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Planeta

08/10/2017 22h45

Capitão Klink

Ele não tem medo do mar aberto, nem de falar o que pensa. 

Por Filipe Marcel

NBE | Amyr Klink
Amyr klink 4

Conversa com Amyr Link

Com a coragem e o conhecimento que adquiriu remando sozinho por mais de 30 anos, Amyr Klink fala ao Nosso Bem Estar sobre o mar, a vida e o tempo que ele não quer mais perder.

Quando iniciou sua primeira travessia do Atlântico Sul, em 1984, Amyr Klink não imaginava que conheceria o mundo – e muito menos a si próprio – da maneira que conhece hoje. Prestes a completar 62 anos, após mais de cinquenta expedições, o navegador brasileiro ensina em suas palestras que a vida deve ser experimentada e não apenas alimentada com histórias, imagens, livros e programas de televisão.

Filho de pai libanês e mãe sueca, Amyr começou a frequentar a região de Paraty (RJ) com a família aos dois anos de idade. Hoje, o paulistano, pai de três filhas, se instalou em uma das ilhas da região onde só é possível chegar de barco. Ele ainda administra uma marina com cerca de 300 barcos, entre outros negócios que possui, sempre tendo o mar como sua principal fonte de inspiração, como é o caso da Amyr Klink Planejamento e Pesquisa (AKPP), que desenvolve plano diretores para cidades costeiras em litorais.

Economista e administrador formado pela Universidade de São Paulo (USP), ele deixou toda a perspectiva de crescimento oferecida pelo banco no qual trabalhava para remar o próprio barco e, literalmente, não olhar mais para trás. Em 1989, realizaria sua segunda grande travessia, desta vez para a Antártica, só retornando ao Brasil exatos 942 dias depois. Ao longo dos anos, Amyr foi adquirindo experiência em construir barcos, participando diretamente de todo o processo, desde a escolha dos materiais, até os testes em alto mar. ”Gosto muito de tudo isso. Eu não teria paciência para ser um turista e simplesmente viajar sem passar por todo esse processo”, afirma o explorador.

Essa paixão pelas viagens de barco começou em 1978, quando Klink realizou, sozinho, a travessia Santos-Parati em uma canoa. Em 1980, concluiu os trechos Parati-Santos e Salvador-Santos e, dois anos depois, velejou de Salvador a Fernando de Noronha, de onde partiu direto e reto para a Guiana-Francesa. “Hoje até o meu escritório fica em cima do mar, instalado sobre uma plataforma flutuante que eu mesmo desenhei e desenvolvi, e que até já virou um modelo no Brasil. Tenho 700 pessoas trabalhando na minha marina. A maioria tira mais do que o gerente do banco em que eu trabalhava. Todos são muito felizes. Um cara que limpa fundo de barco na minha marina ganha 30 mil reais por mês”, compara.

 “Eu acho que não teria feito o que fiz se tivesse os recursos que queria na época. Ao olhar para trás, eu vejo que não sabia se a temporada iria dar certo, mas, ufa, conseguimos colocar no mar todos os barcos que construímos”

 

Descobridor dos sete mares

A maioria das suas histórias na navegação  aparece retratada nos livros “Cem dias entre o Céu e o Mar”, “Paratii-Entre dois Pólos” e “As Janelas do Paratii”, no qual narra o trajeto de 27 milhas da Antártica ao Ártico. Em sua passagem pelo Rio Grande do Sul, a um convite da Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos), Amyr revelou, em entrevista ao Nosso Bem Estar, a preocupação com a poluição dos mares e com a falta de cuidado com o meio ambiente. “A gente vive hoje uma cultura do desperdício, onde mantemos uma ignorância muito grande em relação às questões humanas”, refletiu. Ele também aproveitou para criticar toda a cultura criada em torno da reciclagem. Segundo ele, reciclar é uma forma errada de lidar com o lixo que produzimos. “Eu sou contra reciclagem. Nós temos que criar um processo industrial, de vida, que seja circular. Uma economia onde o material seja projetado para ser parte do processo seguinte na escala, e não algo para jogarmos no lixo e simplesmente virar as costas. Fora onde? Fora é o planeta”.

 

Milhas e milhas de poluição

 “A minha mulher [Marina Bandeira, com quem Amyr é casado há 21 anos] tem um blog que chama ‘Um café e a conta’. Recentemente, uma das principais marcas do segmento  enviou algumas cápsulas de café para ela experimentar e avaliar. Pelo amor de Deus! É uma ofensa para mim! Café brasileiro, colombiano, processado na Suíça, que vem numa embalagem de poliéster, um baita polímero caro, com tampa de alumínio? Você já imaginou se 200 milhões de brasileiros começarem a tomar dois cafezinhos por dia? É uma desgraça!”, recorda o navegador. “Ah, mas a loja recebe as cápsulas vazias! É muita prepotência de uma empresa achar que, para cada um dos 20 mil itens que são consumidos no supermercado, o cliente irá seguir um endereço e encaminhar à reciclagem. Não, não tem que reciclar! Tem que achar uma solução diferente, degradável, ou que faça parte de outro processo para resolver essa questão da embalagem, mas a embalagem de café em cápsula eu não aceito”, emenda Klink.

