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Crescimento pessoal

05/09/2018 09h30

Conversas sobre CIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE

Em entrevista exclusiva ao jornal Nosso Bem Estar, Rupert Sheldrake, o criador da famosa teoria dos “campos mórficos” fala sobre diversos assuntos destes dois grandes campos do conhecimento.

Por Filipe Marcel

Acervo Pessoal
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Rupert Sheldrake falou com exclusividade ao Nosso Bem Estar sobre ciência e espiritualidade e sobre sua experiência de mais de sete anos na Índia.

Quando o livro “Uma Nova Ciência da Vida” chegou às prateleiras, em 1981, a comunidade científica foi surpreendida com a capacidade que Rupert Sheldrake teve ao explicar o que, até então, parecia inexplicável. O biólogo britânico, hoje com 76 anos, cunhava ali o conceito “ressonância mórfica”, que mostra como os comportamentos de organismos no passado influenciam os organismos no presente. Segundo ele, todos somos reflexos desses hábitos e não apenas o resultado da evolução da natureza. Com isso, a memória coletiva, que é alimentada e compartilhada pelas pessoas, não só faz de nós o que somos, como também influencia diretamente os nossos filhos e filhas. Este conceito ia muito além do que os cientistas pensavam ter descoberto.    

Coincidência ou não, Sheldrake chegou a essa conclusão depois de viver um ano e meio em um ashram de Tamil Nadu, na região sul da Índia. De volta à Inglaterra, ele obteve seu PhD em bioquímica na renomada Universidade de Cambridge. Como pesquisador da Royal Society, estudou o desenvolvimento vegetal e o envelhecimento de células, tendo descoberto, ao lado de Philip Rubery, o mecanismo de transporte da auxina. Essa conquista serviu, mais recentemente, para comprovar que as plantas são capazes de transmitir sinais químicos pelo ar para informar as outras plantas diante de qualquer ameaça.

Autor de mais de 80 trabalhos científicos e com dez livros publicados, entre eles “Cães sabem quando seus donos estão chegando” e as obras que já foram traduzidas para o português, “Sete Experimentos que podem mudar o mundo” e “A sensação de estar sendo observado”, Rupert Sheldrake falou com exclusividade ao Nosso Bem Estar sobre ciência e espiritualidade e sobre sua experiência de mais de sete anos na Índia. Lá ele desenvolveu novos sistemas de cultivo, difundidos no mundo todo, além de expandir sua teoria dos campos mórficos. Além disso, Sheldrake também mostrou a importância de avaliarmos cada semelhança que se apresenta em nossas vidas que, geralmente, reproduzimos sem dar a devida atenção.  Acompanhe nosso papo com o renomado cientista.

Nosso Bem Estar – Desde o lançamento do livro “Uma nova ciência da vida”, os estudos sobre campos mórficos avançaram bastante. Temos visto técnicas como Constelações Familiares, Cura Prânica, Ho'oponopono e muitas outras terapias que utilizam esse conhecimento para curar feridas do passado e realinhar o presente na vida das pessoas. O que mais nessa área do campo mórfico tem chamado a sua atenção?

Rupert Sheldrake - Já existem vários estudos sobre os efeitos da ressonância mórfica na aprendizagem humana, com resultados positivos. Os campos mórficos realmente estão sendo empregados em uma variedade de técnicas terapêuticas, e as Constelações Familiares são aquelas com as quais eu mais estou habituado a lidar.

NBE – Falando um pouco de ressonância mórfica, o processo de herdar memórias inconscientemente. Como podemos identificar a fonte disso em nossas ações? Você descreve no livro "A Presença do Passado" que os campos mórficos funcionam padronizando os eventos. É possível atuarmos nesse campo, apenas, mudando as repetições mais comuns do dia a dia?

RS - A ressonância mórfica contribui para um tipo de memória coletiva, que o psiquiatra Carl Jung chamou de “inconsciente coletivo”. Uma das maneiras pelas quais isso influencia nossas ações é facilitar a aprendizagem do que já foi aprendido, antes, por muitas pessoas. Por exemplo, quando um bebê cresce em uma família de língua portuguesa, ele aprende a falar português muito mais rápido do que seria esperado com base em nossa compreensão normal da aprendizagem humana. Se o mesmo bebê fosse adotado por uma família chinesa, na China, ele cresceria falando chinês e aprendendo com a mesma facilidade. Esse fenômeno levou Noam Chomsky a sugerir que o aprendizado da língua é inato e que isso deve ser codificado em nossos genes.

NBE – O que acha disso?

RS – Concordo com Chomsky.  Essa capacidade é herdada, mas em vez de ser codificada nos genes, acho que depende da ressonância mórfica. A ressonância mórfica também pode estar na base da habilidade das pessoas em aprender novas habilidades mais rapidamente com o passar do tempo, como no skate, no windsurf ou na programação de computadores. Acredito que a ressonância mórfica também está por trás de um aumento notável nas pontuações médias dos testes de inteligência nos últimos 100 anos, um aumento de mais de 30%. Não acho que isso aconteça porque as pessoas estão se tornando mais inteligentes, mas simplesmente porque essas perguntas padronizadas estão se tornando mais fáceis, afinal, muitas pessoas já as fizeram.

