhos “Sesinho”, projeto realizado pelo SESI desde 1947 e que aborda inúmeros temas e debates a respeito da educação inclusiva. É possível encontrar as edições em formato digital, porém edições mais antigas só podem ser encontradas em formato físico. O SESI, como instituição educacional, promove inúmeras ações relacionadas à inclusão e à arte. Além disso, também promove publicações sobre os temas educação e tecnologia, entre outros assuntos. Link: http://www.portaldaindustria.com.br/sesi/canais/sesinho/revista-do-sesinho/

As políticas públicas em relação à inclusão ainda são precárias, e necessitam não só de investimentos, como também de uma formação mais adequada aos professores e profissionais da educação para que seja possível promover uma educação inclusiva real. E como podemos observar nos sites e blogs citados, é possível incluir mesmo sem que haja a necessidade de grandes investimentos e burocracias, nestes casos utilizando a arte como ferramenta inclusiva. Cabe aos gestores escolares, professores do ensino de artes e outras disciplinas fazer uso destas ideias e ferramentas disponibilizadas na Web, e ao mesmo tempo exigirem das autoridades competentes mais investimentos acerca da prática inclusiva.

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