Ao avaliar os impactos da poluição nos oceanos, Amyr é ainda mais enfático: “tem muita coisa que eu poderia citar, mas seria uma atitude um pouco hipócrita da minha parte se eu tratasse da redução das geleiras, por exemplo. O que eu posso falar é sobre a  ação dos raios ultravioletas, pois eu estava acostumado a ficar dias sem camisa, tomando sol. Hoje, se eu ficar duas horas com o braço de fora nessa região da Antártica, eu vou parar no hospital com queimadura”, compara. “Sobre essa história de toneladas de plástico no Oceano Atlântico, eu acho uma visão muito parcial e equivocada de contaminação. Essas manchas de plástico que se formam, normalmente nos eixos dos anticiclones, é só um lado do problema e também o lado mais fácil de resolver. Atualmente, temos outros tipos de poluição que são muito piores de solucionar, que são os plásticos que afundam ou a poluição química que a gente não vê”, emenda. “O Brasil é uma região do planeta que eu gosto, mas que ainda tem muita coisa para ser feita. Nosso país tem um ambiente bastante frágil. É impressionante quando você vê a quantidade de lixo nas praias brasileiras! A gente não encontrou um jeito de ocupar as regiões utilizando os mecanismos certos para corrigir os impactos. Só estamos testemunhando o câncer avançar. Veja como está a Baía de Guanabara!”, alfineta.

 

O universo num casco de barco

Foi navegando sozinho que Amyr Klink conseguiu chegar à conclusão de que é mais difícil acessar a origem das coisas quando se tem uma exuberância de tecnologia envolvida. “A gente torna tudo muito complexo, por isso, tenho feito um trabalho quase contrário, de tirar a tecnologia para encontrar a essência e, assim, conseguir fazer um barco que funciona”, aponta Klink. “Eu gosto muito desse processo. A viagem é só a última parte”, emenda. Para ele, o fato de olharmos muito para outros países, muitas vezes colocando outras culturas como se fossem modelos a serem seguidos, impede a auto-análise necessária para nosso próprio crescimento. “O brasileiro tem muita iniciativa, mas muitas vezes não conclui nada. A gente não tem esse esmero de acabar, de concluir. A gente faz para resolver o dia, para matar o problema, para ir até o mês seguinte”, avalia o navegador. 

 “Nosso país tem um ambiente bastante frágil. É impressionante quando você vê a quantidade de lixo nas praias brasileiras! ”

 

Amyr aproveita para condenar as políticas públicas que, segundo ele, estão prejudicando a cultura dos barcos no Brasil, até então considerada umas das mais ricas do mundo. “A Amazônia proibiu o uso da itaúba, que era a madeira principal para a construção naval. Em dez anos, a região da Grande Manaus se transformou no maior polo de estaleiros clandestinos de alumínio do mundo. Lá, o rio é doce e não salgado, daria para utilizar aço sem problemas. Antes, 95% das canoas eram de madeira, 5% era de fibra. Hoje é exatamente o contrário”, analisa. O navegador ainda considera que a madeira é um material renovável e disponível na floresta, enquanto a fibra se mostra um material caro e de difícil reincorporação no ciclo produtivo.

Sem medo de falar o que pensa, Amyr defende a economia compartilhada como meio de restabelecer a economia no País.  “O rico brasileiro, quando tem dinheiro, quer comprar um barco só para ele. O europeu faz diferente. Você vê em Palma de Mallorca [no litoral da Espanha], eles faturando 20 bilhões por ano só nos serviços de turismo e locação de barcos. O Brasil ainda não colocou os pés nessa indústria. O Rio de Janeiro, por exemplo, não tem uma locadora de barco sequer”, compara. De uns anos para cá, a atividade náutica em outras partes do mundo é uma das que mais tem se aproveitado dos modelos de time-share, ou propriedade compartilhada, sendo uma indústria que, segundo Amyr, contamina outras de maneira positiva, gerando mais oportunidades para outros setores.

Foi pensando neste e em outros desperdícios que ele decidiu lançar, no fim do ano passado, o livro “Não há tempo a perder”, que já aparece entre as obras mais vendidas do Brasil, na categoria biografias e memórias. “O tempo é a única grandeza que o homem nunca irá conseguir recuperar”, enaltece o explorador. Tempo, aliás, é algo que ele conhece e valoriza como ninguém. Em suas viagens, ele costuma dormir em intervalos de 45 minutos, não mais que cinco vezes por dia. O resto das marcações feitas no relógio é sempre utilizado para cumprir um cronograma intenso de atividades dentro do barco.

Analisando a carência e orçamentos apertados com que trabalhou em grande parte da sua carreira de navegador, Amyr destaca que a situação permitiu que ele desenhasse coisas mais interessantes do que se tivesse dinheiro para gastar em seus projetos. “Eu acho que não teria feito o que fiz se tivesse os recursos que queria na época. Ao olhar para trás, eu vejo que  não sabia se a temporada iria dar certo, mas, ufa, conseguimos colocar no mar todos os barcos que construímos”, brinca Klink.

 

*Com a colaboração de Vera Mari Damian e Max Bof

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