NBE - De que maneira os anos que passou na Índia influenciaram a sua vida? O que mais aprendeu no ashram de Shantivanam, além dessas conclusões que podemos ver em seus livros?

RS - Passei sete anos na Índia e o que eu posso dizer é que eles tiveram um grande efeito em minha vida. Na maior parte do tempo, estava pesquisando culturas agrícolas em um Instituto de Pesquisa Internacional. Realmente, aprendi muito com aqueles com os quais trabalhei, mas também com aqueles que encontrei durante esse tempo que passei por lá. Poucos deles eram ateus ou materialistas, ao contrário da maioria das pessoas que eu conheço na Inglaterra. Quase todos tinham fé na realidade do mundo espiritual e, como resultado disso, pareciam bem mais felizes. Passei dois anos vivendo no ashram de Shantivanam, período bastante útil em diversos aspectos, pois pude adotar a prática espiritual regular de meditação, que eu ainda faço, diariamente.

NBE – Como foi seu contato com o padre beneditino Bede Griffiths (1906 – 1993), que, assim como você, veio de uma família britânica, mas optou por viver na Índia? O que aprendeu com ele durante esse período em Shantivanam?

RS – Ele combinou uma profunda compreensão das tradições místicas e filosóficas cristãs e orientais, mostrando quanta concordância havia entre elas e, também, quais eram as diferenças cruciais. O Bede Girffiths, ou Swami Dayananda, como ele era conhecido, foi meu principal guia espiritual e, ainda, influencia minha vida. O meu livro mais recente “Ciência e práticas espirituais”, inclusive, é fruto desse meu tempo com ele na Índia.

NBE – Ainda sobre o seu trabalho na Índia, conte-nos um pouco como foi desenvolver esse projeto para trazer vida às áreas mais áridas da região?

RS – Lá eu trabalhei no Instituto Internacional de Pesquisas de Culturas para os Trópicos Semiáridos (ICRISAT). Estudei a fisiologia de duas culturas: grão-de-bico e feijão guandu. Nossas descobertas ajudaram na criação de variedades de alto rendimento, ainda mais resistentes à seca, pragas e doenças. Agora, essa metodologia está sendo usada por agricultores na Índia, África e até no norte do Brasil. Também desenvolvemos novos sistemas de cultivo para garantir o crescimento de feijão guandu como plantas perenes, que aumentaram a produtividade dos agricultores na Ásia e na África. Uma grande vantagem dessas culturas é que elas são muito resistentes à seca e podem ser cultivadas em áreas onde os agricultores não possuem qualquer irrigação.

NBE – Voltando à ressonância mórfica, em seu livro "Os cães sabem quando seus donos estão chegando", entendemos que os animais sentem o retorno do proprietário para casa, inclusive chegando a ir até a porta meia hora mais cedo. De que maneira isso é estabelecido, uma vez que não pertencem à mesma raça?

RS – A telepatia ocorre entre pessoas e animais, emocionalmente, ligados. No mundo humano, a telepatia ocorre mais comumente entre mães e filhos, parceiros, amigos íntimos, gêmeos e irmãos. Entre os animais selvagens ocorre dentro de matilhas de lobos e entre membros de bandos de aves. Quando animais domésticos como cães vêm e vivem em uma família humana, eles nos adotam como sua matilha e formam fortes laços emocionais. Esses laços são a base para a sua conexão telepática conosco. É por isso que muitos cães, gatos e até papagaios podem pegar a intenção de seus donos de voltarem para casa mesmo quando seus donos ainda estão a muitos quilômetros de distância.

NBE – Conhecendo a influência dos campos mórficos de forma bastante ampla como você os conhece, que tipo de mudanças ou aprofundamentos conseguiu estabelecer em sua vida? Foi possível fazer alguma mudança prática e definitiva a partir deste conhecimento?

RS – Os campos mórficos fundamentam os hábitos pessoais e coletivos, reforçando bons e maus hábitos. A ressonância mórfica é moralmente neutra. Por isso, é ainda mais importante que escolhamos bons hábitos em vez de maus hábitos, porque eles são reforçados não apenas pelo nosso comportamento passado, mas também por muitas outras pessoas. Nós, por sua vez, influenciamos os outros. Basicamente, é esse o tipo de mudança que devemos buscar a partir deste conhecimento.

 

NBE – Qual tem sido o foco dos seus estudos e o que mais tem captado a sua atenção nesse momento?

RS – Atualmente, estou escrevendo um segundo livro sobre ciência e práticas espirituais. O primeiro livro, já publicado em inglês, abrange meditação, gratidão, canto e orações, mostrando a importância de nos conectarmos com a natureza, de nos relacionarmos com as plantas, além da energia presente em rituais e peregrinação. O segundo volume abrange mais de sete práticas espirituais, incluindo oração e jejum, até a importância dos animais em nossa vida, práticas esportivas e a importância de cultivar bons hábitos. Também continuo minha pesquisa sobre telepatia e outros fenômenos inexplicáveis. Participo de diálogos regulares com amigos e colegas, incluindo o filósofo Mark Vernon, o bispo da Califórnia Marc Andrus e o teólogo Matthew Fox. Estes materiais estão todos disponíveis no meu site, incluindo um recente diálogo que tive com Russell Brand, o comediante britânico.

Para mais informações acesse www.sheldrake.org

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