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Crescimento pessoal

17/04/2018 09h30

Em viagem pelo caminho do meio

Impressões de uma jornalista em um retiro budista de 10 dias

Por Elisa Dorigon

Acervo Pessoal
M11

Retiro de Verão no Centro de Estudos Budistas Bodisatva.

Enquanto arrumava minha bagagem para passar os próximos 10 dias em retiro, caia uma forte chuva na cidade. A ansiedade aumentava um pouquinho mais, a água caia lá fora e, aqui dentro de mim, era uma tempestade só.

Pensamentos muito confusos, impaciência, cansaço mental e físico chegando aos extremos... nada parecia trazer um alívio verdadeiro, nem mesmo o contato com as pessoas queridas ou o conforto de chegar em casa após um dia de trabalho. A sensação era que estava ficando sem bateria e não havia nenhuma tomada por perto.

A motivação inicial foi, então, carregar as baterias.

O Retiro de Verão no Centro de Estudos Budistas Bodisatva, na sugestiva Estrada do Caminho do Meio, em Viamão/RS, foi o meu destino.

Decidi me afastar das redes sociais, do barulho da cidade, família e amigos, da minha zona de conforto (que de conforto não tinha nada) e partir rumo ao desconhecido. Apesar de namorar o budismo há muitos anos, ter lido muitos livros sobre o assunto, acompanhar palestras, frequentar grupos de estudos e meditar muito de vez em quando, nunca havia saído da intelectualidade e mergulhado na prática.

É para todos que têm curiosidade de saber o que acontece num retiro como este, que partilho minha experiência. Mas vale lembrar que apesar do que a todos é comum, a viagem é única e particular e está em cada um decidir embarcar.      

1º dia

Na chegada, já percebo o acolhimento. Após o check-in, procuro meu nome na listagem para saber em que alojamento ficaria. Uma praticante gentilmente me acompanha para que eu deixe minha bagagem no quarto que dividiria com mais de vinte pessoas. O primeiro desafio estava lançado. Acima da porta, estava escrito: Nó Sem Fim.

Deixo minhas coisas e volto pensativa, o que significaria Nó Sem Fim?

O jantar estava servido e faço minha primeira refeição: sopa e pão integral com pastinhas deliciosas. Saudável e saboroso. Como havia me inscrito para colaborar com a limpeza após o jantar, me reuni ao grupo para secar a louça, guardar os utensílios e auxiliar no processo coletivo. Rapidamente estava tudo organizado.  

Logo ouviríamos as palavras iniciais do Lama Padma Santem, mestre que conduziria os ensinamentos durante todo o retiro.

Pelos ensinamentos iniciais já percebo a qualidade e profundidade do conteúdo que teremos a oportunidade de receber de um mestre tão compassivo e o quão importante será absorver esse conhecimento para que possamos, enfim, aplicar em nossas atribuladas vidas.   

E às 22 horas já estávamos todos nos alojamentos, onde cartazes lembravam a necessidade de respeitarmos o nobre silêncio.  

2ª dia

A lalaô, ôôô, ôôô ... Cinco horas da manhã de um sábado de carnaval e eu estava acordando para meditar. Assim como eu, outras 182 pessoas de todas as partes do Brasil decidiram trocar os dias de folia por uma chance de acalmar a agitação interna. Éramos uma grande ala dos buscadores, despidos de fantasia, entoando mantras como samba enredo. Cada um com sua história, mas todos aspirando que a vida fosse um pouco melhor, para poder seguir.

O cronograma básico de todos os dias consistia em: Meditação (5:30); Puja (preces, 6h); Café da Manhã (7h), seguido de atividades voluntárias de limpeza. Às 9 horas, ensinamentos com o Lama; ao meio-dia almoço, seguido de atividades voluntárias de limpeza.

A programação retornava às 14 horas com Meditação, seguida de novos ensinamentos, que seguiam até às 17h, quando aconteciam as atividades físicas de Yoga, Tai Chi Chuan, ou Chi Kung.

O jantar era servido às 18 horas, seguido de atividades voluntárias de limpeza. Às 20 horas, novos ensinamentos com o Lama. As atividades encerravam por volta de 22 horas.

Ao final do dia, após ter cumprido com todas as atividades, o cansaço tomou conta do meu corpo e tive uma forte dor de cabeça. Junto com isso, uma sensação de que não ria conseguir fazer os 10 dias de retiro a que tinha me proposto. Caí como uma pedra na cama.

3º dia

Acordei nova e com a sensação de que seria, sim, capaz de cumprir a agenda do retiro e que sairia daquela experiência mais fortalecida e capaz de seguir minha caminhada dentro do Samsara, a eterna roda da vida, os ciclos incessantes de nascimento e morte, reduzindo carmas e aumentando méritos.

Lama Samten nos falou sobre as Quatro Nobres Verdades: o sofrimento, suas causas, a possibilidade de liberação do sofrimento e o caminho que nos leva a esta liberação. Para isto, comentou a importância de entendermos os outros no mundo deles, sem nos afetarmos por suas ações negativas no mundo, mas enxergando neles a possibilidade de agir de forma diferente. “Irrigar a possibilidade positiva do outro”, diz o Lama.

4º dia

Pra muita gente, domingo é dia de comer feijoada. Como a alimentação do retiro é 100% vegetariana, o prato típico sofreu uma adaptação nos ingredientes sem perder sabor. O barulho da chuva foi a trilha sonora deste almoço especial e percebo que, aos poucos, as pessoas vão se integrando mais.

São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, diferentes idades e sotaques, muita coisa para trocar. Entre todos, uma pessoa em especial me chama a atenção, Paulo, um praticante deficiente visual. Sem dúvida, nosso convívio foi uma oportunidade de ouro de tirar o foco do próprio umbigo e perceber as necessidades do outro. Uma história fantástica de vida que tive o privilégio de ouvir atentamente. Paulo comenta a necessidade de ter à disposição dos cegos, como ele mesmo se definia,  mais áudios de livros de temática budista. Brota em mim o desejo de participar deste projeto e combinamos que eu mandaria em áudio os livros que leria dali em diante.

Nos ensinamentos de domingo à tarde, as palavras do Lama selam esta percepção: “Sozinhos, separados do grupo, não conseguimos atingir a liberação.”

5º dia

Em pleno verão, acordo com chuva e frio. Ainda está escuro quando saio do alojamento para meditar. Apenas sente, tendo a meditação como caminho. Os pensamentos surgem e cessam, o objetivo é ter lucidez frente ao que surge. São manifestações da mente, não são realidades absolutas.

Tenho um dia mais introspectivo e saio para caminhar, silenciosamente.

6º dia

Acordo e faço uma limpeza completa nos banheiros do alojamento. Não estamos em um SPA, e esta é, também, uma forma de praticar. Tudo funciona muito bem, e confesso que o convívio harmonioso me impressiona. Como é possível que um evento deste porte funcione de forma tão orquestrada e tenha um clima tão amistoso? Claro que existe uma equipe responsável para que a coisa aconteça, mas é fundamental a participação de todos os praticantes, a chamada Sanga... e tudo acontece de forma fluída.

Lama Samten fala sobre Shamata, a meditação uni direcionada a um foco. No caso do CEBB, o foco utilizado são os 5 Lungs. São ensinamentos profundos e preciosos, capazes de reduzir nossas emoções perturbadoras.

 

À tarde recebemos a visita de monges Zen Budistas. Foram momentos de muita emoção. O encontro de diferentes linhagens, que comungam da mesma intenção. O Buda é um só.

Monge Dengaku falou da estranheza de quem participa de um retiro pela primeira vez e se questiona: como isto pode funcionar e trazer alguma explicação para minha vida? Ele diz que a Sanga é um grandioso tesouro que temos a oportunidade de experienciar. “Viver em comunidade, quase sempre dá certo, é difícil, os desconfortos são inúmeros. Estamos acostumados a pensar que o outro sempre está errado. Pensamos tanto assim, que esquecemos do principal, de nós. Aqui, viemos treinar olhar pra dentro, e perceber estas dificuldades”, disse o monge.

7º dia

Passo pela cozinha e escuto mantras. A Sanga inicia a preparação dos alimentos que farão parte do Tsog que acontecerá à noite, uma cerimônia onde praticamos o contato com as aparências a partir dos cinco sentidos (atração e aversão).

Celebraremos também o Ano Novo Budista, dando início ao ano de 2145, ano do cachorro da terra, de acordo com o calendário tibetano.

Todos escolhem suas melhores roupas e os ensinamentos da noite dão lugar a uma linda celebração, onde um grande banquete é servido. Parte da comida comemos, parte é doada em oferenda, uma oportunidade de testarmos nossa estabilidade frente às aparências, nossos impulsos de ação, indo além do gostar e do não gostar.

Comemos o que gostamos e oferecemos o que não gostamos? Ou oferecemos o que gostamos?

Passamos uma noite em comunhão, algumas apresentações culturais fecham a cerimônia e sinto a alegria que é caminharmos juntos e com os mesmos propósitos.

8º dia

O retiro se encaminha para o final. Para quem achava que não iria aguentar tantos dias de prática, já começo a sentir a quantidade de energia movida e sinto-me agradecida por esta experiência. Será que manterei os laços que fiz aqui? Como será chegar em casa? Como será voltar para as atividades de trabalho e vida doméstica? Não quero pensar nisto agora, afinal, esta sim será a prática e será em meio às dificuldades do Samsara que terei que me mover, com tudo que aprendi e vivenciei aqui.

9º dia

Saio para ver o pôr do sol com a “ala jovem” do retiro. Violão na mão, muita música, muita risada, me permito soltar. O que acontece que nos embrutecemos tanto? Como perdemos nossa essência no decorrer da vida e passamos a viver como simples engrenagens enferrujadas? Contemplo a natureza e peço, que eu não me perca disto.  

10º dia

Amanhecemos já em clima de despedida. Pegamos os contatos dos praticantes de longe, prometemos não nos deixarmos pelo caminho. Muitos abraços carregados de emoção.

Lama Samten fala sobre como nos movermos no mundo, pós meditação, e como o trabalho individual pode repercutir no ambiente que vamos encontrar.

Não há milagres, a dica é MANTENHAM A PRÁTICA!

Após receber a benção do Lama, volto pra casa agradecida por ter vivido uma experiência de tamanha riqueza. E que os méritos gerados por esta prática se expandam e toquem à todos!

Todos os ensinamentos do retiro estão disponíveis no canal do CEBB no YouTube.

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